Bilionários conservadores dos EUA estão investindo milhões de dólares em aplicativos de mídia social, para configurar o ecossistema online de acordo com suas posições ideológicas, segundo o The Hill. Eles querem influenciar o debate político e as causas da direita no país. Mas querem, sobretudo, exercer influência nas eleições, para garantir o domínio republicano em todos os níveis executivos e legislativos.

No que tange ao Judiciário, querem colocar um dedo na balança da justiça, sempre que um caso de interesse conservador chegar aos tribunais (como aborto, direitos da comunidade LGBTQ, controle de venda e porte de armas, configuração dos distritos eleitorais, imigração, proteções ao meio ambiente, etc.).
Mas, acima de tudo isso, querem a liberdade, para eles e para e para o mundo conservador-republicano, de dizer o que quiserem na mídia social, sem sofrer qualquer restrição das empresas de mídia social que dominam o mercado atualmente (Facebook, Twitter, Google/YouTube, Instagram, etc.). Essas empresas "censuram", de acordo com suas políticas de moderação, a desinformação, a incitação à violência, teorias da conspiração e discursos de ódio.
E, em alguns casos, excluem usuários de suas plataformas. Esse foi o caso do rapper Kanye West, que recentemente mudou seu nome para Ye. West foi "expulso" do Twitter e do Instagram por postar conteúdo ofensivo aos judeus. Ele, então, fez uma proposta (aparentemente aceita) à Parlement Technologies, Inc., para adquirir a plataforma de mídia social Parler — e postar o que lhe der na telha.
O primeiro bilionário a tomar essa atitude foi o ex-presidente Donald Trump que, "expulso" das principais plataformas da mídia social por utilizá-las para incitar a violenta invasão do Congresso dos EUA em 6 de janeiro de 2021 e disseminar "A Grande Mentira" (“The Big Lie”) de que as eleições de 2020 foram fraudadas, lançou o aplicativo de mídia social Truth Social.
A Truth Social decolou, mas nunca voou alto. Estatísticas da Similarweb indicam que a plataforma de Trump teve 9 milhões de visitas em agosto — apenas uma fração do número de visitantes das principais plataformas, que são contados em bilhões. O Youtube, por exemplo, teve 33 bilhões de visitantes no mesmo mês, segundo a Similarweb. No entanto, os seguidores de Trump compartilham, no Facebook e no Twitter, screenshots das postagens do ex-presidente na Truth Social.
Enquanto isso, o CEO da Tesla, Elon Musk, o homem mais rico do mundo, finalizou sua oferta pelo Twitter, e agora é dono da companhia. Musk diz que sua intenção é transformar o Twitter em uma plataforma da liberdade de expressão. A professora da Syracuse University Jennifer Grygiel diz que isso significa que ele pretende postar o que quiser, sem restrições. E que o Twitter será uma plataforma aberta à disseminação de mais desinformação e de discursos de ódio. E também se diz que uma de suas primeiras medidas será readmitir Trump na plataforma.
Outro bilionário que já investiu na mídia social é Peter Andreas Thiel — menos popular, mas bem conhecido no mundo empresarial e nos círculos conservadores. Thiel foi um dos fundadores do site de pagamentos online PayPal, em 1998. Em 2002, ele e seus dois sócios venderam o empreendimento para o eBay por US$ 1,5 bilhão. Ele foi também o primeiro investidor externo do Facebook: adquiriu uma participação de 10,2% na plataforma por US$ 500 mil, em 2004; vendeu a maioria de suas ações em 2012 por mais de US$ 1 bilhão. Fundou ainda a Clarium Capital, a Palantir Technologies, a Valar Ventures, o Founders Fund e outras empresas.
Thiel, que é ativista político conservador, filiado ao Partido Libertário e doador para campanhas políticas e causas da direita, adquiriu, no ano passado, a Rumble, uma plataforma de vídeo alternativa ao YouTube — e que está em crescimento: de acordo com a Similarweb, a Rumble teve 68 milhões de visitantes em junho, 87 milhões em julho e 107,5 milhões em agosto.
Pode-se dizer "apenas" 107,5 milhões, se comparado com os 33 bilhões de visitantes do YouTube. Mas os bilhões de visitantes do YouTube estão em todo o mundo e assisstem de tudo, enquanto os 107,5 milhões da Rumble são, em maioria, eleitores comprometidos com as causas conservadoras, que querem ver uma única coisa: as informações — e desinformações — favoráveis ao mundo conservador-republicano e contra os liberais-democratas.
A manchete do site na segunda-feira (24/10), por exemplo, foi: "Tiktoker trans se encontra com Biden, promove mutilação genital". O anúncio que precede o vídeo é, obviamente, contra o governo Biden. Considerando que, em 2020, os EUA tinham 240 milhões de eleitores, 107,5 milhões é um número expressivo de eleitores fiéis — tal como os 9 milhões de visitantes da Truth Social são seguidores fervorosos do chamado culto do trumpismo.
Especialistas acreditam que a Rumble, que já transmite ao vivo os comícios de Trump, será a mídia social mais perigosas na eleição presidencial de 2024, não só pelas campanhas de notícias falsas — ou desinformações — e promoção de extremismos, mas também porque será uma plataforma útil para divulgar deepfakes — vídeos em que o rosto ou corpo de uma pessoa é digitalmente alterado para que pareça outra pessoa, tipicamente usados para espalhar informações falsas, segundo o Google.
Em outra frente, a Suprema Corte dos EUA vai julgar duas leis dos estados do Texas e da Flórida que proíbem as empresas de mídia social de retirar do ar postagens de conteúdo político ou de banir usuários que postaram conteúdos inapropriados (como, em casos extremos, a incitação à violência). Os republicanos acusam as grandes empresas de tecnologia (big techs) de censurar o discurso conservador, o que significaria favorecer o liberal-democrata.
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