Recentemente, um debate tem ganhado força no universo jurídico global. Há alguns meses, a American Bar Association (ABA), órgão americano equivalente à nossa Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), publicou um parecer que traz diretrizes éticas para o uso de inteligência artificial por advogados. Dentre as orientações, o documento sugere que os honorários advocatícios reflitam a economia de tempo proporcionada pelo uso da IA.

Essa posição trouxe à tona um questionamento que tem tomado as rodas de conversa entre profissionais do setor, principalmente entre aqueles que já utilizam a tecnologia no cotidiano. Esse debate vai além da mera adaptação de honorários: ele revela uma transformação mais profunda na advocacia — a migração de uma lógica centrada em tempo para uma lógica centrada em valor. É possível medir o impacto da IA sem desvalorizar a expertise do advogado? Como atribuir valor ao trabalho jurídico em um contexto no qual a IA redefine os paradigmas de tempo e eficiência?
Ferramenta tem limites
Escritórios e advogados que têm incorporado ferramentas de IA ao seu dia a dia têm demonstrado satisfação com a capacidade dessas soluções de realizar tarefas repetitivas e operacionais — como análise de documentos, elaboração de peças processuais e até pesquisa jurisprudencial — em questão de minutos. No entanto, é crucial lembrarmos que, embora a tecnologia simplifique processos, ela não substitui o julgamento crítico ou a análise detalhada que um advogado experiente oferece.
Por mais avançadas que sejam as ferramentas de inteligência artificial, elas possuem limites claros em relação ao que podem realizar. A IA é excelente em automatizar tarefas repetitivas e em lidar com grandes volumes de dados. Contudo, ela ainda não é capaz de compreender nuances humanas, realizar julgamentos éticos ou elaborar estratégias criativas em casos mais complexos – competências que apenas um advogado com vasta bagagem pode oferecer.
A formação jurídica exige um olhar analítico e crítico que ultrapassa o aspecto técnico. Ao lidar com questões que envolvem a interpretação de leis, precedentes e, principalmente, decisões que impactam a vida ou os negócios de clientes, a experiência acumulada faz toda a diferença.

A discussão sobre a adequação dos honorários advocatícios na era da IA está diretamente ligada à forma como o mercado jurídico valoriza o trabalho do advogado. Durante anos, o modelo baseado em horas trabalhadas predominou. Hoje, entretanto, há uma tendência crescente à cobrança de pacotes fixos ou à determinação de um teto para quem costuma cobrar honorários por hora, evitando surpresas desagradáveis na fatura final. Nesse contexto, já se observa um esforço para valorar os honorários do advogado com base no impacto da entrega do serviço prestado.
Enquanto a IA pode sugerir caminhos, é o advogado quem decide qual deles é o mais adequado, considerando o contexto e os objetivos do cliente. Embora a IA possa reduzir o tempo gasto em tarefas, ela não diminui a experiência, o julgamento ou as obrigações éticas do profissional.
Menos riscos e mais tempo dedicado o cliente
Outro ponto central é a ênfase em tarefas de maior complexidade. Ao delegar atividades operacionais à IA, os advogados podem se aprofundar em análises estratégicas e desenvolver soluções sob medida para cada um de seus casos. Isso não apenas aumenta a qualidade dos serviços, como também reduz riscos para os clientes, que percebem um atendimento mais dedicado. Isso, por si só, representa um grande diferencial competitivo.
Por fim, trago um ponto adicional importante, que deve ser priorizado independentemente da decisão que se tome acerca de como valorar os honorários advocatícios daqui pra frente. É de suma importância a transparência no modo como escritórios e advogados comunicam esse ganho de eficiência a seus clientes. Políticas claras e éticas, que assegurem a confidencialidade e expliquem o papel da tecnologia no serviço prestado, são fundamentais para fortalecer a confiança e criar uma relação mais sólida entre todas as partes envolvidas.
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