Trabalho Contemporâneo

Achem a Olivetti

O título desta coluna advém de um artigo escrito por Sérgio Augusto há 12 anos, tratando sobre espionagem digital entre russos e alemães, sugerindo o “resgate” da velha máquina de escrever:

“Não se sabe ao certo quem ressuscitou vinil – e, com ele, os toca-discos –, mas a recente ressureição da máquina de escrever, em plena era da informática, tem três comprovados responsáveis: o WikiLeaks, o ex-técnico da CIA Edward Snowden e o Kremlin. A velha máquina de escrever, acreditam alguns, pode ser uma rama eficaz no combate à xeretagem digital, ao cybersnoops que roubam e trafegam dados de computadores sem deixar rastros.”

Essa matéria — e o imediato resgaste que fiz da minha Olivetti verde da década de 1980 que ganhei dos meus avós —  me veio à cabeça depois de assistir a uma palestra do confrade Ney Maranhão em evento promovido pelo professor Paulo Sérgio João na PUC São Paulo (Trabalho e Tecnologia: entre a relação social e a construção judicial do direito — em 22 de maio de 2026), na qual foi taxativo ao afirmar que o profissional do direito do século 21 tem a obrigação de dominar ferramentais básicas de IA.

Provocou todos ao indagar: “como um profissional do direito nos dias de hoje pode não saber o que é um prompt injection (injeção de comando)?”. Enfatizou igualmente que somos obrigados a saber e identificar detalhadamente os pontos fortes e fracos das IA’s da moda, tais como: ChatGPT (OpenAI); Gemini (Google); DeepSeek (de origem chinesa que ganhou enorme popularidade global por sua performance de alta velocidade e alto desempenho focado em lógica e programação); Claude (Anthropic); e Midjourney/Dall-E (OpenAI)/Stable Diffusion famoso pela criação de imagens hiper-realistas e artísticas a partir de descrições de texto.

Quase simultaneamente o Superior Tribunal de Justiça (STJ) abriu inquérito criminal e administrativo após identificar prompt injection (olha ele aí!) em petições. Advogados inseriram textos ocultos (em fonte branca) com ordens maliciosas para tentar manipular a IA da Corte (STJ Logos), obrigando-a a pular filtros ou emitir decisões favoráveis.

Acrescente-se a essa jornada ardilosa digital, a utilização fraudulenta da inteligência artificial (IA) para realização de vários delitos de falsidade ideológica pelos chamados cibercriminosos. Eles se utilizam de clonagem de voz, criação de deepfakes de áudio, vídeos e imagens falsas (deepfakes visuais), fraude de identidade e KYC (documentos de identidade falsos, RG, CNH) e redação de e-mails de phishing altamente personalizados, para dar golpes quase indistinguíveis de comunicações legítimas.

Não há limites

Escutando e vendo tudo isso me veio à mente que a ressuscitação da velha e boa máquina de escrever poderia ser um bom remédio. Se os russos a utilizaram (e com sucesso) por que eu não poderia agora fazê-lo? Seria um Digital Disruptor, Game Changer ou Tech Visionary utilizando ferramenta analógica.

Eureca!

O problema é que o problema é muito mais problemático e complexo, o que, então, imediatamente me fez lembrar do velho adágio de um século atrás do jornalista e crítico americano H. L. Mencken:

“Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada.”

A complexidade instalada nesse novo é que faz a diferença.

Spacca

Pensar que o passado era ou foi melhor do que o presente é um autoengano. Faz parte do chamado viés de positividade ou nostalgia retrospectiva. Tem a ver com a ultrapassagem do nosso pensamento por uma espécie de filtro da memória, que faz com que as lembranças ruins se percam e/ou se misturem numa inebriada nevoa temporal, onde as boas lembranças permanecem vivas, criando a falsa sensação de que a vida “antiga” era mais feliz.

Além disso não foram essas ferramentas digitais que criaram meios antiéticos de obtenção de vantagens. Isso é próprio da IH (Inteligência Humana) não da Artificial, que nada mais faz do que reproduzir as “alvissareiras” práticas dos humanos…

O culpado não é o prompt injection (injeção de comando).

Em processos físicos a coisa não se dava diferentemente, quando o assunto era “levar vantagem”. Os exemplos são dos mais variados:

“Um advogado suspeito de subtrair documento de processo criminal para beneficiar cliente, réu por envolvimento em tráfico internacional de drogas, foi condenado a um ano de detenção, em regime aberto, mais o pagamento de 15 dias-multa. Decisão é da 5ª turma do TRF da 3ª região.
De acordo com o tribunal, o advogado retirou o processo em carga para xerox (…)”

De não menor grau de curiosidade  e prática antiética no mundo físico-analógico, tem-se o caso do playboy Eugeninho:

“(…) um feito gastronômico extraordinário do jovem playboy Eugeninho Raja Gabaglia, que mudou os hábitos forenses, impedindo a aceitação de originais de cheques sem fundos nos processos judiciais. Processado por ter emitido cheque sem fundos, Eugeninho foi ao fórum, pediu o processo, pegou o cheque e engoliu a prova do crime. Quando perceberam, escrivães e oficiais de Justiça cobriram suas costas de tapas, enfiaram o dedo em sua garganta. Mas o estômago de Eugeninho não lhe falhou em hora tão relevante, suportando estoicamente todas as investidas e destruindo a prova do crime com um suco gástrico da maior qualidade”.

