Espada de dâmocles

Ataques do Irã no Estreito de Ormuz pressionam Estados Unidos a abreviar guerra

A capacidade do Irã de interditar o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo exportado no planeta, colocou os Estados Unidos em um impasse. Os americanos não conseguirão liberar a via marinha sem uma escalada drástica na guerra iniciada há duas semanas, o que aumenta a pressão para que o presidente Donald Trump encerre o conflito o quanto antes.

Essa é a opinião de especialistas em relações internacionais consultados pela revista eletrônica Consultor Jurídico. Para eles, a pressão crescente sobre a Casa Branca pode forçar Trump a declarar o fim da ofensiva caso os danos à economia mundial comecem a sair do controle.

Divulgação / Marinha Real da Tailândia

Navio tailandês atingido por ataque do Irã no Estreito de Ormuz, no dia 11 de fevereiro

O motivo, segundo eles, é a geografia do Irã. Sem poder contar com sua força naval, que foi praticamente destruída pelos EUA, o país tem atacado os navios a partir de seu território continental com mísseis e drones, o que é uma estratégia barata e possível de ser mantida por um longo tempo.

“Os Estados Unidos têm todo o poderio militar possível. Mas o Irã tem muitas montanhas e esconderijos naturais de onde lançar seus ataques. Os iranianos podem destruir navios comerciais usando drones que custam US$ 15 mil. Para contê-los, os EUA precisam usar mísseis que custam US$ 1 milhão. A conta não fecha”, explica Carlos Honorato, professor da FIA Business School e especialista em Economia, Estratégia e Cenários Futuros.

Para Ronaldo Carmona, professor de Geopolítica da Escola Superior de Guerra, essa situação obriga os americanos a mudar a dinâmica do conflito. “Para interromper os ataques e reabrir o Estreito de Ormuz à força, é provável que os americanos precisem apelar para tropas no terreno. Seria uma medida muito mais cara e complexa do que os ataques aéreos feitos até o momento.”

Na visão de Carmona, Trump pagará um preço alto se insistir no objetivo declarado no início da guerra, o de provocar uma mudança de regime no Irã. “Se esse objetivo for mantido, isso pode significar uma guerra de longa duração.”

Futuro da economia

Em uma projeção feita no último dia 6, Honorato avaliou que o cenário mais otimista é um cessar-fogo que libere o Estreito de Ormuz e retome a condição de “guerra fria” que havia entre EUA, Israel e Irã até o mês passado.

Caso as hostilidades sejam prolongadas, o mercado asiático deve sofrer os impactos mais imediatos, já que mais de 8o% do petróleo que cruza o Estreito de Ormuz tem como destino países como Taiwan, Japão e Coreia do Sul. Além da China, que recebe mais de 30% de seu óleo por essa rota e compra 15% de seu combustível diretamente do mercado iraniano.

O bloqueio afeta também o escoamento de gás natural, como o gás hélio, insumo crítico para o resfriamento na indústria asiática de semicondutores.

O agravamento da interdição, segundo a projeção de Honorato, poderia empurrar o barril de petróleo para a marca de US$ 200, o que deflagraria uma forte recessão global. Além do choque de energia, o valor do frete marítimo para exportações, saindo do Oriente Médio para a China, já registrou alta de 140% no contexto da crise.

O Brasil, na condição de exportador de alimentos, sofre reflexos pesados dessa volatilidade: o mercado árabe absorve US$ 12,4 bilhões das exportações do agronegócio nacional e o Golfo Pérsico fornece quase metade da ureia e grande parte da amônia usadas como fertilizantes nas lavouras brasileiras. Mais do que o petróleo, essa é a principal preocupação brasileira a médio prazo caso o bloqueio aos navios em Ormuz não seja desfeito nas próximas semanas.

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