Terminei nessa semana as mais de 600 páginas da biografia de João Guimarães Rosa, de autoria do competentíssimo biógrafo e jornalista Leonencio Nossa. Uma biografia muito bem documentada, construída em ordem cronológica retilínea [1].
O autor cuida da infância do escritor, em Cordisburgo e depois em Belo Horizonte. Trata da formação médica, do casamento (a primeira esposa era de uma tradicional família mineira), da vida difícil de médico no interior, do desapontamento com a medicina, da ida para o Rio de Janeiro, do concurso para a diplomacia e dos primeiros anos no Itamaraty. Em seguida, narra a ida de Rosa para Hamburgo, na Alemanha, nos tempos difíceis da ascensão do nazismo. Rosa conheceu então sua segunda esposa. Ambos teriam prestado ajuda humanitária para judeus. Aracy, esposa de Rosa, já foi homenageada como o “anjo de Hamburgo”.
Retornando ao Brasil, o diplomata chefiou o gabinete de João Neves da Fontoura, ministro das Relações Exteriores no Estado Novo, que de algum modo foi seu protetor; talvez da mesma maneira como Roberto Campos pode ter protegido José Guilherme Merchior. Fontoura chamava Rosa de “Cordisburgo”. Fontoura foi novamente ministro de Vargas, no último governo do caudilho. Fontoura apadrinhou Rosa na tentativa de o diplomata ocupar uma vaga na Academia Brasileira de Letras. A vaga em disputa foi ocupada por Afonso Arinos de Melo Franco.
Nessas ironias do destino, Rosa ocupou mais tarde a vaga de Fontoura, que faleceu em 1963. Rosa resistia a tomar posse, convencido de que havia previsões de que morreria na festa de posse, ou logo em seguida. Foi o que ocorreu. Rosa tomou posse na Academia na noite de 16 de novembro de 1967. Uma noite chuvosa. Faleceu três dias depois, era domingo, tendo ao lado a neta do coração, Vera Tess (creio que hoje psiquiatra), ainda muito criança. Em seu discurso de posse Rosa afirmou que as pessoas não morrem. As pessoas ficam encantadas…
Livro mapeia todas as facetas do biografado
Há muitas histórias do Itamaraty, na Rua Larga (antigo nome), hoje Rua Marechal Floriano, 196. A leitura dessa biografia me sugeriu um roteiro que transita pelas ruas nas quais Rosa morou: Hotel da Praia do Flamengo (certamente hoje não existe mais), Edifício Perigord (na Rua do Russel, na Glória), Rua Domingos Pereira, 92 (em Copacabana) e, principalmente, na Rua Francisco Otaviano, 33, também em Copacabana, bem ao lado do Arpoador. É o Edifício Ícaro. Vale passar em frente.
Há nessa biografia um pano de fundo político que vai do Estado Novo ao golpe de 64. JK (também médico, como Rosa, se conheciam), Magalhães Pinto, Castelo Branco, Assis Chateaubriand, Getúlio, estão todos no livro. Chateaubriand patrocinou a célebre viagem de Rosa com demais vaqueiros, no sertão mineiro, em 1952. A reportagem, com muitas fotos, foi publicada na revista O Cruzeiro.

Há passagens sobre uma reunião de escritores latino-americanos ocorrida na Alemanha. Debateram sobre as possibilidades e os limites do engajamento político de escritores. Jorge Luís Borges lá estava. A posição do escritor argentino é conhecida: a arte não poderia ser confundida com a política. Rosa foi criticado por não ter se alinhado com a esquerda. O autor menciona uma visita que Rosa recebeu no Itamaraty. Nesse dia, Glauber Rocha, Cacá Diegues e Arnaldo Jabor estranharam a distância política do já célebre escritor.
Muita gente conhecida aparece no livro: Elio Gaspari (um repórter promissor em início de carreira), Ruy Castro (que aos 19 anos tentou uma entrevista com o escritor), Franklyn Oliveira, Marcos Azambuja, Pedro Moreira Barbosa, Alberto da Costa e Silva, Aldous Huxley (que esteve no Brasil), Mário Calábria, Austregésilo de Athayde, e tantos outros.
Discreta precisão sobre Itaipu
Chama a atenção a passagem que trata do papel de Rosa na concepção do que mais tarde seria a Itaipu Binacional. Rosa foi convocado para participar de uma reunião na Comissão de Segurança Nacional. Estavam presentes Castelo Branco, Costa e Silva, Roberto Campos, Octávio Gouveia de Bulhões, Ernesto Geisel e Golbery.
Debatia-se uma ofensiva do Paraguai (então presidido pela mão de ferro de Stroessner) em relação à demarcação das fronteiras entre os dois países. Rosa chefiava um departamento de demarcação de fronteiras (ao que consta geralmente sem muito serviço, o que lhe dava mais tempo para a literatura). Pela posição que ocupava no Itamaraty é que foi convocado. A tarefa consistia na preparação de um estudo e de um diagnóstico da situação. Estudou mapas e textos empoeirados.
Compreendeu a percepção que os paraguaios tinham do assunto. Ressurgiam os traumas da Guerra da Tríplice Aliança (que teimamos em chamar de Guerra do Paraguai). Portador de uma “discreta precisão profissional”, Rosa intuiu que Sete Quedas se tornaria um lago, cujo volume d’água poderia movimentar uma usina. Presumo que se tratava de uma ideia compartilhada por todo o entorno do governo Castelo Branco.
O tratado que seguiu às discussões, a busca de financiamento externo e a construção da usina foram consequências, como consequências também foram o deslocamento violento de pequenos produtores e de remanescentes indígenas. Os economistas chamam de externalidades; positivas (a construção de uma usina importantíssimas) e negativas (o forçado deslocamento humano e a agressão para com a flora e a fauna locais).
A biografia de Guimarães Rosa é leitura que dá muita informação ao leitor. Aprendi que a mãe da atriz Renata Sorrah (Miriam Leonardo Pereira ) fora do Itamaraty, entre tantas outras referências de nossa história e de nossa literatura. Quanto a esse último quesito a biografia é também um convite, uma inspiração e uma voz de comando para a leitura desse genial (para mim, dificílimo) escritor brasileiro. Para Rosa, os livros não deveriam trazer o nome do autor; o autor deveria ser um mistério. A biografia de Nossa, por sua qualidade, contraria esse postulado.
[1] Ficha: Leonencio Nossa, João Guimarães Rosa, Biografia, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2026.
Seja o primeiro a comentar.
Você precisa estar logado para enviar um comentário.
Fazer login