É “a pergunta que não quer calar” este ano. E que muito provavelmente, já adianto, ficará sem resposta. O Direito Financeiro e as Finanças Públicas dificilmente poderão satisfazer a curiosidade da sociedade brasileira, até porque se trata de uma questão muito mais complexa do que parece à primeira vista.
A começar pelo fato de que os gastos não se resumem a construção de estádios, pois abrangem uma complexa infraestrutura de aeroportos, portos, metrôs, rodovias, rede hoteleira, mobilidade urbana, um sem-número de serviços públicos de segurança, logística e tantos outros que é difícil nominar sem esquecer algum.
Mais. É uma despesa distribuída entre o poder público e os particulares, em relações nem sempre claras e simples de serem contabilizadas, explicáveis pela multiplicidade e diversidade de meios e instrumentos pelos quais se viabilizam.
E, nesse caso, não nos esqueçamos, a relação com o poder público abrange todas as esferas de governo, pois a Copa do Mundo envolveu União, estados e municípios, o que é um grande fator complicador para mensurar, avaliar e tornar transparentes essas despesas. “Vivemos um inferno, sobretudo porque no Brasil tem três níveis políticos”, reclamou Jérôme Valcke[1]. A frase do Secretário-Geral da FIFA, responsável por acompanhar as obras de infraestrutura para a Copa do Mundo no Brasil, traduz em poucas palavras as dificuldades enfrentadas pela administração pública em um país de dimensões continentais como o nosso, cuja organização adota o sistema federativo, e com clara separação de poderes.
Desde o início, falou-se que a Copa do Mundo seria realizada com recursos privados. Afirmação que, como já se suspeitava, se mostrou inverídica, pois, ainda que muitas ações tenham sido realizadas pelo setor privado, várias delas acabaram sendo de responsabilidade da administração pública, sem contar as inúmeras situações em que a despesa “privada” foi, em boa parte, composta por recursos públicos, como veremos ao longo deste texto.
Neste ponto, é importante ressaltar que nem toda despesa pública consta dos orçamentos públicos. É cada vez mais frequente o fenômeno da “desorçamentação” ou das “off-budget expenditures”, que compreendem uma série de operações financeiras que “escapam” da lei orçamentária anual, mitigando a transparência e dificultando o controle[2]. E elas estão bem presentes em nossa Copa do Mundo.
Especial atenção merecem os gastos tributários (ou tax expenditures, para usar a expressão consagrada por Stanley Surrey), financiamentos (diretos ou garantidos pelo poder público) e gastos realizados por empresas estatais, além de outros que não são apuráveis pela análise dos orçamentos públicos.
Os chamados “gastos tributários” abrangem inúmeras formas de benefícios fiscais, tais como isenções, diferimentos, facilidades tributárias de diversas naturezas que, na prática, resultam em redução de receitas pelo não pagamento de tributos, e devem ser interpretados como verdadeiras despesas públicas. Ainda que os orçamentos devam conter demonstrativo que os contemplem (Constituição da República, artigo 165, parágrafo 6º, e Lei de Responsabilidade Fiscal, artigo 5º, II), nem todos os entes da federação cumprem o que foi determinado, e outros o fazem de forma pouco específica, impedindo que se tenha o exato conhecimento de quanto esses valores efetivamente representam para os cofres públicos. Foram largamente utilizados por todos os entes da federação, e não há dados suficientes e claros que permitam precisar o valor exato[3].
Operações financeiras envolvendo o poder público, quer diretamente pela concessão de empréstimos, quer na forma de garantias, podem onerar o tesouro, e não há como mensurá-las com precisão, deixando uma interrogação sobre quanto custaram muitas das ações governamentais importantes para completar toda a infraestrutura necessária ao evento[4].
De outro lado, grandes obras, apesar de terem sido impulsionadas pela realização da Copa do Mundo, foram e são necessárias para nossa sociedade, e não é razoável considerá-las como “gastos da Copa”, pois continuarão sendo úteis independentemente do evento. Vide os principais aeroportos do país, já há muito defasados em relação às nossas necessidades, e as obras neles realizadas são o mínimo que se espera para que cumpram suas funções de forma eficiente. Por oportuno, registre-se que nisto a Copa do Mundo foi importante: chamou a atenção para as deficiências na infraestrutura do país, extremamente defasada, não só nos aeroportos, mas em muitas áreas essenciais para o desenvolvimento.
A multiplicidade de entes federados, todos autônomos e com seu próprio orçamento, e a necessidade de participação conjunta deles em muitas das ações governamentais voltadas à realização do evento, em um exemplo de cooperação federativa que caracteriza o Estado brasileiro, descentralizam a contabilização dos custos. Embora alguns entes da federação tenham criado programas orçamentários específicos[5], outros diluíram as despesas em dotações de programas diversos, impedindo que se possa saber com clareza e transparência os valores aplicados.
Como se pode ver, a questão é complexa e não é fácil computar os gastos públicos com a Copa do Mundo.
De qualquer forma, alguns valores são interessantes mencionar, e permitem dar uma dimensão aproximada e parcial deles, afastando alguns mitos que foram criados.
