O combate aos crimes econômicos no Brasil atravessa um momento decisivo. Não é de hoje que o Estado lida com fraudes em licitações, desvios milionários e cartéis que corroem a confiança pública. Mas, nos últimos anos, a sofisticação desses grupos criminosos alcançou um patamar que desafia a lógica tradicional da investigação policial. A Polícia Civil, historicamente reconhecida por sua capilaridade e experiência na apuração de ilícitos, precisa se reinventar para acompanhar o ritmo da criminalidade organizada. Não basta prender intermediários ou servidores de baixo escalão: é necessário mapear estruturas empresariais, compreender fluxos financeiros e desmontar engrenagens complexas que movimentam bilhões de reais.

As licitações públicas são um dos principais pontos de vulnerabilidade. Só em São Paulo, movimentam recursos da ordem de dezenas de bilhões de reais por ano, distribuídos em milhares de contratos. É natural que esse volume chame atenção de grupos especializados em fraudes. Os mecanismos de cartelização são variados: combinação prévia de preços, rodízio de vencedores, utilização de empresas “laranjas” e manipulação de editais. Essas práticas, embora conhecidas, tornam-se cada vez mais difíceis de detectar porque os criminosos aprendem a disfarçar padrões, diluir responsabilidades e se adaptar às mudanças normativas. O resultado é duplo: perda direta de recursos públicos e, talvez ainda mais grave, corrosão da confiança da sociedade nos instrumentos de governança estatal.
A experiência da operação “alba branca”, em São Paulo, é emblemática. O caso revelou como organizações criminosas podem se infiltrar em cadeias inteiras de fornecimento, no caso: a merenda escolar, articulando políticos, empresários e intermediários em esquemas de corrupção estruturada. Nos Estados Unidos, o Departamento de Justiça (DOJ) tem enfrentado cartéis de maneira semelhante, mas com uma diferença importante: investe maciçamente em tecnologia e cooperação entre agências. Portugal também avançou nesse campo, adotando metodologias de análise preditiva para detectar padrões suspeitos em licitações. Essas experiências demonstram que, no enfrentamento da macrocriminalidade econômica, a repressão isolada já não é suficiente. É preciso inteligência e inovação.
Ativos importantes
É justamente nesse ponto que entram as ferramentas tecnológicas. Blockchain, big data e inteligência artificial não são mais conceitos distantes ou restritos ao setor privado. Quando aplicados à investigação criminal, podem representar um salto qualitativo. Imagine um algoritmo capaz de cruzar, em segundos, milhares de contratos públicos, verificando repetições de empresas, valores acima da média ou vínculos societários ocultos. Ou ainda, um sistema de machine learning treinado para identificar padrões típicos de conluio, como propostas artificiais de empresas diferentes que compartilham sócios, endereços ou até o mesmo contador. O que levaria meses para uma equipe de investigadores pode ser identificado em minutos por meio de análise automatizada.
A Polícia Civil brasileira possui um ativo importante: a proximidade com a realidade local. Delegacias especializadas estão presentes nos estados e, muitas vezes, são as primeiras a detectar irregularidades. Mas essa capilaridade precisa ser potencializada por tecnologia. Não basta a intuição do investigador ou a experiência acumulada de equipes, ambas valiosas, mas insuficientes diante da escala das fraudes. Investir em sistemas de cruzamento de dados e em parcerias com universidades e órgãos de controle é fundamental para dar robustez às investigações. A cooperação com o setor acadêmico, aliás, pode ser uma via fértil: laboratórios de ciência de dados têm interesse em aplicar suas pesquisas em problemas concretos de corrupção e licitação.

Outro ponto central é a cooperação interinstitucional. Ministério Público, Tribunais de Contas, Receita Federal e Polícia Civil precisam trabalhar de forma integrada e em tempo real. Hoje, o fluxo de informações entre essas instituições ainda é fragmentado, quando não burocrático. Cada órgão mantém sua própria base de dados, com acesso limitado e protocolos rígidos. O resultado é a duplicidade de esforços e a perda de tempo precioso. Uma fraude identificada pela Receita, por exemplo, pode demorar meses para ser comunicada à polícia ou ao Ministério Público. Essa fragmentação beneficia apenas os criminosos, que se aproveitam das brechas de comunicação para manter seus esquemas ativos.
É claro que a tecnologia não substitui a investigação tradicional. Não se trata de abdicar do trabalho de campo, das oitivas, das buscas e apreensões ou das interceptações telefônicas. Esses instrumentos continuam indispensáveis. Mas é preciso reconhecer que a criminalidade econômica contemporânea opera em escala digital e que enfrentá-la apenas com métodos analógicos é um contrassenso. A polícia judiciária deve se posicionar como protagonista da modernização, liderando investigações complexas e propondo soluções técnicas que dialoguem com a administração pública. Essa postura, além de fortalecer sua legitimidade institucional, resgata a confiança social de que ainda é possível enfrentar a corrupção de forma eficiente.
O fortalecimento das divisões especializadas contra crimes econômicos, aliado ao uso intensivo de tecnologia, pode representar uma verdadeira virada institucional. A repressão eficaz de cartéis e fraudes não significa apenas proteger cofres públicos; significa também preservar a credibilidade das instituições democráticas. Cada licitação fraudada é um ataque não só ao orçamento, mas ao pacto de confiança entre Estado e sociedade. O cidadão comum pode não perceber a fraude em detalhes, mas sente na escola sem merenda, no hospital sem insumos, na estrada esburacada que nunca foi reparada. É nesse espaço, entre a macroestrutura e a vida cotidiana, que a polícia judiciária precisa reafirmar seu papel.
Em resumo, a criminalidade econômica não será enfrentada apenas com prisões pontuais. A combinação de repressão qualificada, tecnologia de ponta e políticas preventivas é o único caminho capaz de dar resultados consistentes. O futuro do combate a cartéis em licitações no Brasil dependerá da coragem institucional de investir em inovação e da capacidade de integrar saberes diversos: da ciência de dados à investigação policial, da cooperação internacional às reformas administrativas. Mais do que investigar crimes, trata-se de reconstruir a confiança no próprio Estado.
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