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Embargos Culturais

Mario Vargas Llosa e o Chamado da Tribo

Em Chamado da Tribo, Mario Vargas Llosa pretendia fixar um painel do pensamento liberal do mesmo modo como o crítico norte-americano Edmund Wilson fixou um painel do pensamento socialista em Rumo à Estação Finlândia. A afirmação não é minha, é do próprio autor. E conseguiu, e agora a afirmação é toda minha e de mais um montão de gente que adorou o livro.

Em certa medida, e agora diferentemente de Edmund Wilson, tem-se nesse livro de MVLL uma espécie de um testamento intelectual e político. MVLL militou na esquerda, entupiu-se de Jean-Paul Sartre e desencantou-se com o pensamento de esquerda. Chamado da Tribo é, nesse sentido, um depoimento dessa brusca mudança de pensamento e de ideologia.

Edmund Wilson tratou de Jules Michelet até Lênin. E aí o título do livro: a Estação Finlândia é onde Lênin desembarcou para dar início à tomada de poder. MVLL tratou de Adam Smith, Ortega y Gasset, Friedrich Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel. MVLL conta como desencantou-se com Sartre, como deixou de admirar o lado de lá da cortina-de-ferro e como encantou-se com o pensamento liberal.

Há muito testemunho pessoal. Vários acontecimentos dos anos 60 influenciaram MVLL que os vivenciou presencialmente. É o caso da experiência pela qual passou em Cuba, à época da crise dos mísseis, quando teve conhecimento das barbaridades praticadas pelas Unidades Militares de Apoio à Produção (UMAP), em realidade, centros de extermínio. MVLL deu razão à Albert Camus, que polemizou com Sartre, a propósito dos campos de concentração que havia na Rússia. Sartre os justificava. Camus os condenava.

O autor conta que esteve em Edimburgo e que colocou flores no túmulo de Adam Smith. Em seguida, esteve em Kirkcaldy para conhecer onde nasceu o autor de A Riqueza das Nações. Descobriu que da casa sobravam apenas uma placa e um muro descascado.

Criticou o marxismo, que reputou com um pensamento totalizante, com resposta para todos os problemas, reais ou imaginários. O liberalismo, argumenta, reconhece seus erros, limites, falhas, desacertos. À ideia marxista de um Estado planejador, MVLL opôs a percepção liberal de um Estado forte e eficaz. Enfatizou que a margem de liberdade dos cidadãos varia na razão inversa do tamanho do Estado.

MVLL conta-nos que Adam Smith não conheceu o pai, advogado e inspetor de alfândega. Antes de Adam Smith nascer o pai havia falecido. Segundo MVLL, Adam Smith considerava-se um moralista e filósofo. Estudou em Edimburgo. Foi muito amigo de David Hume. Em A Riqueza das Nações, publicado em 1776 apontou o livre-mercado como o verdadeiro motor do progresso. Esse livre-mercado pressupõe a plena existência da propriedade privada, da igualdade entre os cidadãos perante a lei, a rejeição de privilégios e a divisão do trabalho.

Os grandes inimigos do livre-mercado seriam os privilégios, os monopólios, os subsídios, os controles excessivos e as proibições não fundamentadas. Segundo MVLL, Adam Smith faz do comerciante o motor do progresso.

Spacca

Caricatura: Prof. Arnaldo Godoy
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MVLL reputa Ortega y Gasset como um filósofo preciso, claro, elegante e profundo, que foi descaracterizado e transformado em referência do pensamento tradicional e conservador. Não se pode negar o elitismo no pensador espanhol, bem como não se pode negar sua elegância e estilo; para Ortega y Gasset, “a clareza é a cortesia do filósofo”, frase que impressionou MVLL, que procura seguir à risca a recomendação.

MVLL contrastou Hayek e Keynes. Compara esse último com uma raposa, que sabe muitas coisas. E compara aquele primeiro com um ouriço, que só sabe uma coisa, uma grande coisa. MVLL insistiu em explicar as discordâncias de Hayek com fórmulas de planejamento estatal.

