Existe um “Batman institucional” atuando sobre a nossa realidade e esse “Batman” é a Polícia Federal associada ao Ministério Público. A opinião é do professor Luiz Werneck Vianna, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), em entrevista a Revista do Instituto Humanitas Unisinos. O professor analisou os recentes episódios de corrupção no Brasil, a partir da prisão do banqueiro Daniel Dantas, e identificou o que chamou de apenas “o capitalismo operando” na realidade que se vive.
O vezo de negar defesa e julgamento justo a protagonistas desfigurados pela polícia, pelo MP e pela mídia implementa uma perigosa “cultura do fascismo”. A última vez em que se elegeu a corrupção como maior inimigo do povo, lembra o cientista político, foi em 31 de março de 1964.
Para ele, o mal não está em figuras como a de Dantas ou de Eike Batista, “como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas”. Ele garante: “Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais”, que são, na sua opinião, o crescimento econômico, a reforma agrária e a democratização da propriedade.
O pesquisador acredita que “os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso”. E que a solução virá “com mais política”. “O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Não há política. Está faltando sociedade organizada, reflexiva. A política está reduzida ao noticiário policial”, explica.
“Todos esses escândalos e espetáculos atraem a opinião pública como se a salvação de todos dependesse de apurar os negócios do Eike Batista e do Daniel Dantas. Não depende, isso é mentira! Com isso, se mobiliza a classe média para um moralismo que não pára de se manifestar. A política cai fora do espaço de discussão. Enquanto isso, aparecem dois personagens institucionais, ambos vinculados ao Estado: o Ministério Público e a Polícia Federal. Este caminho é perigoso, e a sociedade não reage a ele faz tempo”, afirma o professor.
De acordo com o professor, não se pode “defender a idéia de que um grande inquérito, um grande processo pode resolver as máculas da nossa história, criar um novo tipo de um encaminhamento feliz para nós. O próprio Congresso se tornou uma ampla comissão parlamentar de inquérito, apurando, investigando e não discutindo políticas e soluções para os problemas. Além do mais, temos um grupamento novo na sociedade: a Polícia Federal é nova. Ela foi extraída da classe média. Seu pessoal é concursado, bem formado, com curso superior. Seus integrantes estão autonomizados a ir para as ruas com esse sentimento messiânico, que aparece no relatório do delegado Protógenes, de que a Polícia pode salvar o mundo.”
Werneck Vianna é professor pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Doutor em Sociologia, pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros livros, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil, A judicialização da política e das relações sociais no Brasil e a A democracia e os três poderes no Brasil.
Leia a entrevista
Personagens como Daniel Dantas e Eike Batista avançaram sobre nacos importantes do patrimônio do Estado brasileiro. Quais foram as condições políticas e econômicas que permitiram o surgimento desses personagens?
Luiz Werneck Vianna — O Brasil é um país capitalista. E esses são empresários audaciosos, jovens, e têm encontrado um terreno favorável a tratativas com o executivo no sentido de fazer negócios de interesse comum. E nisso ambos parecem que têm se complicado muito. No entanto, há uma zona de sombra que ainda precisa ser esclarecida. Meu problema em relação a tudo é essa sucessão de intervenções espetaculosas da Polícia Federal, a mobilização da mídia, do Ministério Público, do Judiciário e da opinião pública para esses fatos. As questões centrais não são essas. Com essa cortina espetacular, o mundo continua como dantes. Nada muda no que se refere à questão agrária, às políticas sociais. A população anda desanimada, desencantada. Além disso, o que aparece aqui, que é muito perigoso, é um espírito salvacionista. Há um “Batman institucional” atuando sobre a nossa realidade. Esse “Batman” é a Polícia Federal associada ao Ministério Público. Há elementos muito perigosos aí, de índole messiânica, salvacionista, apolítica, que podem indicar a emergência de uma cultura política fascista entre nós. Todos esses escândalos e espetáculos atraem a opinião pública como se a salvação de todos dependesse de apurar os negócios do Eike Batista e do Daniel Dantas. Não depende, isso é mentira! Com isso, se mobiliza a classe média para um moralismo que não pára de se manifestar. A política cai fora do espaço de discussão. Enquanto isso, aparecem dois personagens institucionais, ambos vinculados ao Estado: o Ministério Público e a Polícia Federal. Este caminho é perigoso, e a sociedade não reage a ele faz tempo. A cultura do fascismo pode se manifestar com traços mais bem definidos, a partir da idéia de que nosso inimigo é a corrupção, especialmente aquela praticada pelas elites. Então, a sociedade acha que se resolve esse problema colocando a elite branca na cadeia. Desse modo, o país viveria numa sociedade justa. Não vai, mentira!
