Mão firme

Condenação de Bolsonaro é exemplar e prova de maturidade, diz Le Monde

Em editorial publicado neste sábado (13/9), o Le Monde, principal jornal francês, classificou a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pela trama golpista como exemplar e como prova de maturidade de um país que se submeteu a uma ditatura até 1985.

Ton Molina/STF

Bolsonaro no STF

Para o Le Monde, ao condenar Bolsonaro o Brasil obteve sucesso onde os Estados Unidos fracassaram

Bolsonaro foi condenado na quinta-feira (11/9), pelo Supremo Tribunal Federal, a 27 anos e três meses de pena privativa de liberdade, sendo 24 anos e nove meses de reclusão e dois anos e seis meses de detenção.

Ele e outros sete réus foram considerados culpados pelos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado de Direito; organização criminosa armada; golpe de Estado; deterioração do patrimônio público tombado; e dano qualificado.

Para o Le Monde, a mão da Justiça brasileira não tremeu. O jornal classificou o processo como rigoroso e apontou que a gravidade dos fatos explica a severidade da pena proferida. Assim, a condenação é exemplar, independentemente dos esforços para uma lei de anistia.

A publicação ainda fez referência aos esforços do governo dos Estados Unidos para influenciar o processo, com pressão política e imposição de tarifas, conforme decidido pelo presidente Donald Trump, e lamentou o ocorrido.

Na visão do Le Monde, “o Brasil obteve sucesso onde a potência que por muito tempo se apresentou como a bússola do mundo livre fracassou de forma lastimável”.

Leia, na íntegra, o editoral do Le Monde:

Brasil: um veredito exemplar para a democracia

A condenação do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro a vinte e sete anos e três meses de prisão é uma prova de maturidade para um país que esteve submetido à arbitrariedade e à brutalidade de uma ditadura militar até 1985.

A mão da justiça brasileira não tremeu. Ao final de um processo rigoroso, o ex-presidente Jair Bolsonaro foi considerado culpado, em 11 de setembro, por tentativa de golpe de Estado, após a eleição presidencial perdida para Luiz Inácio Lula da Silva, em outubro de 2022. A gravidade dos fatos explica a severidade da pena proferida, vinte e sete anos e três meses de prisão, pelo Supremo Tribunal Federal, a mais alta instância judicial, a quem cabia a responsabilidade de julgar o ex-presidente. Essa sentença poderá ser ajustada levando em conta a saúde debilitada do condenado, de 70 anos.

Esta condenação é exemplar, independentemente do que aconteça com os esforços dos apoiadores de Jair Bolsonaro para aprovar uma lei de anistia. Ela lembra a todos o que deveria ser uma evidência: o primeiro princípio da democracia é que o exercício do poder depende do veredito das urnas, e certamente não da depredação das instituições. Para um país submetido à arbitrariedade e à brutalidade de uma ditadura militar até 1985, esta decisão é uma prova de maturidade, assim como a presença, entre os outros condenados, de seis oficiais de alta patente, incluindo três generais.

É ainda mais lamentável que esta decisão tenha sido alvo, assim que proferida, de críticas incendiárias dos Estados Unidos, pela voz do Secretário de Estado, Marco Rubio. Este último, filho de exilados cubanos, deveria, no entanto, ser capaz de distinguir um golpista de um democrata. Marco Rubio não se contentou com a denúncia escandalosa de uma “caça às bruxas” e de “perseguições políticas”, como faz sistematicamente a extrema direita diante das decisões da justiça, inclusive na França.

Ele também brandiu a ameaça de represálias adicionais, enquanto o Brasil já enfrenta sobretaxas alfandegárias que Donald Trump impôs, em desrespeito às regras, para pressionar os juízes de Brasília, com o resultado que agora conhecemos. Se Washington quisesse, a todo custo, empurrar um peso-pesado do continente americano para os braços de Pequim, não agiria de outra forma.

O desafio da reconciliação

A virulência desta interferência americana é ainda mais chocante porque o Brasil obteve sucesso onde a potência que por muito tempo se apresentou como a bússola do mundo livre fracassou de forma lastimável. Arquiteto de uma veemente contestação dos resultados da eleição presidencial de 2020, que nenhuma prova de fraude jamais conseguiu sustentar, Donald Trump pôde contar com a subserviência do Partido Republicano, bem como com a complacência de juízes nomeados por ele para a Suprema Corte, para escapar de qualquer forma de processo. Ele depois adicionou a afronta à injustiça ao perdoar os responsáveis por um ataque sem precedentes contra a democracia americana, em Washington, em 6 de janeiro de 2021.

Esta vitória democrática brasileira, no entanto, não está completa. “A história nos ensina que a impunidade, a inação e a covardia não levam à pacificação”, assegurou, com razão, o relator do processo, Alexandre de Moraes. A polarização política extrema, da qual os Estados Unidos foram o laboratório e que contaminou o Brasil, infelizmente faz com que a decisão de 11 de setembro ainda não tenha permitido virar uma página sombria da história do país. Pelo contrário, ela reavivou suas fraturas, apesar do balanço deplorável, especialmente ambiental e sanitário, do mandato de Jair Bolsonaro. O desafio da reconciliação ainda precisa ser superado.

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