As fábulas são uma forma de transmitir lições de vida, fruto de conclusões sustentadas por séculos de experiências. Poucos percebem, mas, por serem elas uma forma de narrar as relações e reações do cotidiano através das palavras e conclusões dos animais, frequentemente dão ensinamentos de grande valia na aplicação do Direito.
As fábulas têm nas pessoas de Esopo, que teria vivido na Grécia seis séculos antes de Cristo, e em Jean de La Fontaine, francês que viveu no século XVII, seus maiores autores. Os escritos destes dois gigantes são comentados pelo também gigante Monteiro Lobato, na obra Fábulas (1922). Vejamos.
A cigarra e a formiga
Certamente de todas a mais conhecida, relata a história de uma cigarra que, no rigor do inverno europeu, bate à porta da formiga pedindo abrigo. A formiga pergunta: “O que você fez durante todo o verão?” “Eu cantei”, respondeu a cigarra. A formiga, sem piedade, disse: “pois então, agora dance!”.
A cruel conclusão de Esopo foi objeto de uma versão menos áspera de Monteiro Lobato, que deu uma segunda versão, na qual a formiga dá abrigo à cigarra e reconhece que a sua música alegrava os que trabalhavam.[i] Em que pese a boa intenção de Monteiro Lobato, quem conhece a vida sabe que as portas sempre se fecham aos que não se preparam. A fábula aplica-se em duas situações.

Vladimir Passos de Freitas
A primeira, aos estudantes, que estão entrando no mundo do Direito. Se cantarem durante o verão, descuidando-se de preparar-se para a vida adulta através do estudo, do planejamento, da criação de uma rede de contatos, terão a ingrata surpresa de não se colocarem profissionalmente e terem que viver com a média salarial dos advogados, R$ 5.292 por mês, que mal dá para as necessidades básicas.[ii] A segunda, aos profissionais, principalmente aos advogados, que na fase áurea receberam bons rendimentos, mas que gastaram sem economizar e investir na previdência, não se prepararam para a velhice, o inverno da vida. E aí, quando mais necessitam, vivem em péssimas condições, por vezes recebendo benefício da OAB.[iii]
O cão e a carne
Um cão levava na boca um pedaço de carne e, tendo que atravessar um rio, viu a carne refletida na água. Porém, a visão deu-lhe a impressão de que a carne refletida era maior do que a que trazia consigo. Imediatamente soltou a que levava nos dentes para apanhar a que viu na água. A carne que levava foi-se com a correnteza e, com ela, a sua imagem refletida. E ele acabou sem nada.
As mudanças profissionais no Direito são boas, a insatisfação estimula o crescimento. Mas, por vezes, o risco é grande e não compensa. Um eterno insatisfeito nas carreiras públicas estará sempre a olhar o ocupante de outra e a comentar que ele tem isto (ex. plantão remunerado) ou aquilo (reconhecimento da sociedade). Por vezes, o dinheiro que se ganha em atividade privada é a tentação. Muitos, inclusive juízes, largam para tentar a vida como coachs, que já exercem desafiando a Corregedoria. Não percebem que a fama conquistada deveu-se mais que tudo exatamente a serem juízes e que, perdida a condição, serão um a mais entre milhares. É preciso avaliar bem o risco, evitando ficar sem uma e sem a outra.
O lobo e o cordeiro
O cordeiro estava bebendo água num riacho quando avistou um lobo bebendo mais acima. O lobo perguntou: “como é que você tem a coragem de sujar a água que eu bebo?” O cordeiro explicou que, estando embaixo, não poderia sujá-la. O lobo não desistiu, acusou-o de agitar a água e de ter falado mal dele no ano passado. O cordeiro disse ser impossível, pois ainda não tinha nascido, ao que o lobo respondeu “se não foi você foi seu irmão, o que dá no mesmo”. O cordeiro explicou que não tinha irmão. O lobo retrucou que então seria outro cordeiro, um irmão ou conhecido e, dito isto, abocanhou o cordeiro para comê-lo.
