Opinião

‘Me formei. E agora?’

O fim da graduação não é o fim da formação

A formatura costuma ser vendida como um ponto de chegada. Em alguma medida, ela é. Para muitas famílias brasileiras, especialmente em um país desigual como o nosso, concluir um curso superior representa o encerramento de uma pequena epopeia pessoal. Há anos de deslocamentos, mensalidades, livros, estágios, ansiedade, noites mal dormidas [1] e expectativas acumuladas em torno daquele diploma.

Mas a pergunta inevitável aparece logo depois da fotografia da colação e da postagem no Instagram: “e agora?”.

Nem toda pessoa recém-formada seguirá o mesmo caminho. Algumas descobrirão rapidamente que desejam ingressar no mercado privado. Outras encontrarão vocação na advocacia pública, nos concursos ou na magistratura. Algumas perceberão que desejam pesquisar, lecionar e construir uma trajetória acadêmica. Outras descobrirão exatamente o contrário — e isso não constitui fracasso algum.

O primeiro erro talvez seja imaginar que existe um único modelo correto de sucesso profissional. A vida profissional é vívida em bons exemplos que infirmam a lógica anglófona do one size fits all. Dito de outra forma, há várias maneiras de ser (in)feliz

Os seres humanos não fazem fotossíntese

Existe uma dimensão concreta da vida adulta que nenhuma retórica acadêmica elimina: as pessoas precisam trabalhar. Para a imensa maioria dos brasileiros, trabalho não é apenas “realização pessoal”; é sobrevivência [2], autonomia e responsabilidade familiar.

Por isso, as decisões tomadas após a graduação exigem um mínimo de planejamento racional. Vale perguntar:

Eu gosto do que faço?

Sou realmente bom nisso?

Quero transformar isso em profissão ou apenas em interesse intelectual?

O mercado dessa área está crescendo ou diminuindo?

Quero estabilidade ou autonomia?

Tenho perfil para uma rotina voltada mais para o operacional, ou admiro mais a atividade reflexiva?

Essas perguntas importam porque muitas vezes existe um romantismo artificial em torno da pós-graduação, especialmente no Direito. Nem todo bom aluno precisa fazer mestrado. Nem todo profissional bem-sucedido terá doutorado. E nem todo doutor encontrará felicidade e popularidade [3] acadêmica.

Há pessoas profundamente vocacionadas para a pesquisa. Há pessoas profundamente vocacionadas para a prática profissional. Há pessoas capazes de transitar entre ambas as dimensões. O importante é compreender honestamente qual é o próprio perfil.

Pós-graduação não é continuação automática da graduação

Uma das maiores ilusões contemporâneas é imaginar que o caminho “natural” após o bacharelado seja emendar imediatamente uma pós-graduação stricto sensu.

Spacca

Nem sempre é.

Um intervalo entre a graduação e o mestrado pode ser extremamente saudável. A experiência profissional amadurece problemas teóricos, cria repertório humano, expõe limitações práticas e impede que a vida acadêmica se transforme em mera extensão burocrática da universidade.

Nesse contexto, a especialização costuma funcionar como uma excelente etapa intermediária. Ela permite aprofundamento técnico sem exigir, ainda, a dedicação existencial que um mestrado ou doutorado demandam.

Porque é importante dizer isso com honestidade: pós-graduação séria não é simples. Pós-graduação séria reprova estudantes inaptos durante as disciplinas, bem como na banca de defesa.

E aqui talvez seja importante abandonar tanto a romantização quanto a caricatura. Não existem “critérios matemáticos” para definir quem deve fazer especialização, mestrado ou doutorado. Ainda assim, algumas balizas práticas ajudam a pessoa a refletir sobre o que está buscando.

Se alguém imagina fazer uma especialização lendo menos de 20 ou 30 páginas por dia, provavelmente não aproveitará o curso como deveria. No mestrado, a exigência naturalmente aumenta. No doutorado, a leitura deixa de ser episódica e passa a integrar a própria estrutura da vida cotidiana.

Isso não significa transformar a pós-graduação em uma competição quantitativa de páginas lidas — até porque leitura acadêmica séria não funciona assim. Há dias em que um pesquisador lê cem páginas; em outros, passa horas tentando compreender dez páginas particularmente difíceis (ex: leitura de Michel Foucault ou de Gadamer). Em pesquisa, qualidade de leitura vale mais do que metragem.

Mas existe um dado inegociável: quem não gosta minimamente de ler, escrever, revisar ideias e conviver longamente com problemas abstratos provavelmente sofrerá muito em programas stricto sensu. Mestrado e doutorado não são para pessoas que gostam de coisas simplificadas, de resumos com fluxogramas ou de obras para “dummies”.

Pós-graduação não é ‘coisa de rico’

Existe outro mito importante: o de que mestrado e doutorado estariam acessíveis apenas a pessoas economicamente privilegiadas. A realidade é mais complexa.

