Publicado em 1984 “O Ano da Morte de Ricardo Reis” marca um ponto alto na carreira literária de José Saramago, fundindo ficção com realidade de forma magistral. O romance é ambientado em um Portugal sombrio, no início do regime fascista de Salazar, no qual o clima de opressão permeia o cotidiano das personagens. A habilidade de Saramago em retratar esse momento histórico, em meio à turbulência política e social, é notável. Contudo, o que torna a narrativa ainda mais instigante é a presença do heterônimo de Fernando Pessoa, Ricardo Reis, como protagonista, criando uma interseção única entre a literatura e a história de Portugal.

Ricardo Reis, um dos muitos heterônimos de Fernando Pessoa, emerge como uma figura complexa e introspectiva, fiel à descrição que Pessoa fez dele: um conservador indiferente, apático, sonhador e contemplativo. É um solitário; para Saramago, “a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz”.
A escolha de Saramago de explorar o destino de Reis após a morte de Pessoa é um ato criativo audacioso. Pessoa, em sua obra, nunca especificou a morte de Ricardo Reis, ao contrário de seus outros heterônimos, e é nessa lacuna que Saramago constrói a narrativa. O romance torna-se, assim, uma continuidade da ficção pessoana, inserindo Ricardo Reis num mundo que se mescla com o além-vida, no qual ele mantém um diálogo fantasmático com Fernando Pessoa, já falecido.
Essa relação entre Reis e Pessoa é um dos elementos mais fascinantes do livro. Pessoa, ao aparecer sem chapéu e sem óculos, características omitidas propositalmente, pois foram enterradas com ele, assume uma presença espectral, reforçando a atmosfera de transitoriedade e dúvida que permeia o romance.
A simbologia dos nove meses em que o fantasma de Pessoa fica com Ricardo Reis é potente. Além de remeter ao ciclo da gestação, sugere o tempo necessário para a alma vagar antes de desaparecer, sinalizando a inevitabilidade da morte e do esquecimento, temas centrais na obra. Saramago não entrega respostas fáceis, e o grande enigma que Ricardo Reis busca durante esses nove meses é deixado aberto, incentivando o leitor a refletir sobre o significado da existência e da passagem do tempo.
Lisboa é outro personagem importante na narrativa
Descrita como chuvosa, triste, cinzenta e suja, Lisboa reflete o estado de espírito de Ricardo Reis e, de forma mais ampla, a situação política de Portugal à época. A opressão e o medo são palpáveis, e os cidadãos vivem sob constante vigilância.
A presença da polícia política, representada pela figura repugnante de Victor, cujo cheiro de cebola simboliza a podridão do regime, amplifica a sensação de sufocamento que atravessa a narrativa. A alegoria da mão esquerda de Marcenda, murcha e inerte, reflete a paralisia da esquerda portuguesa, reprimida pelo fascismo em ascensão. Esses detalhes, ricamente simbólicos, tecem uma crítica mordaz ao estado político da nação. Lê-se em Saramago que “cada época tem a sua cruzada”.
Os personagens coadjuvantes que orbitam em torno de Ricardo Reis acrescentam profundidade à trama e reforçam a solidão do protagonista. Lídia, a arrumadeira do hotel, com quem Reis mantém um caso, representa uma forma de intimidade física que nunca evolui para algo maior. Por outro lado, a relação de Reis com Marcenda Sampaio, uma jovem cuja mão esquerda não se mexe, é carregada de desejo reprimido e de uma quietude quase paralisante.
O interesse de Reis por Marcenda é recíproco, embora nunca ultrapasse o limite de um beijo, e a rejeição do pedido de casamento com um longo e solene “não” é emblemática da impossibilidade de conexão genuína em meio à apatia e à paralisia emocional que dominam o protagonista. No entanto, não há paixão, o que matiza a monotonia de um tempo lento porque, como faz crer o autor, “o tempo mais rápido é o da paixão”.
Os personagens secundários, como Salvador, o solícito e traiçoeiro gerente do hotel, Pimenta, o faz-tudo igualmente traiçoeiro, e o Dr. Sampaio, pai de Marcenda e frequentador assíduo de Lisboa para ver sua amante sob o pretexto de cuidar da filha, contribuem para a atmosfera de desconfiança e hipocrisia.
Há também o marinheiro Miguel, irmão de Lídia, participante de um levante de alguns marinheiros, fortemente reprimido. Essas figuras, embora secundárias, representam aspectos da sociedade portuguesa daquela época, com suas duplicidades e segredos, personificando a decadência moral de um país sob um regime autoritário.
Saramago entrelaça essas interações humanas com uma vasta riqueza simbólica. A mão murcha de Marcenda é uma das imagens mais poderosas da obra, representando não apenas a doença da personagem, mas também o estado da esquerda política em Portugal. Ao nomeá-la “Marcenda”, que significa “murchando”, o autor acentua a metáfora, associando sua paralisia à estagnação da resistência ao fascismo. O cheiro de cebola de Victor, o funcionário da polícia política, carrega consigo a simbologia da podridão moral do regime de Salazar, intensificando o caráter opressor da narrativa.
O romance começa e termina com um pastiche de versos de Camões, sugerindo a inevitável circularidade da história e da vida. O primeiro verso, “Aqui o mar acaba e a terra principia”, derivado do Canto III de Os Lusíadas, ressurge na última frase, alterado para “Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera”.
Essas frases encapsulam o sentimento de que Portugal, uma vez uma nação gloriosa, agora se encontra à deriva, esperando por um futuro incerto. Ao homenagear Camões, Saramago traça uma linha direta entre a glória do passado e a decadência do presente, ao mesmo tempo que ressalta o poder da literatura como uma bússola moral para o futuro.
“O Ano da Morte de Ricardo Reis” é uma obra densa, complexa e profundamente simbólica. Saramago utiliza sua maestria narrativa para criar uma história que transcende o simples enredo, oferecendo uma reflexão profunda sobre a mortalidade, o poder do autoritarismo e a importância da memória cultural.
Ricardo Reis, com sua apatia e contemplação, emerge como um símbolo de uma nação em suspensão, lutando para encontrar seu caminho em meio à escuridão do fascismo. O romance é uma obra-prima de ficção histórica, que ecoa não apenas a poesia de Fernando Pessoa, mas também as tensões políticas e existenciais de uma era turbulenta. Um livro imperdível.
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