O que o senhor considera como as questões centrais na sociedade brasileira, que devem ser discutidas com mais ênfase?
Luiz Werneck Vianna — O tema do crescimento econômico, da reforma agrária, da democratização da propriedade. Para isso ninguém mobiliza ninguém.
Pode-se afirmar que os anos dourados do neoliberalismo brasileiro produziram uma nova burguesia nacional da qual Daniel Dantas e Eike Batista são hoje personagens centrais? O que distingue essa nova burguesia da “velha burguesia nacional” do período desenvolvimentista?
Luiz Werneck Vianna — Eike Batista não é um homem das finanças, e sim um homem da produção. O Daniel Dantas, não. Ele é um homem do setor financeiro. Este setor apresentou enormes possibilidades. Esses executivos do setor financeiro não têm 40 anos. Se examinarmos os currículos deles, veremos que são formados por boas universidades, com doutorado no exterior. Apareceu um novo mundo para esses setores médios e educados da população, especialmente os economistas. Passa-se da posição de economista para a posição de banqueiro hoje muito facilmente.
Como o senhor interpreta essas relações aparentemente ambíguas que o banqueiro Dantas tinha, ao mesmo tempo, com o mercado financeiro internacional e os fundos de pensão do Estado do qual fazem parte sindicalistas? Acabou-se a velha contradição capital–trabalho?
Luiz Werneck Vianna — Essa questão dos fundos previdenciários existe em toda parte, não apenas no Brasil. E o controle disso tem sido em boa parte corporativo. Quem mexeu com a questão e falou no surgimento de uma nova classe foi o Francisco de Oliveira. Não sei se devemos concordar inteiramente com o que ele diz, mas, pelo menos, é uma alusão importante. O capital hoje tem uma outra forma de circular, e isso não ajuda o mundo sindical a se reorganizar. O que vemos é um sindicalismo inteiramente cooptado pelo Estado. Dantas jogou com as oportunidades que viu. Até agora, as únicas coisas concretas pelas quais ele pode ser pego são o suborno ao policial e seu problema com o Imposto de Renda. Esse é o capitalismo operando. Daqui a pouco vão querer “prender” o capitalismo. E não creio que isso esteja na intenção da Polícia Federal. O mal não está nessas figuras, como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas. Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais.
O banqueiro Dantas estabeleceu uma rede de conexões políticas tecida ao longo de três governos — Collor, FHC e Lula. Como entender o poder de Daniel Dantas, sua capacidade de manipulação e envolvimento de tantas pessoas, de diferentes governos, nessa malha de corrupção?
Luiz Werneck Vianna — Era necessário que nessa rede público-privada aparecessem personagens. Essa rede não podia se montar sem pessoas concretas. Dantas foi uma. O ponto da privatização estabeleceu um caminho para que esses homens encontrassem a sua oportunidade.
O senhor considera que o caso Dantas ameaça o conceito de República, ou se pode afirmar que efetivamente o Brasil nunca desfrutou do status de República?
Luiz Werneck Vianna — Não ameaça nada. Esse é um affaire midiático, com cortinas de fumaça. Os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso. Vejo as primeiras fumacinhas de uma síndrome fascista entre nós. E isso deve ser denunciado, combatido, e com política, com mais política. O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Está faltando sociedade organizada, reflexiva, e a política está reduzida ao noticiário policial.
Como o senhor analisa a postura do Supremo Tribunal Federal nesse caso? Como interpreta o comportamento do ministro Gilmar Mendes?
