Para jornais americanos, movimentos de protesto no Brasil são justificados

Em sua edição online, o jornal The New York Times publicou uma reportagem para explicar o que está acontecendo no Brasil, com base apenas em comentários de seus leitores brasileiros e de outras nacionalidades. Um dos destaques foi a opinião de um leitor da Malásia: "O povo está aprendendo que mais circo resulta em menos pão", ele escreveu, em referência à crença dos políticos da Roma Antiga de que, para conter a insatisfação popular contra os governantes, bastava dar ao povo "pão e circo". Para esse leitor, a construção dos estádios para a Copa de 2014 significa exatamente isso: mais circo e menos pão.

Em outra reportagem, o The New York Times escreve que os manifestantes brasileiros querem mais que pão e circo. "No coração do movimento, está a rejeição da política tradicional no Brasil". Para o jornal, os manifestantes têm expressado um cinismo profundo em relação aos partidos políticos e seus líderes. E querem, entre outras coisas, que o Brasil "construa hospitais e escolas em conformidade com o padrão Fifa, em vez de estádios".

Em seu editorial Social Awakening in Brazil (O Despertar Social no Brasil), a revolta popular não é uma surpresa. Apesar de o Brasil estar, na lista do Banco Mundial, na sétima colocação entre as maiores economias do mundo, o país permanece, há anos, entre os dez piores países em disparidade de renda. Os políticos estão constantemente envolvidos em esquemas flagrantes de corrupção e de mau uso de recursos públicos.

Não surpreende que a elevação das tarifas de transporte público tenha disparado o movimento da classe média e da população menos favorecida, em um país em que o sistema de impostos regressivos (que é mais pesado para os grupos de menor renda) e que não investe na educação, mas investe pesado na construção de estádios de futebol, diz o editorial.

O jornal The Washington Post comparou, em editorial, os movimentos de protesto no Brasil aos eventos na Turquia. Apesar de os motivos serem diferentes, é possível identificar similaridades, diz o jornal. A principal delas é um descaso com parte da população. No caso do Brasil, o PT, há dez anos no poder, tem tolerado uma corrupção generalizada e está investindo bilhões em infraestrutura para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas, quando os serviços públicos, como educação, saúde e transporte público, são altamente deficientes, afirma o jornal.

Mas há diferenças significativas. No Brasil, o governo tenta negociar com as lideranças do movimento popular. Na Turquia, o governo convocou uma reunião só para identificar as lideranças e depois mandou prendê-las. No Brasil também há esperanças de que um movimento popular desse porte irá, no fim das contas, fortalecer a democracia. Isso não é esperado para a Turquia, que adotou uma política de linha dura.

Para o jornal The Wall Street Journal, o surpreendente crescimento econômico do Brasil na última década tirou milhões da pobreza e criou uma nova classe média, a mesma que agora está encostando contra a parede políticos de todos os partidos. Os protestos em massa revelaram que o país, que se tornou o favorito da comunidade mundial de investidores, tem muito mais problemas do que se sabia. Por exemplo: enquanto o país investe pesado em dois grandes eventos mundiais, a Copa do Mundo e as Olimpíadas, não há progresso dos programas que realmente podem causar um impacto positivo na vida cotidiana da maioria da população.

O jornal USA Today diz que a maior demonstração pública na América Latina nas últimas duas décadas é uma confrontação dos gastos públicos com a Copa do Mundo com a pobreza dos serviços públicos e a alta carga tributária imposta à população, tudo embalado pela corrupção generalizada. O jornal destacou que os manifestantes criticam a Proposta de Emenda Constitucional 37, que limita o poder do Ministério Público de investigar crimes. Segundo a publicação, a mudança iria proteger políticos corruptos contra processos judiciais e condenação à prisão.

A rede Aljazeera viu semelhança entre os movimentos de protestos no Brasil e as rebeliões da "Primavera Árabe", que sacudiram toda a região. Segundo a Aljazeera, as manifestações foram organizadas por meio das redes sociais e nunca teria tomado as proporções que tomou não fosse pela nova geração de cidadãos conectados virtualmente. No Brasil, o que começou com um protesto contra um aumento de 20 centavos nas tarifas de ônibus explodiu na agitação social mais significativa nas últimas décadas, provocadas por injustiças econômicas e sociais, afirma a Aljazeera.

