As Meninas, de Lygia Fagundes Telles (1918-2022) foi publicado em 1973. É um livro de época, datado. Seu momento histórico é sua maior singularidade. Como registro linguístico, fixa um tempo exato de nosso modo de falar. Expressões como “pomba!”, como interjeição, remete o leitor a um falar comum nos anos 1970, hoje totalmente em desuso. Nesse sentido, o leitor que compreende perfeitamente a linguagem do livro é o leitor com mais de 60 anos. É o meu caso. São nuances da linguagem daquele tempo.
Do ponto de vista político, a autora remete-nos à ditadura militar. O livro foi escrito no tempo de Médici (1969-1974). A ditadura é o pano de fundo histórico do livro. O namorado de uma das personagens fora preso, torturado, e estava [estaria] entre os presos políticos libertados como resgate no sequestro do embaixo norte-americano Charles Elbrick. Há uma descrição de tortura que é antológica, cruel, estarrecedora, realista. É um dos pontos altos do livro. Não sei como a censura consentiu com a publicação desse excerto. Segundo a autora, o “livro era muito chato” e, por isso, os censores não chegaram até essa parte da obra. Simplesmente, não viram. Então, passou.
Não há indicações precisas do local e da época na qual a trama ocorre. Ao que consta, tudo se passa em dois dias. O que sustenta as quase 300 páginas do romance é uma narrativa em forma de fluxo de consciência. O leitor deve estar preparado para enfrentar intermináveis devaneios e digressões. Se perde, às vezes. A leitura, nesse pormenor, é difícil. Por causa da referência ao sequestro do embaixador, parece que estamos em 1969.
Também não há indicação precisa a respeito do local no qual o romance se passa. As meninas são universitárias. A universidade está em greve. Vivem em um pensionato administrado por freiras progressistas. Uma das meninas (Lorena) é quatrocentona da gema, descendente dos bandeirantes. Com base nessa referência, não há dúvida: o romance se passa em São Paulo.
Arquétipos
As meninas são três. Lorena Vaz Leme, rica, é descendente dos bandeirantes; apaixonada por um homem casado (Marcus Nemesius, N. M.) e, paradoxalmente, virgem. Lia Melo Schultz, filha de um alemão que serviu ao nazismo, mas que fugiu do nazismo, e uma baiana. Lia (a quem as meninas chamam de Lião) era militante de esquerda. Cheia de utopias, namorava Miguel, o guerrilheiro, que nos permite datar o romance. Ana Clara Conceição, pobre na origem, obcecada com um casamento burguês, namorava Max, um traficante. Abusada na infância (por um tal Dr. Algodãozinho) é a mais perturbada das meninas. Seu fim é melancólico, fechando o livro com um tom sombrio e realista.

Lorena estudava Direito. Lia estudava Ciências Sociais. Ana Clara estudava Psicologia. O leitor tem nessas meninas/personagens arquétipos que identificam os lugares comuns imaginários dos alunos desses cursos.
O Pensionato Nossa Senhora de Fátima, dirigido pela Madre Alix, é um personagem com vida própria. Pensionatos dirigidos por freiras eram comuns no século passado. Simbolizavam uma muralha de proteção à realidade das ruas, acalmando os pais que consentiam que suas filhas saíssem de casa para estudar. Era o preço. Tinham que morar no pensionato das freiras. Imaginava-se o pensionato como um “casulo intocável”, como inteligentemente apontou Paulo Emilio Sales Gomes no texto de orelha da primeira edição de 1973 (que a Companhia das Letras publicou com posfácio na versão atual).
Também publicaram um posfácio de Cristóvão Tezza, que enfatizou que o livro nos revela um Brasil muito diferente do Brasil atual: havia o anátema do desquite (não havia ainda o divórcio, vitória do Senador Nelson Carneiro); a virgindade era índice de cotação no mercado matrimonial; a homossexualidade era reprimida com ferocidade; e o racismo era pesadíssimo, aliás como infelizmente parece ter sido entre nós. Tempos difíceis.
A autora, paulistana tradicional, nasceu na Rua Barão de Tatuí, em Santa Cecília, estudou no Caetano de Campos (na praça da República), e mais tarde nas Arcadas, onde se formou em Direito. É da turma de 1941, uma das seis mulheres, no meio de mais de cem homens. Advogou até a aposentadoria para a Procuradoria do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo. Foi, assim, uma advogada de Direito Previdenciário. Não tenho notícias se seus trabalhos forenses foram resgatados, devidamente estudados ou mesmo encontrados. Um ponto interessante para uma pesquisa histórica de fonte primária.
A autora foi casada com o jusfilósofo Goffredo da Silva Telles Júnior (de 1957 a 1960) e mais tarde com o crítico literário Paulo Emílio Salles Gomes (1963-1977), acima citado.
A autora é uma das mais importantes escritoras brasileiras. Foi da Academia Brasileira de Letras e da Academia Paulista de Letras. O livro está na lista das obras da Fuvest, cuja prova será aplicada hoje.
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