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Embargos culturais

Silvio Romero recebe Euclides da Cunha na Academia Brasileira de Letras

No dia 18 de dezembro de 1906 o escritor Euclides da Cunha (1866-1908) tomou posse na Academia Brasileira de Letras. Três anos depois foi assassinado, em episódio lastimável, já comentado nessa coluna. Na ABL Euclides ocupou a cadeira 7, sucedendo Valentim Magalhães.

Euclides era também engenheiro. Tinha formação militar. Indispôs-se com seus superiores (inclusive com seu futuro sogro, Sólon Ribeiro) por conta de suas convicções, marcadas por um emblemático ato de insubordinação. Como representante do jornal “O Estado de São Paulo” cobriu a Guerra de Canudos, tema de seu livro fundamental: “Os Sertões”.

Spacca

Arnaldo Godoy

O discurso de recepção, em nome da Academia, foi feito por Silvio Romero (1851–1914), o grande divulgador da Escola do Recife, discípulo de Tobias Barreto (1839-1889).

Romero destacou-se como crítico literário e professor, revelando-se como um dos mais aguerridos polemistas brasileiros. Foi um crítico de Machado de Assis (1839-1908), com quem conviveu na Academia. No meio jurídico contemporâneo o grande estudioso de Silvio Romero é o combativo advogado José Rollemberg Leite Neto.

A “História da Literatura Brasileira” é o livro fundamental para uma tentativa de compreensão do legado de Romero. Foi também um profundo estudioso de nosso folclore. Romero foi professor de Alceu Amoroso Lima, tendo contribuído para uma crise de fé, que marcou o nosso Tristão de Ataíde.

Romero era um nacionalista (do seu modo, e seus modos eram sempre muito inusitados), interessava-se por estudos sociológicos, preocupava-se com temas nacionais. Queria conhecer o Brasil, cada vez mais. Por isso, natural sua aproximação com o pensamento de Euclides da Cunha; “Os Sertões”, tanto quanto uma preciosidade literária, é estudo denso sobre o sertanejo e sobre suas condições de vida.

O discurso de Silvio Romero é pesadíssima peça de oratória. Elogia Euclides da Cunha e, como era de seu feitio, ao mesmo tempo criticava o empossando. O patrono da cadeira é Castro Alves. Romero aproveitou para enfrentar uma ideia comum à época, de que Castro Alves seria nosso maior poeta.

Para Romero, havia excessos de romantismo no poeta dos escravos, o que fazia da poesia dita condoreira um ideal distante da realidade. Romero retomou a rivalidade entre Tobias Barreto e Castro Alves, enfatizando a genialidade daquele primeiro. Na verdade, no discurso de recepção de Euclides da Cunha, com o mote em Castro Alves, patrono da cadeira, Romero distribui elogios a Tobias Barreto. Parece ser um discurso de elogio ao nome maior da Escola do Recife.

Para Romero, como se lê no discurso, “Os Sertões” transcendia a condição de obra literária de muito mérito: tratava-se também de um estudo sério da sociedade brasileira, especialmente no contexto de Antônio Conselheiro (1839-1897), o líder carismático do Arraial de Canudos, impiedosamente massacrado pelas forças do Governo.

Euclides da Cunha foi criticado por pretender uma reforma nacional que partisse de cima (pelas cimalhas), desconsiderando-se a base. Nosso rearranjo institucional, social e moral exigia, segundo Romero, uma transformação que partisse de um esforço coletivo:

Vós, Sr. Euclides da Cunha, em vosso discurso, aludindo célere, de raspão, aos nossos desvarios e aos nossos desengonçados e tumultuários esforços e planos de reforma, dizeis que sofremos da vesânia de reformar pelas cimalhas. É a verdade. Mas por quê? Reformar pelas cimalhas e não pela base, pelo alicerce… Por quê? De onde provém esse perpétuo desatino de tantos homens inteligentes? Em vosso livro, logo nas primeiras páginas, estabeleceis que a nossa evolução biológica reclama a garantia da evolução social: – estamos condenados à civilização; ou progredimos ou desapareceremos… Logo, é que não nos julgais no todo civilizados, e, a despeito de tantas aparências enganadoras, corremos perigo… Por quê?”

Romero, no entanto, reconheceu e enfatizou o talento e o brilhantismo de Euclides da Cunha. Se, por um lado, seria superficial a intuição de reforma social que marcava as páginas de “Os Sertões”, por outro lado, a originalidade das ideias e a qualidade da escrita recomendavam o autor desse clássico nacional:

Vosso livro não é um produto de literatura fácil, ou de politiquismo irrequietos. É um sério e fundo estudo social de nosso povo que tem sido o objeto das vossas constantes pesquisas, de vossas leituras, de vossas observações diretas, de vossas viagens, de vossas meditações de toda hora”.

E ajunta:

Em vosso livro multiplicam-se as páginas comprovadoras do asserto. Descreveis a terra, os ares, os horizontes, a flora, as secas, as trovoadas, os bons dias das renascenças hibernais, as labutações dos homens; as vaquejadas, as partilhas, as festas das sazões propícias, os sofrimentos tragicamente heroicos dos grandes êxodos inevitáveis, e descreveis os costumes, as crenças, as almas, em suma, nas suas mais recônditas fibras. As dez ou doze páginas consagradas à flora não vejo que encontrem superiores ou sequer iguais em nossa língua”.

O elogio que Romero fez a Euclides da Cunha é sincero. Registrava que se tratava de um escritor poderoso, que além de provocar ideias, colocava também os pronomes, “porque estuda e medita, porque sabe ver e inquirir”. Sabia generalizar, e sabia concluir.

O discurso de recepção de Euclides da Cunha na ABL, proferido por Silvio Romero é uma peça de oratória de qualidade ímpar. É um convite a estudos mais aprofundados de retórica, que certamente devem se iniciar com a introdução de Fábio Ulhoa Coelho ao livro de Chaïm Perelman e Lucie Oldbrechts-Tyteca (Tratado da Argumentação- A Nova Retórica), e continuar com a 1ª parte do “Direito, Retórica e Comunicação”, do Tércio Sampaio Ferraz Jr. (um livro fundamental no assunto), com o livro de Oliver Reboul (Introdução à Retórica), com o capítulo 2 do livro do Neil MacCormick (Retórica e o Estado de Direito) e, ao fim, juntando as duas linhas, “Retórica”, do Estagirita, nas várias traduções disponíveis que há.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

é livre-docente pela USP, doutor e mestre pela PUC- SP e advogado, consultor e parecerista em Brasília, ex-consultor-geral da União e ex-procurador-geral adjunto da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

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