É evidente que desigualdades econômicas afetam profundamente as trajetórias acadêmicas. Capital cultural, tempo disponível, domínio de idiomas e acesso a boas formações anteriores fazem diferença real. Mas também é verdade que o Brasil ainda possui mecanismos públicos relevantes de financiamento acadêmico e é importante enfatizar isso. Ainda que para os ricos tudo fique extremamente mais fácil, existem saídas para quem não tem esses privilégios e importante falar sobre elas.

Universidades federais e estaduais não cobram mensalidade para o stricto sensu. Programas de bolsas da Capes, CNPq e fundações estaduais continuam permitindo que muitas pessoas ingressem na vida acadêmica mesmo sem grande patrimônio familiar. Existe oferta ampla de bolsas, que além de garantirem o curso sem mensalidade fornecem auxílio financeiro para a realização dos estudos, até mesmo em faculdades privadas de ponta. Há também políticas de ação afirmativa e reserva de vagas que ampliaram significativamente o acesso à pós-graduação nos últimos anos.

Nada disso torna o caminho fácil. Construir currículo, publicar, aprender idiomas e ingressar em programas competitivos exige esforço considerável. Mas é importante desfazer a ideia de que a pós-graduação stricto sensu seria simplesmente inviável para quem não possui riqueza familiar. Não é fácil, mas é possível.

Formação acadêmica melhora a renda? Sim. Mas não por mágica.

Os dados disponíveis mostram, de forma relativamente consistente, que pessoas com mestrado tendem a receber remunerações superiores às de graduados, e que doutores frequentemente recebem mais do que mestres. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Dados (Pnad Contínua 2022), a média salarial de um profissional graduado era de R$ 1.860. Com uma pós-graduação, o salário médio aumenta para R$ 4.634. Com mestrado, a renda média sobe para R$ 5.645. No doutorado, por fim, a média salarial alcança R$ 6.605.

Mas é importante compreender corretamente o fenômeno.

Não é o diploma, isoladamente, que produz competência quase mágica. Aliás, um dos piores pretextos para se almejar um título de pós-graduação é a obtenção do diploma, pelo diploma. O que ocorre é que processos formativos longos tendem a desenvolver capacidades complexas:

– escrita;
– análise crítica;
– autonomia intelectual;
– gestão de informação;
– resolução de problemas difíceis;
– capacidade argumentativa;
– sofisticação técnica.

Ou seja: pessoas mais qualificadas tendem a gerar mais valor profissional. O aumento de renda aparece, em muitos casos, como consequência mediata desse desenvolvimento.

Tendo em vista sua dimensão populacional, o Brasil ainda forma poucos mestres e doutores, tanto em relação à proporção de sua população quanto em comparação ao resto do mundo. No entanto, os titulados mantiveram índices de empregabilidade mais de 5 vezes superiores às estatísticas de emprego formal entre 2009 e 2021, esses são dados do relatório Brasil: Mestres e Doutores 2024, lançado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. O documento apresenta um conjunto de informações estatísticas sobre a formação e o emprego desses profissionais no Brasil.

Quem ingressa exclusivamente pelo dinheiro costuma se frustrar rapidamente. O capital jamais é expressivo, e raramente é rápido. Pós-graduação séria cobra tempo, energia, saúde mental e disciplina demais para ser sustentada apenas por expectativa financeira.

Pós-graduação e concursos públicos são formas de estudo diferentes

Outro equívoco bastante comum é imaginar que mestrado e doutorado sejam uma espécie de extensão natural da preparação para concursos públicos. Em alguns casos, a pós-graduação ajuda — sobretudo na maturidade intelectual, na escrita e na capacidade argumentativa. Mas, estruturalmente, tratam-se de formas de estudo muito diferentes.

A pós-graduação stricto sensu séria não existe para ensinar “como o sistema funciona” apenas em chave operacional. Seu núcleo é outro: reflexão crítica, pesquisa, produção de conhecimento, sofisticação teórica e capacidade de problematizar os próprios fundamentos do Direito. Por isso, uma formação acadêmica robusta frequentemente exige contato com teoria do direito, filosofia, hermenêutica, epistemologia e debates que ultrapassam em muito a simples reprodução de conteúdos normativos.

Já a lógica predominante de boa parte das carreiras públicas jurídicas contemporâneas é distinta. O modelo de estudo exigido pelos concursos, em regra, privilegia velocidade de resposta, memorização normativa, domínio pragmático da jurisprudência e adaptação operacional ao funcionamento institucional do sistema jurídico brasileiro. Não se trata aqui de desmerecer concursos públicos ou carreiras estatais — muitas delas são essenciais à própria democracia constitucional —, mas apenas de reconhecer que os objetivos formativos são diferentes.

