O Conselho Nacional de Justiça concluiu o plano de trabalho do Laboratório Justiça Criminal, Reparação e Não Repetição. Essa estrutura, criada pelo CNJ no final de novembro, tem a função de aprimorar a produção de provas criminais e reduzir as consequências de possíveis erros do Judiciário em âmbito penal.
Na prática, o novo laboratório funcionará como um centro de pesquisa qualitativa aplicada dentro do Judiciário. De acordo com o CNJ, a tarefa do grupo não é interferir em processos em andamento, mas analisar casos paradigmáticos — já encerrados no Supremo Tribunal Federal, no Superior Tribunal de Justiça ou na Corte Interamericana de Direitos Humanos — para entender a origem e os motivos dos erros cometidos.

Grupo do CNJ investigará erros que levam a condenações irregulares nas ações penais
A estrutura é presidida pela juíza federal Daniela Pereira Madeira, conselheira do CNJ responsável pelo Laboratório de Inovação (Liods), e conta com magistrados auxiliares da Presidência do CNJ, do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário (DMF) e da Corregedoria Nacional.
Abordagem sistêmica
O laboratório, segundo o CNJ, parte da premissa de que a investigação de falhas na jurisdição criminal exige uma abordagem sistêmica focada em causas estruturais, e não na responsabilização individual de agentes.
Diferentemente das corregedorias, que buscam punir desvios de conduta, o laboratório adota uma lógica de segurança sistemática, similar à investigação de acidentes aéreos: o foco é identificar quais barreiras de proteção falharam. O órgão selecionará casos de condenações injustas ou violações graves para reconstruir o passo a passo do processo, desde a investigação policial.
A atuação será orientada pela ideia de que falhas graves raramente resultam de um ato isolado, mas de um encadeamento de condições latentes. Por essa razão, o plano de trabalho veda expressamente o uso dos produtos do laboratório (relatórios e diagramas) como fundamento para a instauração de sindicâncias ou Processos Administrativos Disciplinares (PADs).
O laboratório aplicará abordagens críticas para investigar, por exemplo, como marcadores sociais — raça, classe, gênero e território — influenciam a credibilidade da prova e a produção do erro judicial. Os nomes das partes e dos magistrados serão suprimidos para que ninguém seja identificado.
“A análise de causalidade adotada pelo Laboratório parte da compreensão de que erros em sistemas complexos raramente decorrem de um único fator isolável ou de uma ‘causa raiz’ identificável de forma linear. Desse modo, o Laboratório privilegiará o mapeamento das condições que tornaram o resultado indesejado possível ou provável, reconhecendo que o chamado ‘erro humano’ é, em regra, o último filtro de segurança de um sistema previamente fragilizado”, afirma o texto do plano.
Ciclo semestral
O plano de trabalho define um ciclo inicial de seis meses para o funcionamento do laboratório, com etapas bem delimitadas para transformar os estudos em regras práticas. O fluxo de trabalho previsto é:
Mês 1: Definição do caso-piloto a ser estudado;
Mês 2: Leitura e análise preliminar dos autos e documentos;
Mês 3: Realização de reuniões e entrevistas com atores do sistema;
Mês 4: Oficinas com laboratórios de inovação para cocriação de soluções;
Mês 5: Consolidação das propostas de melhoria;
Mês 6: Entrega dos produtos normativos.
Ao final desse ciclo, o objetivo é entregar minutas de resoluções, recomendações, protocolos e guias práticos prontos para apreciação do plenário do CNJ. A intenção é criar normas que impeçam a repetição das falhas detectadas.
“Ao analisar casos de erro judicial para fins de aprendizado institucional, o Laboratório atuará com finalidade exclusivamente preventiva, voltada à compreensão de causas sistêmicas e à formulação de recomendações de caráter normativo, procedimental ou organizacional”, afirma o documento.
Clique aqui para ler o plano de trabalho
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