João Ozorio de Melo

é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Joao Eduardo Madureira disse:
24 de junho de 2013 às 11:33

Não creio que haja muitas diferenças, particularmente quando se tenta justifica-las com ´esperanças´, o que constitui, meramente, um exercicio de especulação.

wilhmann disse:
24 de junho de 2013 às 11:39

Esta nação a pouco sublimava os então invejados primeiro mundo, agora presta contas por sua nefasta politica petista, que espalhar o napalm de corrupção no pais, querendo se eternizar, como os monarquista do passado. Os políticos, com raríssimas exceções encapuzados não pelo pano, mais legalidade( ? )de seus postos, capitulam dia a dia, no remanso de seus redutos, criando CPIs que sós consumam verbas, nas sessões recônditas e baratas. Os saltimbancos não se horrorizam com o sofrer alheio, com as mortes em salas abjetas de hospitais, que mais parecerem açougues disfarçados com sua purpura da morte diante do frêmito pedido de socorro a deus dará; com a educação, ministrada com pequenas letras dos professores, sem motivação, com a segurança, particular, a publica já há muito esta desterrada nos quarteis, quem pouco consegue evitar. Essa levada à classe media, trata-se de um descalabro do ganha mais não leva, ou leva, leva a tristeza da maldição do labirinto sem saida. No oriente médio, aos poucos surge a democracia, aqui a tirania cada vez mais transparente viceja impunemente, grassando o salve-se quem puder. Só eles podem, os donos do poder, mas enxada ainda acredita que o voto muda, não muda, o que mudas são as ilusões sempre renovadas, e sempre estiolada pela esperteza da suserania sobre os vassalos. O Grito do Ipiranga
libertou a colônia, A Áurea libertou os negros, a republica os sonhos acutilados, a CF, a falsa liberdade, quem, efetivamente, nos libertará dos grilhões da bandidagem, da corrupção, da esperança ainda reclusa?

Paulo Jorge Andrade Trinchão disse:
24 de junho de 2013 às 14:35

A proposito, e a "privataria tucana", foi em menor ou em maior escala do que as supostas falcatruas do mensalão?
A melhor ilustração dos arautos da apocalipse, por exemplo, aqui em SJRPreto-SP, quase todos os meses surgem condomínios de alto padrão para atender exatamente a classe média e média alta, e pasmem, todos eles são totalmente vendidos em poucos dias, onde está então a crise pelo Brasil afora? Nesse mesmo desiderato, nunca se vendeu tanto veículo como nos dias atuais, nunca se fez tanto churrasco e consumido boa cerveja como nos tempos atuais, basta ver as estatísticas das grandes redes varejistas. Evidente que ainda resistem carências na saúde, na educação, como também na manutenção da malha rodoviária, tão importante para o escoamento da produção agrícola, agora chegar-se ao ponto de pretender "plantar" o caos, é no mínimo agregar a insensatez com a má-fé!

J. Ribeiro disse:
25 de junho de 2013 às 05:37

Para quem conhece um pouco o 1º mundo, isto aqui é verdadeiro purgatório. Pobreza, falta de segurança, falta de educação, saúde precária, parasitismo, tributação elevada e desproporcional, serviços públicos essenciais ausentes, desigualdades, etc, etc.
Políticas públicas ofensivas a inteligência dos brasileiros.
Enquanto a sociedade brasileira não exigir investimentos em massa para a criação de uma política educacional efetiva, continuaremos a prática do "circo e pão" para calar a boca e acalmar os ânimos dos inocentes (ignorantes, na expressão da palavra).
Penso que bastaria uma geração para realmente começar a mudar a mentalidade do jovem brasileiro (futuros netos), crescendo sabendo, em escolas públicas de qualidade e tempo integral.
Sem investimentos na educação, não haverá mudanças efetivas.

Eloy disse:
25 de junho de 2013 às 07:36

Tudo se resume na falta de punição. Em todos os países civilizados existem corrupção e "máfias", porém, quando descobertos são punidos dentro das leis, inclusive, devolvendo o fruto da apropriação. E aqui? A lei existe, porém, aplicada com rigor somente para os "pês". O ralo começa por onde se esvai toda riqueza da pátria começa nos municípios e vai...

Radar disse:
25 de junho de 2013 às 10:46

As manifestações todas estão sendo direcionadas ao governo federal, mas a quase totalidade das demandas são de competência dos estados e municípios. E os governadores e prefeitos agradecem. Além disso, o ódio tomou lugar permanente nos corações e mentes de grande parte da população, principalmente dos pretensos injustiçados da classe média. Imagine se houvesse desemprego em massa. Como em Roma, o povo anseia crucificar alguém. A presidenta, e só ela.

Radar disse:
25 de junho de 2013 às 10:48

As manifestações todas estão sendo direcionadas ao governo federal, mas a quase totalidade das demandas são de competência dos estados e municípios. E os governadores e prefeitos agradecem. Além disso, o ódio tomou lugar permanente nos corações e mentes de grande parte da população, principalmente dos pretensos injustiçados da classe média. Imagine se houvesse desemprego em massa. Como em Roma, o povo anseia crucificar alguém. A presidenta, e só ela.

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