Na mitologia clássica, Píramo e Tisbe viveram uma trágica história de amor marcada por desencontros e falhas graves de comunicação. Essa narrativa simboliza bem a situação atual do setor farmacêutico brasileiro, que enfrenta as consequências dos desencontros institucionais gerados pela judicialização das decisões técnicas da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Criada para garantir a segurança e a eficácia dos medicamentos disponíveis à população, a Anvisa vê sua autoridade técnica constantemente questionada por decisões judiciais e administrativas. Nos últimos anos, decisões do STF (Supremo Tribunal Federal) e do STJ (Superior Tribunal de Justiça) têm imposto frequentemente o fornecimento imediato de medicamentos ainda sem registro definitivo ou com análises técnicas incompletas.
Um exemplo claro dessa situação ocorreu em 2022, quando decisões judiciais obrigaram o SUS (Sistema Único de Saúde) a adquirir medicamentos ainda não aprovados pela Anvisa, gerando custos emergenciais superiores a R$ 1 bilhão, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde.
Além disso, intervenções do Tribunal de Contas da União em licitações públicas para aquisição de medicamentos têm agravado essa realidade. O TCU tem atuado ora corrigindo irregularidades administrativas, ora afastando exigências técnicas, ampliando ainda mais a insegurança regulatória e prejudicando o planejamento estratégico das empresas do setor.
Esses desencontros institucionais criam efeitos econômicos negativos claros. Empresas farmacêuticas enfrentam crescente dificuldade para planejar investimentos e operações. Dados da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) indicam que, enquanto países da OCDE levam cerca de 12 meses para aprovar novos medicamentos, no Brasil o prazo médio ultrapassa 24 meses.
A consequência direta dessa demora é a perda de competitividade internacional da indústria farmacêutica nacional e o atraso na disponibilização de medicamentos essenciais e inovadores para a população.
Desafios
Esses desafios foram discutidos detalhadamente no Fórum Saúde da Esfera Brasil, que aconteceu em Brasília. Sob o tema central “Indústria Farmacêutica Nacional Forte com Inovação e Autonomia”, o evento reuniu líderes empresariais, autoridades regulatórias e especialistas, com o objetivo de definir estratégias eficazes para assegurar maior segurança jurídica e desenvolvimento sustentável do setor farmacêutico.
É imprescindível que se restabeleça o equilíbrio institucional e se fortaleça a autonomia técnica da Anvisa. Judiciário e órgãos de controle precisam reconhecer claramente seus limites e atuar excepcionalmente, respaldados por pareceres técnicos sólidos.
Como na história de Píramo e Tisbe, cujos desencontros culminaram em resultados indesejáveis, o Brasil deve superar as falhas de comunicação e coordenação entre suas instituições. Apenas dessa forma será possível evitar prejuízos econômicos significativos e garantir um desenvolvimento sustentável e seguro para a indústria farmacêutica nacional.
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