O excerto sobre Karl Popper é um dos mais animados do livro. MVLL faz referência à cidade de Viena, na virada do século 19 para o século 20. Um ambiente multicultural, multirracial e cosmopolita. Narra com riqueza de pormenor o exílio de Popper à Nova Zelândia, onde escreveu seus dois livros centrais: A Pobreza do Historicismo (1944) e A Sociedade Aberta e seus Inimigos (1945).

Nesse último livro, Popper contesta os grandes vilões das sociedades democráticas, com ênfase em Platão, em Hegel e em Marx. Naquele primeiro, Popper argumenta que a história não tem ordem, lógica, sentido ou mesmo uma direção racional. Não há como sociólogos, economistas ou ideólogos detectar um caminho histórico definido. A história é uma narrativa de historiadores, que lhe dão coerência. Não há como se prever o curso da história mediante algum método científico dotado de alguma racionalidade.

O historicista acredita que a história já foi escrita previamente, que há roteiro pré-existente, elaborado por Deus, pela natureza, pela razão ou pela luta de classes, dependendo da perspectiva. O historicista acredita que a vida é a força de um mecanismo social e econômico que o indivíduo não tem como enfrentar e modificar. O historicista acredita que o percurso da humanidade é racional e previsível. O historicista acredita que a história tem um sentido, a despeito de sua diversidade episódica. MVLL admite esses postulados, e os utiliza, em vários outros textos, ou intervenções políticas, para criticar e encarar os teóricos do planejamento e do dirigismo estatal.

Em seguida MVLL comenta o legado de Raymond Aron. O pensador francês combateu o “mito do proletariado”, perspectiva do pensamento marxista que atribuía aos trabalhadores a tarefa e a função de salvar a humanidade da injustiça e da exploração dos patrões, fundando uma sociedade livre, sem classes, justa e isenta de contradições. O livro se encerra com comentários sobre Isaiah Berlin e Jean-François Revel.

Liberalismo como escudo

MVLL é exemplo de como a experiência pessoal e a reflexão crítica podem transformar uma visão de mundo. Ao se afastar do marxismo, movido pelo desencanto com as promessas não cumpridas e os abusos em nome de uma ideologia, encontrou no liberalismo não apenas uma filosofia política, mas também uma defesa vigorosa da liberdade individual e do pluralismo. Em Chamado da Tribo, MVLL expõe de maneira envolvente sua jornada intelectual, destacando como os autores liberais foram decisivos para sua compreensão de que a democracia e o mercado livre, apesar de imperfeitos, oferecem as melhores condições para a realização da dignidade humana.

Por meio de análises cuidadosas e de uma escrita que combina erudição e paixão, MVLL apresenta o liberalismo como uma alternativa que valoriza a autocrítica e reconhece seus próprios limites, ao contrário das ideologias totalizantes.

Este livro não é apenas um tributo aos grandes pensadores liberais. É uma inspiração, uma voz de comando e uma convocação para a defesa intransigente das liberdades individuais e das instituições democráticas. MVLL não apenas abraçou o pensamento liberal — ele o explicou, articulou e demonstrou, com fartos exemplos, por que o liberalismo é um escudo herético para resistir aos perigos do autoritarismo e do dogmatismo, que persiste em forma de ameaça permanente [1].

 


[1] Dedico esse trabalho ao grande pesquisador peruano Jorge Armando Guevara Gil, historiador e antropólogo do direito, que conheci há 25 anos, em Congresso sobre Pluralismo Jurídico em Chiang-Mai, Tailândia. Na ocasião, Jorge Armando fez uma impressionante exposição sobre o fascinante caso da monja Dominga Guitiérrez.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

é livre-docente pela USP, doutor e mestre pela PUC- SP e advogado, consultor e parecerista em Brasília, ex-consultor-geral da União e ex-procurador-geral adjunto da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

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