É muito mais fácil derrubar um indivíduo do que transformar um sistema. A conclusão é de Elsa Deck Marsault, militante queer e feminista, autora do livro Fazer Justiça, resenhado na Folha de S. Paulo pelo historiador Gabriel Trigueiro.

Para autora, moralismo progressista prejudica o combate às mazelas que deveriam ser enfrentadas
Doutor em história comparada pela UFRJ, Trigueiro identifica na obra uma crítica à postura punitivista de movimentos de esquerda nos aparelhos estatais e organizações sociais, mais preocupados em atacar indivíduos do que em discutir formas de transformar posturas racistas, classistas, homofóbicas ou machistas.
Conforme o acadêmico, a obra analisa um sem-número de casos em que a militância ataca o agressor, real ou fictício, a despeito da vontade da vítima, transformando os culpados em “caricaturas imaginárias daquilo que deveria ser combatido”.
Marsault destaca no livro que “o indivíduo se torna o alfa e o ômega da luta: a pessoa que dita e a pessoa que se educa, se conscientiza, se desconstrói e se responsabiliza — o início e o fim de tudo”, o que gera um esvaziamento da política.
Em vez de contribuir, acrescenta Trigueiro, a resposta da esquerda torna-se inversamente desproporcional, em rigidez e violência voltada aos espaços em que tem o controle efetivo.
Para o historiador, Marsault faz uma crítica interna necessária. A autora entende que, em uma quadra histórica em que as forças reacionárias ganham relevo, apresentar as próprias contradições pode parecer um exercício de traição.
Seja o primeiro a comentar.
Você precisa estar logado para enviar um comentário.
Fazer login