A operação policial deflagrada no Rio de Janeiro no último dia 28 de outubro deixou um saldo de 121 mortos, dentre policiais e suspeitos, além de uma certeza incômoda: a estratégia de segurança pública do país, fragmentada e descoordenada, está falhando miseravelmente! O episódio, que escancarou a impotência do Estado frente a um crime organizado que opera em escala nacional e transnacional, é o sintoma mais agudo de uma doença crônica: a inoperância do Susp (Sistema Único de Segurança Pública).

Criado em 2018 com a promessa de integrar as forças de segurança e unificar as políticas de combate à criminalidade, o Susp permanece, em grande medida, uma ficção político-jurídica. A falta de adesão efetiva dos estados e a ausência de uma coordenação robusta por parte do Ministério da Justiça e Segurança Pública criam um vácuo de poder que as facções criminosas se apressam em preencher. Enquanto as polícias estaduais atuam de forma isolada, o crime organizado expande suas redes, zomba das fronteiras e transforma o Brasil em um tabuleiro de sua guerra particular.
Tragédia do ‘errejota’ como radiografia do caos
A chamada operação contenção é um estudo de caso sobre a descoordenação. Com um saldo de 117 civis e quatro policiais mortos, a ação foi duramente criticada por sua letalidade e por falhas investigativas, como a não preservação das cenas dos crimes, apontada pela Human Rights Watch [1]. Outro aspecto importante: a operação não atingiu seus objetivos estratégicos, ou seja, nenhuma das principais lideranças do Comando Vermelho foi capturada e, segundo a agência Reuters, nenhum dos 117 mortos estava entre os 69 suspeitos nomeados na denúncia que originou a operação [2].
O próprio governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, admitiu a limitação da abordagem estadual: “Se não tiver uma integração efetiva de poderes e demais entes, sob a ótica e apoio federal, vamos vencer batalhas, mas não a guerra” [3]. A declaração é um atestado da falência do modelo atual. A presença de criminosos de ao menos 11 outros estados entre os mortos na operação — incluindo indivíduos do Pará, Bahia, Amazonas e Goiás — demonstra que o problema do Rio não é apenas do Rio. É um problema nacional que exige uma resposta nacional.
Origem dos mortos (fora do RJ) na operação:
| Pará | 19 |
| Bahia | 12 |
| Amazonas | 9 |
| Goiás | 9 |
| Ceará | 4 |
| Espírito Santo | 3 |
| Paraíba | 2 |
| Outros (MA, MT, SP, DF) | 4 |
Fonte: Polícia Civil do Rio de Janeiro, novembro de 2025.
Susp: ‘sistema’ que só existe no papel
O SUSP foi concebido para ser a espinha dorsal dessa resposta nacional. No entanto, como apontam as especialistas Catarina Segatto e Ursula Peres em análise no Nexo Jornal, a adesão dos estados ao sistema “não se concretizou” [4]. Com os estados arcando com cerca de 80% dos custos da segurança pública, o poder de indução da União é baixo. As instâncias de coordenação, como os Gabinetes de Gestão Integrada, têm efetividade limitada, e o compartilhamento de informações, pilar de qualquer estratégia de inteligência, ainda é um desafio.
Essa fragmentação cria uma assimetria perigosa: de um lado, organizações como o Comando Vermelho, com presença em 24 estados, e o PCC, com atuação global; do outro, 27 políticas de segurança pública distintas, muitas vezes concorrentes e quase sempre incomunicáveis. O resultado é um gasto anual de 1,4% do PIB em segurança, aplicado de forma descoordenada e, por vezes, antagônica, alimentando um ciclo de violência e ineficiência.
Contraexemplo gaúcho: inteligência e integração
Enquanto o país assiste à proliferação das facções, o Rio Grande do Sul emerge como um ponto fora da curva. O estado é uma das três únicas unidades da federação sem a presença consolidada do Comando Vermelho, resultado de uma estratégia de enfrentamento qualificado que começou a ser desenhada em 2016.
O modelo gaúcho se baseia em dois pilares: investigação qualificada e descapitalização das organizações criminosas. A criação das Delegacias de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Dracos), em 2018, foi um passo decisivo. Essas delegacias especializadas não focam apenas no varejo do tráfico e de outros crimes graves, como roubos, mas nas estruturas de poder, na lavagem de dinheiro e na hierarquia das facções. Operações como a “guerra ao terror”, que em uma de suas fases bloqueou mais de R$ 71 milhões de um grupo criminoso, demonstram a eficácia da asfixia financeira como arma de combate [5].
Ao focar na inteligência, na integração entre as polícias e no ataque ao patrimônio do crime, o Rio Grande do Sul conseguiu criar um “ecossistema criminal próprio” que barrou o avanço das grandes facções nacionais, como explica o especialista Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo [6]. O sucesso do modelo não está em operações mais letais, mas em ações mais estratégicas.
Urgência de uma resposta nacional
A lição do Rio Grande do Sul é clara: o crime organizado se combate com inteligência, integração e foco na sua estrutura financeira, não com operações bélicas e pontuais. A tragédia no Rio de Janeiro não pode ser apenas mais uma estatística. Ela precisa ser o catalisador para uma mudança de paradigma.
É urgente que o governo federal assuma seu papel de coordenador do Susp, criando mecanismos eficazes de indução para que os estados adiram de fato ao sistema. O compartilhamento efetivo de bancos de dados, a revisão da Doutrina Nacional de Inteligência e a criação de Protocolos Operacionais Padrão não podem ser opcionais.
Continuar com políticas isoladas é permitir que o crime organizado dite as regras. É preciso escolher se queremos continuar vencendo batalhas sangrentas e midiáticas enquanto perdemos a guerra, ou se estamos prontos para, finalmente, construir uma política de segurança pública verdadeiramente nacional, integrada e estratégica. O modelo existe. Falta a decisão de implementá-lo efetivamente e torná-lo válido também socialmente.
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Referências
[1] Human Rights Watch. “Brasil: graves falhas na investigação da operação policial mais letal do Rio de Janeiro”. Disponível aqui
[2] Reuters. “Deadly Brazil police raid failed to capture or kill gang leaders”. Disponível aqui
[3] BBC News Brasil. “Quem são 115 de 117 suspeitos mortos em megaoperação no Rio, segundo a polícia”. 3 de novembro de 2025. Disponível aqui
[4] Nexo Jornal. “A falta de coordenação entre estados e União na segurança pública”. 3 de novembro de 2025. Disponível aqui
[5] Secretaria de Segurança Pública do RS. “Segunda fase da operação Guerra ao Terror bloqueia mais de R$ 71 milhões de grupo criminoso da Serra Gaúcha”. Disponível aqui
[6] G1. “Entenda por que o RS é um dos únicos estados do país sem atuação do CV”. Disponível aqui
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