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Luiz Fernando Sá e Souza Pacheco, 51, um doloroso adeus

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Há uma foto em cima da mesa. Nela, estamos todos jovens. Vejo ali o Cláudio Alencar, o Augusto Arruda Botelho, Paulo Sellare e ele, o Pacheco.

Costumávamos sair caminhando pelo centro, partindo da Liberdade, 65, o folclórico endereço dos criminalistas, atravessávamos a praça da Sé, rumo ao pátio do Colégio onde havia alguns restaurantes. O preferido era o Piero. Volta e meia o fotógrafo estava por ali, no caminho, e virou uma tradição registrar aqueles prosaicos almoços em fotografias.

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Era começo dos anos 2000, mas achávamos muito sem graça viver naqueles tempos. Seria mais poético se fosse anos 60, ou 1930… Então resolvemos corrigir aquele pequeno detalhe, alterando a data das fotos. Em uma delas, estamos de costas, e na legenda se lê “… durante os anos de chumbo”. Em uma estamos no Quênia, na década de 1980, e em outra em Damasco, na Síria, nos anos 1970.

Com o tempo, cada um foi indo para um lado

Cláudio voltou para Brasília, Augusto abriu seu próprio escritório, e eu fiquei mais um pouco, a tempo de ainda conviver mais com Pacheco profissionalmente. Fizemos um júri juntos. Era o caso de um homem em situação de rua, acusado de matar com uma facada uma colega de esquina, ceifando ao mesmo tempo a vida do bebê que ela trazia no ventre. Havia sido condenado no primeiro júri, e por uma razão que não me lembro mais, o Tribunal de Justiça mandou que o júri refizesse o julgamento apenas em relação ao aborto.

O criminalista Luiz Fernando Pacheco morreu aos 51 anos, nesta quinta-feira (2/10), em São Paulo
Reprodução / OAB Nacional

O criminalista Luiz Fernando Pacheco morreu aos 51 anos, nesta quinta-feira (2/10), em São Paulo

Fomos então lá eu e ele defender o rapaz. Atuávamos pelo IDDD. Como a gravidez era muito recente, a tese óbvia era de que o réu não sabia da gestação e, portanto, não poderia responder dolosamente pelo aborto. Existiam diversas formas de explicar isto ao júri, mas Pacheco escolheu obviamente a mais poética e literária.

Depois de expor as condições subumanas em que aquela gente vivia, nos arredores da Sabesp na Rua Vergueiro, Pacheco entoou com o tom dramático que lhe era característico “Vossas Excelências acham então que a moça saiu contando a boa nova de que estava grávida aos amigos da rua?”. O tom do Pacheco desnudou o absurdo da acusação e o réu foi absolvido.

Pouco tempo depois deixei o escritório do Márcio Thomaz Bastos, para me aventurar na carreira solo. Na época o nome do escritório já havia mudado para “Ráo, Cavalcanti e Pacheco”, meus três mestres no início da carreira. O Márcio havia se tornado ministro [da Justiça] do Lula.

Pacheco era um apaixonado pela vida. Quando a Globo lançou a minissérie “Os Maias”, decidimos juntos ler o livro do Eça de Queiroz. Foi a única vez que fiz isso na vida. Uma leitura a dois. Lemos juntos o tijolão de cabo a rabo, e comentávamos, a cada capítulo lido, a leitura do dia anterior quando chegávamos ao escritório pela manhã.

Tive este privilégio de fazer estágio num escritório de advocacia, mas desfrutar de um aprendizado que ia muito além do estudo do Direito. Falávamos de poesia, Pessoa, Rubem Fonseca, imitávamos o Waldir Troncoso Perez, e ouvíamos causos e mais causos que ele nos contava — e às vezes inventava. Ele parecia que tinha setenta anos, tamanha a quantidade de histórias que tinha para contar. E ríamos, ríamos muito.

Pacheco me fez rir, me fez chorar, me fez ler, aprender, e lutar. Já estou com saudades.

Vá em paz, meu irmão. E até um dia.

Fábio Tofic Simantob

é advogado criminalista e integrante do Grupo Prerrogativas.

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