Luiz Werneck Vianna — Interpreto bem. O papel da Suprema Corte é defender a Constituição, as liberdades individuais, e também não deixa de incorporar essa preocupação com o testemunho do espetacular que essas operações policiais manifestam. Uma outra questão vinculada a isso é a escuta telefônica. Estamos indo para um estado policial? E a sociedade aprende a apontar como culpado o “malvado” lá da ponta, responsável por todos os males, que, caso preso e execrado, fará com que ela melhore. Num ano eleitoral, tudo se discute, menos a política. Não podemos defender a idéia de que um grande inquérito, um grande processo pode resolver as máculas da nossa história, criar um novo tipo de um encaminhamento feliz para nós (e isso é feito pela polícia, pelos grampos telefônicos, pela repressão!). Isso não lembra a linguagem do regime militar, quando ele se impôs? De que o grande inimigo é a corrupção? Só que agora tudo está sendo feito numa escala nova, imensa, com um domínio total dos meios de comunicação. O próprio Congresso se tornou uma ampla comissão parlamentar de inquérito, apurando, investigando e não discutindo políticas e soluções para os problemas. Além do mais, temos um grupamento novo na sociedade: a Polícia Federal é nova. Ela foi extraída da classe média. Seu pessoal é concursado, bem formado, com curso superior. Seus integrantes estão autonomizados a ir para as ruas com esse sentimento messiânico, que aparece no relatório do delegado Protógenes, de que a Polícia pode salvar o mundo.
Qual é a sua opinião sobre o combate à corrupção no Brasil? Este episódio recente abre a possibilidade de mudanças?
Luiz Werneck Vianna — Nesse processo, a ordem racional legal avança, se aprimora, se aperfeiçoa. No entanto, o que tento combater é uma visão salvadora, justiceira, messiânica do papel policial para a erradicação dos nossos males, como se não devesse haver nenhum impedimento entre a ação da polícia e a sociedade, como se não devêssemos ter habeas corpus, como se as pessoas pudessem ser presas, retiradas das suas casas nas primeiras horas da manhã, algemadas, e tudo isso passando por câmeras de televisão… Não creio que isso seja um indicador de democracia.
Que tipo de sentimento esse episódio provoca na população brasileira? Revolta, descrédito nas instituições?
Luiz Werneck Vianna — Descrédito. E também aprofunda o fosso entre a sociedade e a política, mantém a sociedade fragmentada, isolada, esperando que a ação desses novos homens, dessas corporações novas, nos livre do mal. Talvez eu tenha dado muita ênfase à dimensão negativa de tudo isso, mas também vejo que esse processo pode ser corrigido se a ordem racional legal for defendida por recursos democráticos, sem violência, com respeito às leis, à dignidade da pessoa humana. É possível se avançar na ordem racional legal, investigando a corrupção, prendendo seus responsáveis, mas sem que isso assuma o caráter de escândalo, de espetáculo, no qual parece que temos um agente de salvação em defesa da sociedade. Isso sim é perigoso.
Veja que segundo o texto Dantas não é mais um meliante que merece prisão perpetua em Bangu 1,com direito a ser algemado e calar a boca, mas sim um empresário audacioso e jovem ( não tão jovem assim pois já principia à calvice).
É certo que Dantas não duraria muito em uma cadeia com outros de sua espécie pois os ladrões tem princípios, dentre eles não roubar de quem não tem, no caso o povo brasileiro.Por tanto se justificaria a clausura segregada para preservar a integridade do larápio de elite.
É mesmo...
Se não me engano em guerra poderá haver pena de morte aos que traírem a pátria correto? Não seria o caso de aplicar pena de morte a Dantas e Cacciola? Afinal os crimes que foram cometidos são grandes afronta a pátria brasileira e seu povo. Eu entendo que o verdadeiro caráter constitucional ao delegar a pena de morte em época de guerra seja esse, portanto acredito ser aplicável pena de morte aos réus. Que sangre eles e não o povo.
Sito aqui a China, que é exemplo de como é possivel um país de segundo mundo se desvencilhar de escravização dos países ricos e ganhar espaço no cenário mundial. Na China, a corrupção é levado a pena de morte. Vide caso do funcionário que por muito menos, foi morto. No caso que sito foi cifras de 5 milhões ou algo do gênero. Países como EUA também aderem a pena de morte, e olha que o povo americano é muito mais evoluido que o nosso.
Fascismo é o povo sem comida, a favela sem esgoto, a mãe pedindo esmola, o doente sem hospital e remédio, o preso dividindo cela com 30 outros detentos em um calor de verão de 40 graus e com uma latrina. Prender Dantas e Cacciola é longe do que se viu no nazismo e fascismo. O srs conhecem Auchewitz? Portanto tomem cuidado ao dizer nazismo e fascismo pois aquilo foi o inferno na terra. Aqui ninguém é desses execraveis vertentes.