Nesse ponto, a crítica desenvolvida em Ensino Jurídico e(m) Crise permanece extremamente atual. O problema central identificado por Lenio Streck não é apenas pedagógico; é também institucional e democrático. O ensino jurídico brasileiro, progressivamente, passou a substituir reflexão crítica por simplificação, resumos, fórmulas prontas, mapas mentais e reprodução acrítica de entendimentos jurisprudenciais. Forma-se, assim, um círculo vicioso: cursos simplificam porque acreditam que os alunos “não suportariam densidade”; os alunos passam a consumir apenas simplificações; e, ao final, o próprio Direito se transforma em mera técnica de reprodução da dogmática dominante.

Como Streck denuncia há décadas, isso produz uma espécie de “realismo jurídico à brasileira”, no qual o Direito deixa de ser compreendido como fenômeno hermenêutico, histórico e teoricamente estruturado, passando a ser reduzido àquilo que tribunais, cursinhos ou autoridades dizem momentaneamente que ele é. A dogmática jurídica deixa de doutrinar e passa apenas a repetir.

O resultado é um ensino frequentemente incapaz de lidar com a complexidade do fenômeno jurídico contemporâneo. A preocupação deixa de ser compreender criticamente o Direito e passa a ser apenas responder rapidamente perguntas de prova, decorar temas repetitivos ou reproduzir fórmulas argumentativas previamente empacotadas.

É justamente nesse contexto que a pós-graduação stricto sensu deveria funcionar como espaço de resistência intelectual à simplificação do pensamento jurídico. Não como um ambiente de culto vazio à erudição, mas como um espaço em que ainda seja possível perguntar seriamente sobre os fundamentos, limites e implicações do próprio Direito.

E talvez aqui exista um ponto decisivo: pós-graduação séria não forma apenas profissionais tecnicamente mais qualificados. Ela tende a formar pessoas capazes de suportar a complexidade, conviver com dúvidas difíceis e resistir à tentação contemporânea das respostas instantâneas.

Conclusão: vocação, transformação e honestidade intelectual

Darcy Ribeiro dizia que a crise da educação brasileira não era uma crise: era um projeto.

Talvez a frase continue parcialmente verdadeira.

O Brasil ainda possui um diminuto número de mestres e doutores. E, mais importante do que aumentar números, é necessário atrair pessoas genuinamente vocacionadas para pesquisa, docência e produção de conhecimento.

Mas isso exige honestidade.

Pós-graduação não é símbolo automático de superioridade intelectual. Não é garantia de riqueza. Não é caminho obrigatório. Tampouco é simples.

É uma escolha exigente, frequentemente cansativa, às vezes solitária — mas profundamente transformadora para quem realmente encontra sentido nela.

Talvez a melhor formulação seja esta: o doutorado não torna alguém “melhor” do que os outros. Mas, quando vivido seriamente, costuma tornar a pessoa intelectualmente melhor do que ela própria era antes de começar.

 


Referências:

BRASIL. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). GeoCAPES. Brasília: CAPES, dados estatísticos sobre bolsas e pós-graduação stricto sensu no Brasil.

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. 22 ª Edição, Rio de Janeiro: Record, 2021.

CENTRO DE GESTÃO E ESTUDOS ESTRATÉGICOS (CGEE). Brasil: Mestres e Doutores 2024. Brasília: CGEE, 2024.

GRAMSCI, Antonio. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. 4ª Edição, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.

NAVIA, Luis E. Diógenes o Cínico. Traduzido por João Miguel Moreira Auto e Luiz Alberto Machado Cabral. São Paulo: Editora Odysseus, 2009.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Global, 2015.

STRECK, Lenio Luiz. Ensino jurídico (e)m crise: um ensaio contra a simplificação. São Paulo: Contracorrente, 2025.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2022.

[1] “Deve-se convencer a muita gente que o estudo é também um trabalho, e muito fatigante, com um tirocínio particular próprio, não só muscular-nervoso, mas intelectual: é um processo de adaptação, é um hábito adquirido com esforço, aborrecimento e mesmo sofrimento” GRAMSCI, Antonio. Os Intelectuais e a Organização da Cultura, p. 138

[2] “O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sisifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição pensa nela durante a descida. A clarividência que deveria ser o seu tormento consuma, ao mesmo tempo, sua vitória. Não há destino que não possa ser superado com o desprezo” CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. p. 139.

[3] “Raramente os filósofos têm sido admirados e reverenciados pela multidão, e, como observou certa feita Schopenhauer, popularidade e grandiosidade de pensamento apresentam-se, por vezes, em uma razão inversa” NAVIA, Luis.

Pedro Marcos Nunes Barbosa

é professor do Departamento de Direito da PUC-Rio e sócio de Denis Borges Barbosa Advogados.

Georges Abboud

é advogado, consultor jurídico, livre-docente pela PUC-SP e professor da PUC-SP e do IDP.

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