O grande desafio político das sociedades atuais é preservar a autonomia dos Estados nacionais frente às big techs — as grandes empresas de tecnologia. Elas praticamente constituem um poder paralelo, já que são grandes grupos de comunicação, têm braços financeiros e as campanhas eleitorais se desenvolvem no seu território (as redes sociais).

Essa é a visão do sociólogo e cientista político Antonio Lavareda. Em entrevista à ConJur, ele afirmou que a questão será enfrentada de forma mais efetiva por alguns países e menos por outros, mas ressaltou que é "absolutamente impossível" prever como essa relação terá se desenvolvido daqui a cinco anos.
Lavareda esteve no Fórum de Integração Brasil-Europa (Fibe), evento que ocorre em Lisboa e na internet ao longo desta semana, com o tema "Os Desafios do Desenvolvimento: O Futuro da Regulação Estatal".
O sociólogo ainda refletiu sobre a situação do mundo pós-pandemia da Covid-19 com relação à globalização. Por um lado, a guerra na Ucrânia vem promovendo uma integração dos países europeus em uma aliança contra a Rússia, o que "interrompe um processo de globalização mais amplo".
Por outro, houve avanço do ponto de vista sanitário, por meio das instituições de saúde internacionais: "O mundo enfrentou a maior ameaça à sua sobrevivência unido, globalizado". Para Lavareda, é necessário esperar mais tempo para saber qual das duas tendências prevalecerá.
Clique aqui para assistir à entrevista ou veja abaixo:
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As “big techs” trazem a baila um novo paradigma ao permitirem que as pessoas se aglutinem e expressem seu pensamento de forma livre, bem mais livremente do que é permitido pelos estados a que estão sujeitas, e se mobilizem no sentido de opor resistência ao comando desses mesmos estados por não se identificarem mais com eles.
Isso ainda vai dar muito pano pra manga.
É o prenúncio de uma nova era, que vem com força avassaladora, como tudo o que é novo sempre vem. Uma revolução anunciada.
(a) Sérgio Niemeyer
Advogado – sergioniemeyer@adv.oabsp.org.br
O advento das “big techs” não se trata de uma ameaça à autonomia dos estados, mas, isto sim, constituem um novo paradigma, em que o povo passa a ter, por meio da comunicação prodigalizada pelas “big techs” maior controle sobre os rumos do estado.
É sempre bom relembrar que todo estado não passa de um ente abstrato, constituído por um povo, um território e um ordenamento jurídico. Apesar disso, não faltam exemplos de opressão daqueles que, insatisfeitos e não mais identificados com o estado onde residem, desejam e lutam pela autonomia de sua localidade (v.g., os bascos, na Espanha; os separatistas que são maioria no leste da Ucrânia, etc.).
É altamente incoerente defender a autonomia dos povos de um lado e impor a uma parcela ponderável do povo de determinado estado a submissão a esse mesmo estado quando esse mesmo povo já não se identifica mais com tal estado e deseja fundar um estado próprio com o qual há maior identidade.
A razão de ser de um estado é a aglutinação de pessoas em torno de uma referência comum (a bandeira, digamos assim). A partir daí, fundam um ordenamento jurídico para organizar e controlar a vida social e dirimir eventuais conflitos de interesses surgidos no seio da sociedade assim formada. Quando uma parcela ponderável de pessoas perde a identidade com o estado fundado, sua submissão pela opressão dos desígnios separatistas representa franca violação de sua autonomia, e a repressão ao desiderato separatista tem por fim, na verdade, o inconformismo com a perda do território ocupado pelas pessoas que já não se identificam mais com o estado a que estão sujeitas. Ou seja, tudo gira em torno da ocupação territorial e da geração e arrecadação de tributos naquele território.
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