A fábula põe em discussão a razão do mais forte, o conflito entre a força e o direito. A força prevalece nas ditaduras, quando o estado de direito está enfraquecido e o Poder Judiciário não tem independência. No regime militar, alguém cassado pelo AI 5 não era previamente ouvido nem poderia discutir o ato do Executivo. A força prevalecia. É comum que diante de atos arbitrários muitos se posicionem favoravelmente. É erro flagrante, porque amanhã poderão ser as vítimas, pois o arbítrio não tem lado. Portanto, a defesa do estado de direito independe da situação do momento, é algo permanente e, por isso, todos devem lutar contra os excessos, mesmo que deles tirem vantagem.
A fábula envolve justiça e ética. Deve sempre ser lembrada a máxima “Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus” (Onde não existe justiça não pode haver direito). Do ponto de vista ético, o Código do CNJ destinado aos juízes dispõe no art. 22 que: “Art. 22. O magistrado tem o dever de cortesia para com os colegas, os membros do Ministério Público, os advogados, os servidores, as partes, as testemunhas e todos quantos se relacionem com a administração da Justiça”. Por óbvio, este dever é recíproco, sendo também dever de todos os demais atores do sistema judiciário.
O leão e o rato
O leão dormia, quando um ratinho começou a correr por cima dele. O leão acordou, pôs-lhe a pata em cima e preparou-se para comê-lo. O ratinho pediu clemência e disse que se um dia o leão dele precisasse não o esqueceria. Achando engraçada a oferta, o leão deixou-o partir. Dias depois, o leão caiu em uma armadilha de caçadores. Debateu-se desesperadamente na rede em que foi envolvido, sem sucesso. À noite, o ratinho aproximou-se e roeu as cordas que o prendiam, assim salvando o Rei dos Animais.
A fábula lembra a importância de tratar os outros com respeito e educação. No mundo jurídico, à medida que se sobe nas posições hierárquicas, aumenta-se o risco do orgulho e da arrogância, desprezando-se os que ocupam posições com menos poder. Aos arrogantes, depois de aposentados, só restará a solidão, abandonados pelos que dele se aproximavam por interesse.
O urso e as abelhas
O urso, picado por uma abelha, enfureceu-se e atacou a colmeia, destruindo-a parcialmente. Ocorre que as abelhas saíram enfurecidas e atacaram-no sem piedade, fazendo-o fugir para local distante.
A lição se aplica ao mundo jurídico. Dias atrás, em Santos, um motorista reagiu a um idoso (77 anos) que atravessava a rua com o neto e, face à velocidade excessiva e a brusca freada do motorista, apoiou as mãos em seu carro. O motorista saiu e deu um golpe chamado de “voadora” no pedestre, matando-o. Agora, preso, durante a reconstituição dos fatos o homicida se jogou ao chão e chorou arrependido.[iv] Como o urso, furioso, reagiu de forma excessiva. E agora sofre a reação da sociedade, tal qual a das abelhas. O julgamento definirá o seu destino.
As fábulas expostas e outras tantas existentes, traduzem conclusões da observação humana por séculos. É importante que sejam conhecidas pelos estudantes e pelos profissionais do Direito, pois podem ser aproveitadas na aplicação da lei e na condução das atividades profissionais.
[i] PRIETO, BENITA (Org.). Fabulosas fábulas. Ações & Conexões – Associação Cultural. Disponível em: https://cantic.org.pt/wp-content/uploads/2021/12/ebook-Fabulosas-Fabulas-Monteir-Monteiro-Lobato.pdf, pp. 8-10. Acesso em 21 jun. 2024.
[ii] Glassdoor. Salários de Advogado. Disponível em: https://www.glassdoor.com.br/Sal%C3%A1rios/advogado-sal%C3%A1rio-SRCH_KO0,8.htm. . Acesso em 21 jun. 2024.
[iii] OAB Paraíba. Disponível em: https://portal.oabpb.org.br/2020/04/coronavirus-caa-concedera-auxilio-alimentacao-para-advogados-carentes-da-paraiba/. Acesso em 22 jun. 2024.
[iv] BENTO, Brenda. G1 Santos e Região. Preso por matar idoso com ‘voadora’ chora e pede desculpas de joelhos em reconstituição do crime; VÍDEO. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2024/06/14/preso-por-matar-idoso-com-voadora-chora-e-pede-desculpas-de-joelhos-em-reconstituicao-do-crime-video.ghtml. Acesso em 21 jun. 2024.
Seja o primeiro a comentar.
Você precisa estar logado para enviar um comentário.
Fazer login