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Embargos Culturais

‘Pedro II e a cultura’: a conferência de José Theodoro Menck

“Pedro II e a cultura” foi o tema da belíssima conferência do historiador José Theodoro Menck proferida na Associação Nacional de Escritores aqui em Brasília na última quinta-feira, 27 de novembro. Menck é presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. É um dos mais competentes especialistas no tema do Brasil Império. A conferência teve como referência a comemoração dos 200 anos do nascimento do Imperador. Pedro 2º é carioca de São Cristóvão, como lembrou Fabio de Sousa Coutinho, presidente da Academia Brasiliense de Letras ao apresentar o conferencista. Pedro 2º nasceu em 2 de dezembro de 1825.

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Um dos traços mais significativos de Pedro 2º foi seu apego à cultura. Menck recordou que o Imperador possuía um vastíssimo conhecimento de línguas (vivas e mortas), história, Direito, medicina, astronomia, história natural, música, literatura e tudo o mais quanto lhe despertava a infinita curiosidade. O conferencista fixou Pedro 2º entre o sábio e o erudito. Com base em textos do próprio Imperador, o conferencista enfatizou que Pedro 2º reconhecia que lhe faltava imaginação; nesse sentido, era um erudito, e não necessariamente um sábio, de quem se esperam ideias novas, soluções e caminhos nunca traçados.

Menck explicou a educação à qual Pedro foi submetido. Descreveu o vai e vem de mestres, aios, camareiros e fiscais, que andavam pelo Paço, cuidando da educação do menino. Fez menção à solidão do rapaz, que perdeu a mãe (quando tinha um ano) e o pai (que voltou para Portugal), e que vivia com as irmãs, sob a vigilância de pessoas sisudas. Pedro tinha apenas seis amigos, que viraram cinco porque um deles foi afastado, por tê-lo agredido numa brincadeira de crianças. No mais, segundo Menck, Pedro aguardava a visita de primos europeus que atracavam no Rio de Janeiro. Eram príncipes incorporados às marinhas de seus respectivos países.

De acordo com o conferencista, a nomeação de José Bonifácio como tutor do futuro imperador revela um paradoxo (mais um) de Pedro 1º. Bonifácio havia se afastado de Pedro 1º, e fora exilado pelo Imperador; uma peripécia para evitar a prisão em Portugal. Nesse ponto da conferência Menck fez interessantíssimas digressões em torno do Patriarca da Independência. Bonifácio nasceu em Santos, passou a maior parte de sua vida na Europa, trabalhado arduamente na burocracia portuguesa, exercendo vários cargos muito importantes. Destacou-se com cientista.

Uma figura típica da ilustração oitocentista. Voltou ao Brasil, aposentado, com quase 60 anos; é quando então deu início a sua carreira política, recorte pelo qual é mais bem conhecido por nós brasileiros. Ao que consta, segundo Menck, Bonifácio tinha um gênio difícil. Era pouquíssimo propenso a qualquer forma de conciliação, o que lhe rendeu muitos desafetos. Perdeu a tutoria do herdeiro da Coroa.

Entusiasta do conhecimento

Pedro teve uma educação de príncipes. Segundo Menck, Pedro viveu um dilema: a rebeldia ou a dedicação aos estudos. Optou pela dedicação. Pedro 2º foi um obstinado estudioso até o fim da vida. A obsessão para com os estudos lhe valeu críticas. Os adversários argumentavam que perdia horas preocupado com o hebraico, o sânscrito e o grego neotestamentário. Não lhe sobrava tempo para governar o Brasil.

Pedro 2º viajou muito. Visitou o Egito, a Palestina, os Estados Unidos. Deixou diários e desenhos de viagem. Era um observador atento. O conferencista enfatizou esses aspectos com miríade de pormenores, mesmerizando a audiência que lotou o Auditório Cyro dos Anjos.

Menck explorou também o incentivo que Pedro 2º deu à cultura, patrocinando estudantes brasileiros no exterior, a exemplo de Pedro Américo e de Carlos Gomes. O conferencista explicou como Pedro II conheceu Pedro Américo. Em inspeção de rotina que fazia ao Colégio Pedro 2º, o Imperador percebeu que um rapaz fazia seus desenhos, fora do contexto da aula. Viu que o rapaz o caricaturava. Ao invés de se ofender, se incomodar ou mostrar-se aborrecido, reconheceu o talento do pintor, cuja carreira passou a apoiar.  Pedro Américo se notabilizou com “A Fala do Trono”, “Tiradentes Esquartejado”, “O Grito do Ipiranga”, entre tantos outros quadros.

As subvenções outorgadas por Pedro 2º, segundo Menck, vinham de recursos próprios. Tinha como fonte dotações do Estado para uso particular. Quando da Proclamação da República, prossegue Menck, as bolsas foram mantidas. Pedro 2º se endividava com frequência, tomando emprestado dinheiro a juros, na praça do Rio de Janeiro.

Menck discutiu a amizade de Pedro 2º com Arthur de Gobineau, célebre diplomata francês. Xenófobo, racista, Gobineau criticava o Brasil; certamente, só respeitava ao imperador que colocou o francês em seu devido lugar.

O conferencista também reportou passagem hilariante na trajetória cultural de Pedro 2º. O imperador polemizou com o escritor José de Alencar, a propósito das qualidades literárias do poema “A Confederação dos Tamoios”, de Gonçalves de Magalhães. Alencar execrou a obra. Pedro 2º a exaltou. Vem daí a birra de Alencar para com Pedro 2º, o que de algum modo nos remete à biografia que Lira Neto escreveu sobre o escritor cearense: “O Inimigo do Rei”. Menck contou que Pedro 2º pediu a opinião de Alexandre Herculano. O escritor português não gostou do poema. Segundo o diplomata André Heráclito do Rego, que estava do meu lado, Alencar tinha razão…

Decorrido algum tempo, afirmou o conferencista, Pedro 2º manifestou a intenção de agraciar Herculano com a Ordem da Rosa. O historiador português, constrangido, não aceitou a comenda. Não entendia que méritos teria que justificassem a homenagem. Pedro 2º escreveu uma carta a Herculano. Escreveu em nome de Pedro de Alcântara, e não em nome do Imperador, cindindo-se em duas pessoas: o cidadão e o imperador. Afirmou que Pedro não estava ofendido e que conversaria com o Imperador Pedro 2º…

A conferência de Theodoro Menck foi riquíssima em informações e insights, com auditório repleto de escritores, historiadores, diplomatas e estudiosos que confirmaram, com efusivos aplausos, a competência do conferencista. Uma noite memorável.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

é consultor da União, professor do Programa de Mestrado em Direito da Universidade Católica de Brasília e professor assistente no Instituto Rio Branco.

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