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Opinião

Gestão pública ignora alertas do TCU e repete 29 riscos em 2024

Dois anos após identificar 29 temas críticos na gestão pública federal, o Tribunal de Contas da União (TCU) voltou a alertar: nenhum dos riscos mapeados em 2022 foi superado.

A nova edição da Lista de Alto Risco (LAR), publicada em 2024, revela que problemas estruturais como obras paralisadas, falhas em licitações, renúncias fiscais descontroladas e judicialização excessiva de benefícios previdenciários continuam sem solução concreta.

Os dados foram coletados em auditorias e ações de controle realizadas pelo TCU em órgãos e entidades de toda a administração federal. A repetição dos mesmos riscos, sem avanço perceptível, levanta uma questão essencial: por que o Estado continua falhando onde já sabe que precisa agir?

Obras públicas paradas: a inercia custa caro

A situação das obras públicas paralisadas é um dos exemplos mais emblemáticos. Já em 2022, o TCU apontava milhares de contratos interrompidos, muitos com recursos já empenhados e canteiros iniciados.

Entre os motivos mais comuns estavam a ausência de projetos executivos adequados, falhas na orçamentação, paralisações judiciais e má gestão contratual.

Dois anos depois, os mesmos problemas persistem. O relatório de 2024 não identifica melhora substancial nos números e reforça que a governança da execução contratual segue frágil, especialmente em estados e municípios com baixa estrutura técnica.

Contratações públicas: a nova lei ainda não saiu do papel

A entrada em vigor da nova Lei de Licitações (Lei 14.133/21) trouxe expectativa de modernização. Contudo, o TCU constatou que os vícios antigos continuam presentes:
– Estudos técnicos preliminares são ignorados;
– Termos de referência genéricos continuam sendo usados;
– Matriz de risco e planejamento de contratação seguem como exceção, não regra.

O resultado é um ciclo de contratos mal estruturados, empresas desclassificadas por critérios frágeis e alta judicialização.

O próprio relatório reforça que a aplicação da nova legislação ainda é superficial e restrita a aspectos formais, sem alterar substancialmente a qualidade da contratação pública no Brasil.

Previdência e benefícios: lentidão e judicialização

Os temas relacionados ao INSS também aparecem com destaque negativo. O tempo médio de análise de benefícios segue muito acima do prazo legal de 45 dias, com registros de casos ultrapassando 120 dias.

Spacca

Spacca

Além disso, os custos da judicialização continuam elevados:
– Ações tramitam em massa;
– Há duplicidade de análise administrativa e judicial;
– O Judiciário continua sendo a porta de entrada para garantir direitos básicos.

A fragmentação entre os sistemas do INSS, da Procuradoria, da DPU e dos conselhos recursais agrava ainda mais o quadro, reduzindo a eficiência institucional.

Renúncias fiscais: o problema cresceu

Em 2022, o relatório indicava que o governo federal deixava de arrecadar R$ 276 bilhões ao ano com renúncias fiscais. Em 2024, esse número supera os R$ 330 bilhões, ou 3,8% do PIB.

O mais grave é que não há metas, prazos nem justificativas técnicas para a maioria dessas renúncias. O TCU ressalta que faltam mecanismos de avaliação de impacto, revisão periódica e transparência ativa.

Na prática, o Estado abre mão de receitas vultosas sem saber o retorno social ou econômico da decisão, o que afeta diretamente a capacidade de financiamento de políticas públicas essenciais.

A governança do SUS continua frágil

A falta de integração entre União, estados e municípios é apontada como um dos principais gargalos da saúde pública. O relatório mostra que a regulação de acesso permanece ineficiente, com filas longas para procedimentos especializados e ausência de critérios equitativos de distribuição de recursos.

A judicialização cresce como reflexo da desorganização federativa e da ineficiência da resposta estatal. A governança do SUS precisa de pactuação real, compartilhamento de dados e planejamento conjunto — o que, segundo o TCU, ainda está distante da realidade atual.

Reflexão final

A repetição dos mesmos 29 temas entre 2022 e 2024 é mais do que um alerta técnico: é um retrato institucional da inércia administrativa.

O TCU cumpre seu papel ao apontar riscos com base em auditorias e dados concretos. Mas a superação desses problemas depende de ação coordenada do Executivo, do Legislativo e dos próprios gestores públicos.

A responsabilidade é coletiva — e urgente. O controle não pode ser apenas diagnóstico. Precisa ser agente de transformação.

Douglas Lucas

é advogado, mestre em Administração e Controladoria e estudioso de Direito Administrativo.

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