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Opinião

Narrativa midiática transforma trabalho precário em lifestyle

Atlascompany/Freepik

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Na modernidade disciplinar descrita por Michel Foucault, o poder se exercia sobre os corpos: impunha-se pela norma, pela vigilância e pela punição. No capitalismo contemporâneo, porém, essa lógica foi substituída por algo mais sutil: aquilo que Byung-Chul Han chama de psicopolítica neoliberal. Nessa nova forma de dominação, o poder já não precisa mais coagir. Ele seduz, persuade e produz desejo.

O sujeito não é mais oprimido de fora; ele é capturado por dentro, transformado em empresário de si mesmo, convencido de que sua liberdade consiste em explorar-se voluntariamente.

Como lembra Ricardo Antunes, o capitalismo contemporâneo não apenas remodela o trabalho, ele o dissolve em múltiplas formas de precarização. A “nova morfologia do trabalho”, conceito central de sua obra O Privilégio da Servidão, expressa essa transição: o trabalhador formal é substituído por figuras híbridas (terceirizados, autônomos, intermitentes, empreendedores de si) que vivem sob a ilusão de autonomia, mas em realidade são capturados pela lógica do capital em sua forma mais difusa e individualizada.

É nesse contexto que se deve compreender a inversão semântica promovida pela grande mídia, a transformação do trabalhador CLT em símbolo de atraso, e do profissional PJ em ícone de sucesso. A narrativa midiática, reforçada por empresas, influenciadores e programas de empreendedorismo, ensina que ser empregado é ser dependente, e ser PJ é ser dono de si.

A velha figura do trabalhador protegido pela Consolidação das Leis do Trabalho passa a ser vista como preguiçosa, onerosa, improdutiva. Enquanto isso, o empreendedor de si é celebrado como moderno, ágil, flexível, competitivo: o modelo ideal da nova moral neoliberal.

Byung-Chul Han explicaria isso como um fenômeno de positividade da dominação: o poder não mais reprime, mas seduz com a promessa de autonomia. Antunes chamaria isso de privilégio da servidão: o momento em que o trabalhador acredita ser dono de sua liberdade justamente quando renuncia a ela.

A sedução neoliberal transforma a exploração em escolha e a subordinação em projeto de vida. O que antes era relação de trabalho se converte em relação de adesão emocional ao capital.

Para Han, a mídia e as redes sociais são instrumentos de governança da alma. Elas não apenas informam, moldam o modo de sentir, desejar e perceber o mundo. Através delas, o neoliberalismo fabrica um novo tipo de subjetividade: o indivíduo que se autoavalia, se autopromove e se autoculpa.

Sociologia e psicopolítica

A cultura do empreendedorismo é o exemplo perfeito dessa captura: vende-se a imagem de que qualquer um pode vencer, bastando esforço, foco e meritocracia. A grande mídia reproduz essa ideologia com uma eficiência quase hipnótica. Cria-se, assim, um consenso emocional: o CLT é visto como o passado, o PJ como o futuro. E o trabalhador, colonizado pelo discurso do desempenho, passa a defender o mesmo sistema que o exaure.

Para Antunes, essa narrativa não é neutra: ela compõe o projeto político do capital para fragmentar a classe trabalhadora. Cada indivíduo, transformado em empresa, perde o sentido de coletividade e passa a disputar com seus pares os mesmos espaços. Assim, a psicopolítica de Han encontra a sociologia de Antunes: a alma é colonizada enquanto o corpo é precarizado.

Na sociedade do desempenho, o conflito desaparece. Não há mais patrão e empregado, há parceiros, colaboradores, prestadores. O antagonismo, que era o motor da política e da luta por direitos, se dissolve na linguagem da positividade.

O regime CLT ainda representava uma forma de negatividade social: o direito de dizer não. O modelo PJ, ao contrário, atomiza o sujeito. Antunes observaria que a empresa de um homem só é o sonho do capital: uma força de trabalho que não se organiza, não se defende e, ainda assim, se sente realizada.

O fim da negatividade, de que fala Han, é também o fim da classe trabalhadora como sujeito coletivo de resistência, substituída por indivíduos atomizados, cada qual responsável por sua própria sobrevivência.

O mais perverso, para Han, é que essa nova forma de servidão não se apresenta como sofrimento, mas como realização pessoal. A precariedade é convertida em lifestyle. O cansaço vira produtividade; a ansiedade, engajamento; o burnout, superação. A servidão se torna bela, aspiracional e vendável. O trabalhador sorri, posta no LinkedIn e chama de liberdade aquilo que o impede de ser livre.

Sob a lente de Byung-Chul Han, a disputa entre CLT e PJ não é apenas jurídica, é simbólica e psíquica. Ela revela uma mudança profunda na natureza do poder: o comando deixou de ser externo e coercitivo, tornando-se interno e voluntário. O trabalhador, convencido de que é livre, tornou-se o gestor da própria exploração. E a grande mídia, com seu discurso de sucesso e empreendedorismo, é o grande palco dessa ilusão coletiva.

Para Han, o servo sorri porque acredita ser livre; para Antunes, ele sorri porque foi convencido de que a servidão é o preço da empregabilidade. Um descreve o poder que captura a alma; o outro, o capital que captura a vida. E juntos, revelam que o novo trabalhador neoliberal é simultaneamente explorado e entusiasmado: um sujeito exaurido que chama de liberdade aquilo que o mantém de joelhos.

Leonardo Lucci

é mestre em Direito Tributário (PUC-SP), especialista em Direito Tributário (PUC-SP), professor assistente no curso de especialização em Direito Tributário (Cogeae-PUC/SP), pesquisador do Instituto de Aplicação do Tributo (IAT) e advogado.

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