Quem é Werneck Vianna??? Só gargalhando mesmo...
Na democracia o munda da vida é o "palco" dos debates. Surge a problemática e o discurso é instaurado. De um lado, a sociedade cansada de tanto trololó, quer mais que um tratamento igualitário "na lei". A sociedade deseja um tratamento igualitário "perante a lei". O Estado responde e outro discurso se instaura. Isso é democracia não é fascismo.
Já que o professor Luiz Werneck Vianna se deu o trabalho de tratar a PF e o Ministério Público através do subterfúgio da analogia barata, permito-me prosseguir com as comparações. Primeiro, existe uma enorme organização mafiosa comandada pelo chinês Lau, um Daniel Dantas da vida. Nem é preciso dizer quem são os mafiosos... Greenhalg, Heráclito Fortes, Mangabeira Unger, etc. Todos conspiram para acabar com o Batman, pois ele foi longe demais ao interferir nos negócios da gangue. O trecho a seguir vem de uma resenha disponível na Net: "A criminalidade, então, aproveita-se destes jogos de mentiras e omissões para fazer de Gotham uma cidade dominada pela bandidagem. Um caos instalado de uma forma tão arraigada que até o próprio heroísmo de Batman é questionado, colocando-o numa desconfortável posição de fora-da-lei mascarado". Desanimado, Batman resolve deixar que as instituições cumpram o papel que deveriam desempenhar. O que acontece? "A fraqueza das instituições estabelecidas abre espaço para o crime, que, por sua vez, encontra sua expressão máxima na figura do Coringa, um psicopata disposto muito mais a ver o circo pegar fogo que propriamente a auferir lucros em seu benefício próprio". Moral da história: A gangue, com o objetivo de preservar seus interesses e apoiada pela imprensa marrom e pseudo-intelectuais oportunistas, está em plena campanha para desmoralizar a PF e o MP. Este final é óbvio demais até para o cinema americano...
Os mecanismos policiais repressores que surgiram na segunda metade do séc. XX foram criados para manter a sustentação de regimes políticos opressores, ou seja, regimes ditatoriais. Apesar do epíteto "Democrático" de alguns estados, não haiva democracia alguma. Não havia oposição. Não havia liberdade de expressão. Os arautos do apocalipse, queiram ou não, sabem ou deveriam saber que vivemos em uma democracia, muito diferente dos regimes fascistas, que encontravam guarida no nacionalismo exacerbado, cultura militar, etc. Querer comparar a realidade brasileira com a destas nações é, no mínimo, utilizar-se de raciocínios simplistas com a finalidade de estabelecer uma conexão lógica entre duas realidades incompatíveis.
Na certa, ninguém é contra a repressão ao crime. Isso no entanto não significa ser favorável à transformação de "chope" em dinheiro; dentista em doleiro; Hugo em outro Hugo; vazamentos criminosos em prática corriqueira; qualquer coisa virar quadrilha ou "organização criminosa", artificialmente, apenas para "abrilhantar" o valor da "investigação".
Isso de falar de que a ação do Ministéro Público e do DEPARTAMENTO de Policia Federal DO Ministério da Justiça é "fascista" demonstra que o sociólogo ou não sabe o que é o Fascismo - pouco provável - ou então prefere não mencionar o Estado policial soviético.Ele , certamente, esqueceu da atuação do camarada promotor Andrey Vichinsky , que atuava no Tribunal do Povo contra os inimigos da União Soviética. Olvidou os expurgos stalinistas e pós-stalinistas, quando o NKVD e depois o KGB , davam espetaculos para demonstrar seu poderio aos súditos da ditadura do prolet. Mas, de qualquer forma, é interessante encontrar um ex-integrante do Partidão defendendo banqueiros e o velho inimigo do PCB : o Capitalismo brasileiro.Qual seria a real motivação desse "opinion maker" ?
Concordo plenamento professor Armando. Os arautos do apocalipse bradam aos ventos que o país caminha para o fascismo, mas esquecem que o Estado está a serviço de uma minoria privilegiada, o que é incompatível com a democracia.
O pior é o caso está mais para Estado-tupiniquim-trapalhão do que para Estado-policial e a PF está mais para "agente 89" do que para "Batman" ou KGB. Aliás, tal comparação faria corar o "agente 89"!!! qua, qua, qua, qua....
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