Além disso, os russos estratégicos citados logo no início deste texto, atualmente estão tendo sérios problemas com jogadores de games…

“Gamers podem ser bons pilotos de drones na guerra”, diz comandante ucraniano

A familiaridade com os controles e os reflexos rápidos para movimentos na tela tornam gamers bons candidatos para pilotos de drones, mas a guerra é bem mais letal do que um jogo de videogame.
As habilidades de um gamer podem ser úteis na pilotagem de drones, afirmaram membros da unidade especial de drones da Ucrânia ao site Business Insider. Embora a experiência no campo de batalha seja muito mais letal e arriscada do que uma simples partida de Call of Duty, a familiaridade com controles complexos e os reflexos rápidos adquiridos nos jogos podem ser vantajosos no controle remoto dessas aeronaves.

Guardei a minha Olivetti!

Adeus sonho de me tornar um empreendedor de fronteira [1]

Na verdade, o que temos de viver e vivenciar no presente é aquilo que se convencionou chamar de ética do upgrade, onde a responsabilidade de se manter constantemente atualizado frente às rápidas transformações é nossa. É individualizada e personalíssima.

Walter Longo neste sentido é muito feliz ao dizer que:

“Vivemos, hoje, um tempo em que as etapas da vida já não seguem mais uma ordem rígida. Estudamos na infância, sim, mas seguimos estudando pela vida toda. Brincamos na juventude, mas também buscamos prazer e leveza no cotidiano adulto. Trabalhamos desde cedo — e muitos seguem ativos mesmo após a aposentadoria formal. E descansamos, não apenas no fim da vida, mas em pequenas doses entre uma atividade e outra. O que antes era uma linha reta, agora é um novelo.
Chamamos isso de vida integrada. Ou, num jargão contemporâneo mais técnico, modo beta permanente.
A ideia de que se estuda para depois aplicar, se forma para depois trabalhar, se vive para depois descansar, perdeu validade. O conceito de Lifelong Learning (aprendizado ao longo da vida) não é mais uma opção para os inquietos ou apaixonados pelo saber: tornou-se uma exigência básica de sobrevivência profissional.”

E dentro deste constante aprendizado a ética tem um lugar especial.

Há um livro estupendo da professora Mayana Zatz chamado GenÉTICA, em que num determinado momento essa grande pesquisadora nos alerta:

“A perplexidade humana em face dos impressionantes resultados da ação científica e tecnológica, em campos que até então eram de absoluto domínio da natureza ou da divindade, não pode paralisar o debate e a construção dos instrumentos necessários que permitem o progresso de toda a humanidade de forma digna, harmônica e consciente. Obviamente, o Direito não deve impedir o desenvolvimento científico, mas sim orientar os contornos mínimos que asseguram o equilíbrio e a ponderação de valores entre a preservação da dignidade humana e a ruptura de paradigmas resultante dos avanços do conhecimento e das técnicas.” [2]

Lendo, relendo e pensando, tendo clareza de que temos de avançar — e com os instrumentos mais modernos que estão ao nosso alcance — os quais não substituem quem não é preguiçoso, mas, claro, dentro de patamares escorreitos, na conformidade que denomino como comportamento Digético.

A utilização digital tem de ser ética no sentido de não burlar, fraudar ou praticar crimes, como também no intuito de alteridade construtiva da humanidade, ou seja, para crescimento, desenvolvimento e principalmente criatividade — no melhor sentido humano, diferentemente de como alguns a estão usando:

“A inteligência artificial está fazendo executivos C-Levels (como são conhecidos os cargos de liderança no mais alto escalão das empresas) voltar à operação, de acordo com pesquisa da Afferolab, plataforma de educação corporativa, em parceria com a Tera, plataforma de educação em tecnologia. Segundo o estudo, 25% dos diretores e dos C-Levels revelaram que deixaram de delegar tarefas nos últimos 30 dias porque “com IA, fariam mais rápido sozinhos.”

O levantamento ouviu 4.300 profissionais com perguntas sobre comportamento organizacional, automação, ROI (retorno sobre o investimento) e maturidade em IA.

Uma das descobertas na pesquisa é de que os líderes não estão usando a ferramenta para redesenhar fluxos de trabalho e disseminar o uso da IA entre a equipe. Em vez disso, estão centralizando ainda mais a execução com o uso da IA, afirma Alessandra Lotufo, sócia e managing director da Afferolab” [9].

O desafio, portanto, não é “o que”, “quando” ou “quem”, é “como”; sobre “como” a vida está em constante transformação e “como” a nossa busca por certezas é sempre superada por novos desafios.

Neste sentido, valemo-nos para concluir esse “como” com uma delicada, porém, complexa no seu alcance, frase que o escritor Paulo Coelho no seu livro “Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei” (1994) a utiliza por diversas oportunidades:

“Quando eu tinha todas as respostas, as perguntas mudaram.”

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[1] Aquele que cria negócios baseados em tecnologia que estão no limite do conhecimento atual — como inteligência artificial avançada ou computação quântica.

[2] ZATS, Mayana. Genética: escolhas que nossos avós não faziam. São Paulo: Globo, 2011, pag. 18.

Antonio Carlos Aguiar

é advogado, mestre e doutor em Direito do Trabalho pela PUC-SP, professor da Fundação Santo André (SP) e diretor do Instituto Mundo do Trabalho.

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