Embora a população americana, de uma maneira geral, não conheça o funcionamento da Suprema Corte do país e não saiba em que fundamentos os ministros se baseiam para tomar suas decisões, há uma impressão que prevalece: a maioria acredita que, em casos de repercussão nacional, desses que dividem a opinião pública em duas partes, os ministros decidem com base em suas convicções ideológicas — e não jurídicas.
De acordo com uma pesquisa do jornal Huffington Post e da organização YouGov, que acabou de ser divulgada, a maioria dos entrevistados não acredita que os ministros da corte irão dar prioridade à lei em duas decisões que deverão tomar brevemente em duas questões que estão polarizando o pais: o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o seguro-saúde governamental (Obamacare).
As posições dos americanos, eliminados os indiferentes aos casos, são bem claras. Os conservadores, eleitores dos Republicanos, são contrários ao casamento gay e ao seguro-saúde governamental, que favorece as pessoas que não podem arcar com o custo do seguro privado, à custa do contribuinte. Os liberais, eleitores dos Democratas, são a favor das duas causas.
A Suprema Corte dos EUA tem nove ministros, cinco dos quais compõem a ala conservadora da corte e quatro, a ala liberal. Isso dá a impressão que a votação dos ministros terminará sempre com o placar de 5 a 4 a favor dos conservadores. Quase sempre, mas nem sempre. Quando a questão tem repercussão nacional, porque está na mídia a toda a hora e a maioria dos americanos tem uma ideia do que acontece, o processo de decisão fica mais complexo.
Essas duas questões polêmicas, por exemplo, já foram julgadas na Suprema Corte no ano passado, embora sobre nuanças jurídicas diferentes. Voltaram à corte, porque a posição liberal venceu nos dois casos, mas os conservadores não se conformaram e buscaram outras minúcias jurídicas para combatê-las.
No caso do Obamacare, o presidente da corte, ministro John Roberts, que é conservador, votou com os liberais. No caso do casamento gay, o ministro Anthony Kennedy, que também é conservador, também votou com os liberais. Porém, na maioria dos casos, o resultado de 5 a 4, a favor da maioria conservadora, é o normal.
E esse foi, basicamente, o foco da pesquisa HuffPost/YouGov. A primeira pergunta foi: “Você acredita que os ministros da Suprema Corte tomam suas decisões com base em interpretações objetivas da lei, em vez de em opiniões pessoais?”. As respostas estão na tabela abaixo.
| Totalmente | 2% |
|---|---|
| Muito | 8% |
| Moderadamente | 34% |
| Não muito | 23% |
| Nem um pouco | 19% |
| Não sabem dizer | 14% |
Isto é, apenas 10% do público acredita que os fundamentos jurídicos prevalecem nas decisões dos ministros da corte (os que responderam "totalmente" e "muito"). Enquanto 34% tem as suas dúvidas, 42% não acredita na isenção dos ministros (responderam "não muito" e "nem um pouco"). Outros 14% não souberam o que dizer.
A pesquisa mostra que a maioria da população americana tem a impressão de que a Suprema Corte é tendenciosa, apesar de não conhecer os aspectos jurídicos de suas decisões. É mais uma impressão de que a corte é politizada.
Uma pesquisa recente da AP-GfK chegou a um resultado semelhante: 48% dos entrevistados expressaram dúvidas sobre a possibilidade de interpretações objetivas da lei virem a prevalecer sobre as opiniões pessoais dos ministros nos julgamentos do Obamacare e do casamento gay. A pesquisa do HuffPost/Yougov também quis saber se a corte é realmente politizada, na opinião dos entrevistados. O resultado foi este:
| A Suprema Corte é… |
Muito liberal |
Equilibrada | Muito conservadora |
|---|---|---|---|
| Opinião de liberais |
6% | 22% | 53% |
| Opinião de moderados | 12% | 31% | 26% |
| Opinião de conservadores | 57% | 22% | 3% |
| Não sabem dizer |
25% | 25% | 18% |
Ou seja, 53% dos americanos que se consideram liberais (e, normalmente, democratas) acham que a Suprema Corte é muito conservadora, enquanto 57% dos que se consideram conservadores (e republicanos) acham que a corte é muito liberal. E 22% dos liberais e dos conservadores pensam que a corte não sofre influências ideológicas.
Curiosamente, apenas 3% dos americanos conservadores entrevistados reconhecem que a Suprema Corte é muito conservadora, apesar de serem cinco ministros conservadores contra quatro ministros liberais. E 6% dos liberais, apesar de seus ministros comporem a minoria, consideram a corte muito liberal.
A uma pergunta sobre o conceito de “reexame judicial”, metade dos entrevistados acreditam que a Suprema Corte deve ter a última palavra sobre a constitucionalidade das leis (ou dos atos executivos e legislativos); 21% acha que não deve e 26% não sabe responder.
No resultado mais positivo para o Judiciário, 83% por cento dos americanos dizem que respeitam a Suprema Corte tanto quanto (ou mais que) o Executivo e o Legislativo. E apenas 28% dos entrevistados (mais republicanos do que democratas) acreditam que a corte tem poder demais.
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