O uso constante desse material faz mal à saúde mental
Antigamente eu sugeria que deveria ser colocado nos livros resumidos tipo manualoides e mastigados uma advertência semelhante às que constam nas carteiras de cigarro: O uso constante deste material faz mal a sua saúde mental. E atrás da carteira deveria ter a foto de um sujeito abilolado, com a camiseta “usei e fiquei assim”, tipo a cara do Kiko, amiguinho do Chaves.
Pois agora tudo isso tem um novo contexto, proporcionado pela pandemia do uso da inteligência artificial. Já não leem nada; tudo é “extraído” desse Deus ex machina, que tudo provê.
Portanto, hoje em dia, em vez da advertência tipo carteira de cigarro, deveríamos colocar um aviso: se você continuar a usar a IA para substituir suas cognições, ficará assim – e segue a foto do Kiko.
Com efeito.
Um estudo do MIT Media Lab alerta: a IA pode reduzir a capacidade de pensar. Pronto. Assim como os livrinhos plastificados e resumidos e os cursinhos Walita para concurso provocavam uma diminuição cognitiva, agora a IA o faz em uma dimensão sem limites.
Em síntese, o estudo mostra que:
(i) Conectividade neural caiu 47%.
(ii) 83% dos usuários não lembram do que escreveram.
(iii) Quando a IA é retirada, eles escrevem pior do que quem nunca usou.
(iv) Professores definiram os textos como sem alma e sem conteúdo pessoal.
Há uma importante ressalva: pessoas com raciocínio bem desenvolvido usaram a IA como alavanca, e sua conectividade neural aumentou. Eis aí uma boa notícia.
O problema é que “o problema” não está nos bem aquinhoados pela inteligência; a coisa está na malta, nos néscios.
O problema é uso da IA como substituto de conteúdo. E é o que mais ocorre. E é o que apodrece o cérebro.
Olhando pela janela, vemos o tiroteio. A IA, sendo ferramenta, transforma-se em muleta. Em substituto. Em atalho cognitivo. Provoca um déficit seríssimo de compreensão.
“Gosto” quando alguém da área jurídica diz: o problema não é a IA no direito; o problema é o mau uso. Agora sim é que fico preocupado. Em área como o direito, tem-se aquilo que Roger Spilz chama de “área complexas”. Vivemos o tec-existencialismo, em suas palavras. É muito arriscado usar a IA em algumas áreas. Assim também é a área da educação. Precisamos de pensamento crítico. Reflexão. A IA não fornece nada disso. Faz o contrário: torna as pessoas preguiçosas. Como explicar o fenômeno “brain rot”?

Se todo mundo usar revolver, o problema será apenas o seu (mau) uso, se há tiroteios todos os dias? O que provocaria os tiroteios? Levando em conta essa alegoria, o problema não estaria na permissão — ou, como é o caso do judiciário, no incentivo — do uso?
Entalhadores de pedras e inteligência artificial
Para alguns adictos, a IA é um nirvana. Não tem defeitos. Se tem, é porque o usuário é burro. É como rezar para o santo; se não foi atendido, rezou mal. Homem de pouca fé.
Li dias atrás: “aos que recusam o novo por apego ao antigo, vale lembrar: se quiserem, podem fazer como no tempo dos Maias – escrever nas pedras”.
Respondo: ótima comparação! Naquela época dos Maias bastava bradar para o cinzel e dizer: “Cinzel: escreva aí um poema…”. Os livros de história registram robôs-cinzeis aos montes…! Só se falava nisso na Idade Média e antes disso. Leonardo da Vinci mandou a IA pintar a Mona Lisa. Há registros disso…! Em sânscrito e em latim. Traduzidos por IA.
Portanto, adorei a comparação. Afinal, há quase nenhuma diferença entre escrever com cinzel fazendo entalhes nas pedras e determinar ao ChatGPT que faça uma petição ou escreva um poema ou um texto qualquer. “Tudo igual”. Sou o cara da idade da pedra, então.
Para registro, o jornal Zero Hora do dia 21/10/2025 mostra como o usuário deve ordenar à IA para escrever um e-mail. Fantástico. Como poderemos sobreviver sem essa informação preciosa? O jornalista vai ganhar o pulitzer. Pergunto: mas por que o infeliz do usuário não pode escrever um e-mail? Nem isso se quer mais fazer? Por que, em vez de escrever uma mensagem, delegar a um robô? Fracassamos a esse nível? Várzea total? E o repórter estudou para dizer isso? Ou usou a própria IA para bolar essa reportagem?
Outro dia um jovem advogado dizia nas redes sociais: “- com o ChatGPT faço um agravo em 30 segundos. E faz melhor que eu”. Bingo. O néscio estudou cinco anos para aprender a elaborar um agravo e um robô faz melhor do que ele em 30 segundos? Perdeu, mané.
É comum comparações do tipo “entalhamento em pedras” para desqualificar quem é contra ou resiste à inteligência artificial (ou desinteligência). São “analogias” que aparecem de forma falaciosa, descaracterizadas temporalmente. Cronofóbicas.
Dia desses, depois de uma crítica minha ao uso da IA em sentenças judiciais e em petições, fui “admoestado”: “- O professor Lenio, morasse no século 19, faria passeata em favor dos empregados nas fábricas de velas, protestando contra a invenção da luz elétrica”. “Boa” a comparação. É exatamente a mesma coisa comparar tempos diferentes fazendo desaparecer, justamente, a distância temporal, comparando ovos com caixa de ovos.
Pesquisas no mundo todo mostram os perigos da IA. Estamos descaracterizando o direito. Terceirizando funções e cognições. O brain rot é uma realidade. Enquanto isso vamos apostando no caos. Principalmente se temos bons produtos de IA para vender ou ofertar nas redes. Há competentes vendedores de armas mundo afora.
Notícia interessante vem do TST, que confirmou cláusula pela qual cabe indenização a porteiros substituídos por portaria virtual. Há que se pensar nisso em escritórios advocatícios que substituem advogados por robôs.
Numa palavra: não quero eliminar a calculadora e usar o ábaco. Gosto de tecnologia. Porém, o abismo é mais profundo. Além do apequenamento do mundo (pensemos no conto Ideias de Canário, de Machado) e a preguiça mental (jecatatuamento), vivemos o início da era em que, aquele que nunca leu Machado de Assis, agora escreve textos e dá palestras…sobre Machado. E assim por diante. Quem não sabe escrever (o pessoal do fundão da classe) ou elaborar qualquer petição (formados por direito mastigado ou resumidinho) agora dá um salto sobre a ignorância, virando expert por meio do robô. Um Zeitgeist em que um zé ruela vira expert. Todos para as montanhas!
Com o dizia o personagem Conselheiro Acácio, de Primo Basílio, as consequências vêm sempre depois…! Acaciano, pois!
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