Crônica de uma Morte Anunciada, de Gabriel Garcia Márquez, é um livro que já foi esquadrinhado, analisado, estudado, comentado, discutido, elogiado, problematizado, sob todas as possíveis e imaginárias perspectivas. O livro é de 1981. O presente comentário, que certamente nada acrescenta ao que já se escreveu sobre esse inusitado livro, é uma especulação, a partir de um engate com o selo direito e literatura.
Do ponto de vista de uma proposta de classificação, o livro é um romance-reportagem, em forma de memorialística. É que, de algum modo, tem-se uma crônica policial (ainda que animada e muito bem-humorada), redigida cerca de 20 anos após os eventos. O narrador (anônimo) pode ser o próprio autor, com reminiscências de sua juventude. Penso que uma crítica genética de Garcia Márquez tem como chave interpretativa as reminiscências do escritor em Viver para Contar, publicado no Brasil pela Record em primorosa tradução de Eric Nepomuceno.
Em Crônica de uma Morte Anunciada tem-se a impressão de que o autor é simpático com todos os personagens. Expõe os traços mais simbólicos (e pitorescos) do montão de gente que aparece no livro.
Quanto ao tema sobre o enfoque do direito e literatura, há referências a um inquérito policial, conduzido por um juiz instrutor. A tradução que tenho (também da Record, por Remy Gorga, Filho) nomina o inquérito de “sumário”. Não há um esperanto jurídico universal, e tradutores devem atentar para as peculiaridades dos documentos jurídicos. A escolha por “sumário” parece-me oportuna, especialmente como se colhe em dicionários de equivalência.
Curiosamente, o juiz instrutor não tem nome. Talvez, um capricho ou um truque do autor, que multiplicou nomes e personagens que desfilam freneticamente em um pequeno grande livro de 160 páginas, mas que não identificou o nome do juiz. O juiz parece entender de literatura, cita, anota, faz referências.
No núcleo do enredo, em algum lugar da Colômbia caribenha, um misterioso Bayardo San Román, filho de um importante militar (General Petrônio), herói de inúmeras guerras civis casa-se com a também misteriosa Ângela Vicário. Ela não queria o casamento. Foi uma obrigação imposta pelo pai, pela mãe, pelas irmãs mais velhas e respectivos maridos. Tinha dois irmãs gêmeos, que cometerão o crime que sustenta o enredo, e que não opinaram pela obrigatoriedade do casamento.
Ainda na noite de núpcias (e fora um casamento de muita ostentação) o noivo devolveu a noiva. Levou-a de volta para a casa do sogro. Argumentou que a noiva já não era virgem ao momento da consumação do casamento.
A situação lembra o Código Civil Brasileiro de 1916, que dispunha que o “defloramento da mulher ignorado pelo marido” era causa de anulação do casamento, porquanto configuraria “erro essencial quanto a pessoa”. No Brasil, o marido tinha dez dias para requerer a anulação do casamento, nos termos dos artigos 178 e 219 do Código revogado.
Nesse assunto, a memória jurídica brasileira é repleta de circunstâncias constrangedoras, inclusive de mulheres que tiveram que comprovar a virgindade, como condição de validade do matrimônio, em ações vexatórias de nulidade de casamento. Havia necessidade de laudos periciais para que se demonstrasse o equívoco dos suplicantes.
Não se sabe como e porque, e esse o grande mistério do livro, a suposta responsabilidade do defloramento anterior da noiva era de um tal Santiago Nasar. No início tem-se a impressão de que se trata do personagem central do livro. Era de uma família de “turcos”. Não nos esqueçamos que a denominação era extensiva a todos os imigrantes que chegavam na América com passaportes emitidos pelo Império Otomano. Eram súditos do Dragomano da Sublime Porta. Assim, libaneses, sírios e tantos outros eram (e de algum modo são até hoje) identificados como “turcos”. No Brasil o epíteto é recorrente.

Santiago é simpaticíssimo. Todo mundo gosta dele. O curioso é que todos sabiam que ele seria assassinado (e aí a origem do título do livro). Todos sabiam quem seriam os assassinos, como e onde Santiago seria assassinado, e inclusive com quais armas. A noiva sabia. A cozinheira sabia. O noivo sabia. O amigo de Santiago sabia. A dona da leiteria sabia. O açougueiro sabia. A mãe de Santiago sabia. Os gêmeos assassinados sabiam. Parece que até as pedras e águas sabiam. Toda a cidade sabia que o crime ocorreria, mas ninguém fez nada para evitar a tragédia. Santiago tinha 21 anos.
Intrigante o fato de que os assassinos foram absolvidos em julgamento por conta da tese da “legítima defesa da honra”. Incrível. Foram absolvidos com o argumento que defenderam a honra da irmã, deflorada por Santiago, antes do casamento. O assassino não fora o noivo pretensamente traído. Os assassinos foram os irmãos da noiva! E foram absolvidos com base na hoje odiosa tese da legítima defesa da honra!
O pano de fundo da obra é a passagem de um bispo pela cidade. O bispo desprezou o vilarejo e nem desceu do navio. Um caráter interessantíssimo. Seu prato predileto era uma sopa feita com as cristas dos galos.
Enigma
A exemplo dos leitores de Dom Casmurro, os leitores de Crônica de uma Morte Anunciada carregam uma dúvida permanente: Santiago, afinal, era culpado ou inocente? Em nenhum momento se discute a culpa ou a inocência dos dois irmãos. O autor conduz o romance com tanta proficiência que desloca os problemas levando o leitor para onde quer. Garcia Márquez domina o enredo. Na suposta pureza da narrativa transfere-se para o noivo putativamente traído é a maior vítima.
Há uma profusão de detalhes curiosíssimos na descrição dos personagens. Garcia Márquez vai “abrindo janelas”, multiplicando informações, saborosíssimas, encantando o leitor. É um mestre na construção de estruturas narrativas convincentes.
O leitor se encanta com Maria Alexandrina Fernandes (dona da casa de tolerância, detentora de um apostólico regaço), com Victória Gusmán (a empregada que fora violentada pelo pai de Santiago), com Divina Flor (filha de Victória, que, pela tradição, seria violentada por Santiago, que já investia contra ela), com Plácida Lindero (mãe de Santiago), com Cristo Bedoya (o amigo de Santiago), com Pura Vicária (mãe da noiva devolvida), com o médico, Doutor Dionísio Iguarán, entre tantos outros. Os irmãos gêmeos ficaram presos por três anos, aguardando julgamento. O mais novo contraiu blenorragia no exército.
Chama a atenção o arrogante bispo que, ao invés de abençoar o lugarejo, ocupou-se com uma sopa de crista de galo… O autor talvez soubesse que a crista de galo é um potente antioxidante, e que auxilia na proteção das células contra os danos causados pelos radicais livres. Não se confunda a sopa de crista de galo com o caldo crista de galo.
Esse último é fácil. Demanda três pimentinhas de cheiro picadas, cheiro verde, cebola picada, caldo de frango, algumas folhas de chicória, bem picadas, dois ovos, duas ou três colheres de azeite.
Porém, sugestões gastronômicas à parte, ao fecharmos a leitura de Crônica de uma Morte Anunciada, resta-nos uma amarga constatação: em uma sociedade em que todos sabem do crime, mas ninguém faz nada para evitá-lo, talvez o grande e insolúvel problema seja a inexistência de um senso coletivo de responsabilidade. É esse o tema, o problema e o enigma dessa obra atemporal.
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