Faz 14 anos que o Fórum de Lisboa, um dos mais importantes think tanks do mundo, empresta seu palco para que grandes nomes internacionais do campo jurídico, da esfera empresarial e da política analisem o que se passa no planeta.

Em 2024, Friedman apontou descompasso entre evolução tecnológica e valores humanos
Exposição exemplar foi a que fez o editorialista do jornal americano The New York Times, Thomas Friedman, na 12ª edição do Fórum, quando falou das transformações globais. Sua exposição partiu da ideia de que a humanidade atravessa um “momento prometeico”, conceito que, segundo ele, descreve períodos históricos em que novas tecnologias ou conjuntos de ideias provocam mudanças estruturais profundas nas formas de organização social, econômica e política.
Na análise de Friedman, o momento atual distingue-se de outros processos históricos por não estar ancorado em uma única inovação, mas na convergência de dois grandes superciclos. De um lado, há um superciclo tecnológico, caracterizado pela ampliação da capacidade de captar, digitalizar, processar e compartilhar informações, cada vez mais potencializada pela inteligência artificial. De outro, observa-se um superciclo climático, marcado por transformações ambientais globais que operam em dinâmicas de retroalimentação.
A combinação desses dois processos, segundo o autor, produz efeitos estruturais que desafiam os modelos tradicionais de organização política. Friedman argumenta que as formas clássicas de mediação política, baseadas na dicotomia entre esquerda e direita, tornaram-se insuficientes para lidar com a complexidade dos problemas contemporâneos.
Historicamente, o sistema político das democracias industriais estruturou-se em torno de disputas sobre o grau de proteção social, sintetizadas na metáfora de “muros, pisos e tetos” do Estado de bem-estar social. No entanto, as transformações recentes teriam “derrubado o teto, desmoronado as paredes e rachado o chão”, criando um conjunto de desafios que escapam a esse enquadramento.
Diante desse cenário, Friedman propõe a necessidade de construção de coalizões adaptativas complexas, capazes de articular diferentes atores e responder a problemas inéditos por meio de arranjos mais flexíveis e interdependentes. Essa perspectiva é inspirada em padrões observados na natureza, especialmente em ecossistemas que desenvolvem redes complexas para maximizar sua capacidade de adaptação, produtividade e resiliência.
Outro elemento central de sua análise diz respeito à aceleração das transformações contemporâneas. Friedman descreve o mundo atual como simultaneamente mais rápido, interdependente, profundo, dual, aberto, assimétrico e frágil. Tal caracterização aponta para um contexto em que mudanças ocorrem em ritmo exponencial, com impactos amplificados e maior vulnerabilidade sistêmica.
No campo tecnológico, a inteligência artificial ocupa posição de destaque. Friedman sustentou que seu avanço tende a reconfigurar profundamente as formas de trabalho, aprendizagem e organização social. Em particular, destaca a possibilidade de desaparecimento de funções intermediárias, sobretudo em profissões de natureza cognitiva, ao mesmo tempo em que se amplia o acesso ao conhecimento em escala global, inclusive para populações historicamente excluídas.
Paralelamente, o autor chamou atenção para o descompasso entre o aumento do poder tecnológico e a capacidade normativa da sociedade. Em sua formulação, a humanidade estaria adquirindo capacidades “divinas” em termos de cognição, conectividade e impacto climático, sem o correspondente desenvolvimento de valores e mecanismos capazes de orientar esse poder.
No plano geopolítico, Friedman sugere que o mundo atravessa um momento de redefinição da ordem internacional, comparável a outros períodos de reorganização sistêmica, marcado por tensões entre dinâmicas de integração e movimentos de resistência.
A participação do jornalista integra um conjunto mais amplo de debates promovidos pelo Fórum de Lisboa, que, ao reunir especialistas nacionais e internacionais, reforça seu papel como espaço de reflexão qualificada sobre os desafios globais contemporâneos.
Clique aqui para ler o texto completo da participação de Thomas Friedman no Fórum de Lisboa 2024
Para acompanhar outros conteúdos, análises e publicações do evento, acesse o site oficial do Fórum de Lisboa: https://www.forumdelisboa.com.
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