Atração de talentos

Modelo de trabalho híbrido parece ser a tendência da advocacia nos EUA

Os advogados e as bancas dos Estados Unidos estão debatendo uma questão no estilo shakespeariano: voltar ou não voltar ao escritório? Para muitos, um efeito colateral positivo da Covid-19 foi popularizar o trabalho remoto. Para outros tantos, a vida no escritório é profissionalmente mais vantajosa. Mas, no final das contas, o modelo de trabalho híbrido aparece como a tendência do mercado: ele oferece o melhor dos dois mundos.

Um estudo divulgado pela American Bar Association (ABA) indica que a maioria das bancas está fazendo um esforço para trazer os advogados de volta para o escritório, mas está encontrando resistências. Muitos advogados, incluindo sócios do escritório, se apegaram às vantagens do trabalho remoto.

trabalho a distância

Estudo indica que maioria das bancas quer trazer advogados de volta para o escritório, mas está encontrando resistências

Os advogados já se familiarizaram com as vantagens: trabalhar de qualquer lugar (em casa, em um hotel, na praia, etc.); flexibilidade de horários (trabalhando nas hora em que é mais produtivo); balancear as necessidades do trabalho com as da família (como levar e buscar os filhos na escola). Os estadunidenses se referem a mais tempo com a família como “quality time”.

E há mais: economizar tempo, dinheiro, energia e paciência (por culpa do trânsito, às vezes, congestionado, de ida e volta entre a casa e o escritório, e do estacionamento); economizar dinheiro nas despesas com o carro e com roupas; focar melhor no trabalho sem as interrupções e distrações do escritório (embora haja distração em casas com crianças e animais de estimação). A economia de tempo resulta em maior produtividade, dizem.

Mas há desvantagens: desenvolver relacionamento com clientes é mais difícil em uma vida virtual; é mais complicado assegurar a confidencialidade de informações sensíveis dos clientes; a necessária colaboração entre os membros da equipe por meio virtual, em vez de face a face, fica prejudicada (assim como a comunicação).

Além disso, o acesso a recursos do escritório (biblioteca, arquivos físicos, equipamentos, infraestrutura tecnológica, pessoal de apoio, etc.) é limitado; a separação entre a vida no trabalho e na família pode se tornar nebulosa.

Trabalhar no escritório também tem suas vantagens: ter acesso a aconselhamento (mentoring) de advogados experientes, trocar ideias com colegas e obter alguma ajuda é muito mais fácil no escritório (em reuniões, ao redor das máquinas de café ou de água fria) do que a distância.

Um dos pontos fundamentais é o de que é um fenômeno natural absorver a cultura da banca e se sentir parte de uma equipe quando se está presente no escritório. O contato com os empregados do escritório é enriquecedor – por exemplo, todo mundo aprecia os serviços da secretária e de quem serve água e cafezinho nas reuniões.

Então, o que é melhor? Trabalho remoto ou no escritório?

Aparentemente, nem um nem outro. Provavelmente, o modelo do trabalho híbrido é o mais conveniente para o advogado e para a banca, disseram administradores de escritórios de advocacia e firmas de recrutamento de talentos aos entrevistadores da Standord University, que publicaram o estudo na revista Nature.

“Uma das conclusões é a de que uma escala de trabalho híbrida é a que promove eficiência máxima”, diz o estudo. É um sistema que combina as vantagens do trabalho remoto com o trabalho no escritório — e que ajuda a aliviar as desvantagens de um ou outro. E é um instrumento para a redução do estresse, um problema que leva muitos advogados a lidar com problemas mentais.

As pesquisas indicam que a preferência dos advogados e dos escritórios é uma escala que prevê dois dias de trabalho remoto (segunda e sexta-feira) e três no escritório (terça, quarta e quinta-feira).

Os dias no escritório seriam apropriados para reuniões da equipe (incluindo as de preparação para um julgamento) e com clientes; interações naturais de advogados novos com os mais experientes; e relacionamentos entre colegas — além do trabalho cotidiano.

O sistema de avaliação do trabalho dos advogados também muda. No escritório, os administradores observam, acima de tudo, a dedicação do advogado ao trabalho (o empenho, o tempo e os métodos empregados, etc.). Nas avaliações de advogados “remotos”, só podem observar a produção. No trabalho híbrido, podem observas as duas coisas.

De acordo com os entrevistados na pesquisa, os advogados que optam pelo trabalho híbrido são tão ou mais produtivos do que seus colegas que só trabalham no escritório ou só em casa. E, de maneira alguma, são prejudicados em decisões de promoção.

Competição por talentos

Muitas bancas querem trazer de volta os advogados para seus escritórios. Mas, em um ambiente de alta competição por talentos, elas estão fazendo ofertas para atrair os melhores. Uma delas é oferecer-lhes a opção do método híbrido de trabalho. E certas mordomias.

Algumas bancas estão remodelando o escritório, para oferecer alguns confortos das residências, tais como uma sala com poltronas e sofás, para as pausas no trabalho. Ou aumentar a área da água e do cafezinho (agora com vários tipos de cremes), para o bate-papo e outras interações entre os advogados.

Outras estão fazendo ofertas mais ousadas. A banca Latham & Watkins, por exemplo, instalou uma clínica médica dentro do escritório, para cuidar dos advogados e ajudá-los a reduzir o estresse. Algumas bancas instalaram um barzinho, que pode produzir um efeito semelhante.

A banca Foley & Lardner reformou o escritório, para maximizar a luz natural e criar mais espaço comum. Há happy hours quinzenais com coquetéis e mocktails, barrinhas de frutas orgânicas (fruit bars) às terças-feiras e cupcakes às quintas-feiras.

As bancas também estão oferecendo escritórios mais espaçosos (dentro de suas instalações) para advogados, com placas com seus nomes na porta ou na mesa — e permissão para colocar objetos de decoração, bem como fotos da família e dos animais de estimação. A banca Quinn Emanuel Urquhart & Sullivan colocou monitores duplos em cada mesa de escritório pessoal.

João Ozorio de Melo

é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

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