Opinião

O contencioso do BPC e a redefinição contemporânea da deficiência

Ao analisar a dinâmica do Benefício de Prestação Continuada (BPC) no sistema contencioso, é possível perceber mudanças relevantes na própria cultura jurídica brasileira. Já não se discutem apenas renda, perícia ou critérios administrativos, mas o próprio conceito jurídico de deficiência.

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Em muitos processos, a controvérsia deixou de se concentrar exclusivamente na existência de impedimentos funcionais objetivamente identificáveis. O que aparece com frequência crescente é uma análise mais ampla das condições concretas de participação social do requerente. A deficiência passa a ser percebida de maneira mais contextual.

Isso se torna particularmente visível nas ações em que os autos praticamente se organizam em torno da trajetória de vulnerabilidade da parte autora. O laudo médico continua importante, naturalmente. Mas, em muitos casos, a convicção judicial parece se formar sobretudo a partir de outros elementos: histórico de informalidade permanente, baixa escolarização, ausência de rede familiar minimamente estruturada, dificuldade de deslocamento urbano, dependência de terceiros, inserção territorial precária e sucessivas tentativas frustradas de trabalho.

A perícia social passou a ocupar posição cada vez mais central nesse tipo de demanda. Ao fornecer dados complementares sobre as condições concretas de vida do requerente, o relatório social frequentemente exerce função interpretativa relevante dentro do processo assistencial. Em muitos casos, organiza uma narrativa institucional de exclusão que acaba influenciando a própria compreensão judicial acerca da deficiência.

Em certa medida, o modelo biopsicossocial favoreceu esse deslocamento interpretativo. O antigo paradigma biomédico trabalhava com categorias mais delimitadas. A análise se concentrava na limitação funcional individual e em seus efeitos objetivos sobre a autonomia ou sobre a capacidade laboral. O modelo social da deficiência produziu inflexão importante ao incorporar as barreiras externas como elemento constitutivo da própria restrição de participação.

O problema é que, em sociedades marcadas por desigualdades persistentes, as barreiras sociais tendem a se expandir indefinidamente. Em muitos processos, torna-se difícil separar deficiência, pobreza estrutural e exclusão econômica prolongada. Não porque o conceito jurídico tenha desaparecido, mas porque a experiência concreta dos indivíduos frequentemente apresenta esses fatores de maneira sobreposta.

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Há casos em que o impedimento funcional é relativamente moderado em abstrato, mas produz efeitos severos em contextos de extrema precariedade social. A baixa escolarização limita drasticamente possibilidades de reinserção. A informalidade reduz oportunidades compatíveis com restrições físicas. A ausência de transporte adequado transforma limitações leves em obstáculos relevantes. O ambiente social amplia incapacidades que, isoladamente consideradas, talvez não fossem suficientes para caracterizar deficiência em sentido mais tradicional.

Essa realidade aparece diariamente nas audiências, nos estudos sociais e na própria fundamentação das decisões judiciais.

Também ajuda a explicar a importância assumida pelo CadÚnico dentro da judicialização assistencial. O cadastro deixou há muito de funcionar apenas como instrumento administrativo de aferição econômica. Em muitos processos, atua como elemento institucional de validação da vulnerabilidade. A inscrição prévia em programas sociais produz uma espécie de reconhecimento estatal da precariedade, que acaba irradiando efeitos sobre a interpretação do caso concreto.

Não é raro perceber decisões em que o conjunto probatório parece menos voltado à identificação técnica de um impedimento específico e mais orientado à avaliação da possibilidade real de inserção social minimamente autônoma.

Essa mudança não decorre apenas de construção doutrinária. Há transformações culturais mais amplas atravessando o Direito contemporâneo. A linguagem judicial tornou-se mais permeável a categorias ligadas à vulnerabilidade, exclusão e reconhecimento social. Relatórios sociais passaram a ocupar espaço argumentativo muito mais relevante do que ocupavam há algumas décadas. A fundamentação das decisões incorporou com maior naturalidade elementos contextuais que antes apareciam como juridicamente periféricos.

Ao mesmo tempo, permanece uma dificuldade institucional importante

O BPC continua sendo benefício estruturado a partir de hipóteses normativas relativamente específicas. E sistemas assistenciais dependem de algum grau de previsibilidade conceitual para preservar mínima coerência distributiva. Quanto mais amplos se tornam os critérios interpretativos, maior tende a ser a variabilidade decisória.

Essa tensão aparece de forma bastante clara na jurisprudência. Há decisões mais abertas à leitura contextual da deficiência, especialmente quando o caso revela ciclos persistentes de exclusão social associados a limitações funcionais ainda que moderadas. Outras procuram restabelecer critérios mais objetivos de aferição justamente para evitar que o benefício se converta em mecanismo amplo de compensação da pobreza estrutural.

O desafio contemporâneo está precisamente na interseção entre essas duas racionalidades. A deficiência passou a ser compreendida de maneira cada vez menos isolada do contexto social em que o indivíduo vive. Mas a vulnerabilidade social ampla também não pode ser integralmente absorvida pelo conceito jurídico de deficiência sem dificuldades relevantes para a própria coerência do sistema assistencial.

O contencioso do BPC acabou se transformando em espaço particularmente sensível dessa ambiguidade. Boa parte das decisões parece tentar responder a situações concretas de desproteção intensa sem dispor, necessariamente, de categorias inteiramente estáveis para isso. O sistema vai ajustando critérios aos poucos, incorporando elementos contextuais, ampliando o peso das barreiras sociais e flexibilizando certas leituras mais rígidas da incapacidade funcional.

O processo assistencial contemporâneo passou, portanto, a lidar menos com diagnósticos isolados e mais com trajetórias sociais marcadas por limitações funcionais associadas a contextos persistentes de exclusão.

 


Referências

BRASIL. Lei nº 13.146/2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência.

BRASIL. Supremo Tribunal Federal. RE 567.985/MT.

BRASIL. Turma Nacional de Uniformização. Tema 187.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (Ipea). Estudos sobre deficiência, proteção social e vulnerabilidade.

Mariana Asevedo Rangel

é procuradora federal, com atuação na área previdenciária (equipe de Segurados Especiais e Assistência Social da PRF-1).

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