Informações recém-divulgadas dão conta que os custos da Copa do Mundo somam R$ 25,8 bilhões, o que corresponde a 9% das despesas públicas anuais em educação[6], e equivale às despesas previstas no orçamento do estado de São Paulo para a área da segurança pública neste ano de 2014, como mencionado na coluna publicada no último dia 6 de maio (Financiamento da segurança pública precisa de atenção).
Ainda que devam ser relativizados, dadas as considerações feitas ao longo de tudo o que foi dito anteriormente, há que se reconhecer serem valores de dimensões menores do que se imaginava, ao pensar que com esses recursos seria possível resolver nossos graves problemas, como saúde, educação e segurança pública, serviços públicos prestados pelo Estado que asseguram direitos fundamentais do cidadão.
Além de serem muito caros, esses serviços utilizam-se essencialmente de despesas de custeio, que são permanentes e praticamente incomprimíveis, diferentemente do que foi gasto com a Copa do Mundo, cujas obras de infraestrutura, por serem basicamente despesas de capital, não vão onerar com a mesma intensidade, de forma permanente, os cofres públicos.
Apesar disso, não podemos, de forma alguma, concluir que a Copa do Mundo nos custou pouco, pelo contrário. Nela há muito dinheiro público, e não se pode dizer que tenha sido bem gasto, pois, ainda que não fosse suficiente para suprir as falhas nesses serviços públicos cuja melhora é reivindicação permanente da população, é de se pensar se não teria sido mais conveniente destinar os recursos para essa finalidade. Sem esquecer do alerta já várias vezes repetido: o importante é gastar bem, e não gastar mais[7].
Enfim, vê-se que este assunto é interessante, importante e muito instigante, e merece uma análise mais detalhada. Mas é hora de parar de falar sobre Direito Financeiro e começar a torcer. Semana que vem nossa seleção entra em campo. Infelizmente o Direito Financeiro, nesta Copa, não vai levar a taça. Nem uma medalhinha. Mas seguramente ganharemos experiência no assunto, extraindo lições úteis para o futuro.
Agora que a conta já foi e está sendo paga, chega de chorar sobre o leite derramado. Pode ter custado caro, mas nosso futebol vai fazer valer cada centavo e nos trazer essa taça!

O problema, a meu ver, não é o fato da Copa ter sido bancada com dinheiro público, mas sim o fato de que todo o dinheiro gasto pelo Estado vai na verdade para o bolso de particulares. O dinheiro que está faltando nas escolas, hospitais, delegacias e enfermarias é o que está bancando prostitutas pagas a peso de ouro, a compra de mansões, ferraris, e todo um universo de luxúria. Pior do que isso é verificar que o cidadão brasileiro permite ser roubado, e ainda fica contente.
Dá para perceber que o anúncio dando conta de que os gastos com despesas visíveis da Copa equivalem a apenas 9% das despesas anuais com educação, desmontou o discurso apaixonado do "queremos uma educação padrão-fifa", porque competência, por aqui, é artigo raro. Bom saber que a verdade ainda liberta. O problema da educação é muito mais de gestão do que de dinheiro. E a gestão "padrão-fifa", ainda que com todas as dúvidas quanto à lisura, que pairam sobre a entidade esportiva, só ela mesma a tem. Nós temos que 'camelar' muito antes de obtê-la.
Que me perdoe o douto articulista, mas sua análise é um mero amontoado de dados financeiros que não se mesclam com o verdadeiro engodo em que se constitui a tal "copa". Não discuto as aspectos econômicos e financeiros expostos, pois, afinal, "não é minha praia". Discuto e contesto, enfaticamente, sua afabilidade em, nas entrelinhas, dizer algo como: "se o estupro é necessário, relaxe e goze". Ou seja, bem ou mal, as obras eram necessários e ficaram aqui (palavras textuais da mandatária da nação, em suas elucubrações marqueteiras), e agora que está feito (embora muito haja ainda a acabar), vamos "curtir" a copa e torcer pela equipe canarinho. Discordo ostensivamente com esta assertiva. Ela é a representação patente da submissão da sociedade brasileira aos desmandos da política capciosa e autofágica (em sentido pátrio). Não. Não é "relaxar e curtir". É (ou deveria ser) contestar e boicotar, escancarando as mazelas sofridas pela sociedade (e esquecidas ou menosprezadas pela política torpe), historicamente falando, mas com ênfase especialíssimo para estes últimos 11 anos, até como um ato coletivo de protesto perante o mundo, demonstrando verdadeiro civismo e patriotismo. Seria o maior e mais contundente ato de protesto de uma sociedade refém das estrepolias políticas que nos castigam de há longas décadas.
Aceitar passivamente, aproveitar o momento e "gozar", descaracteriza o ato violento (o estupro social), tornando-o "usos e costumes", o que, na prática, redunda em alienação total, permissividade hipócrita e submissão idiótica. Significa ratificar a premissa: "podem fazer tudo o que quiserem, desde que nos deem pão e circo". E isto é simplesmente injustificável, ademais de altamente lamentável para uma nação que se diz "em desenvolvimento".
E esta alienação ridícula por causa de futebol, vale à pena para um país como o nosso?
Com todo respeito ao articulista, me espanta perceber como pessoas bem informadas ainda não se dão conta do vexame que estamos passando por causa desta COPA.
Desnudou e trouxe às claras nossa incompetência pátria, nossa total falta de vergonha e noção, nosso compadrio com a corrupção e desonestidade, nossa violência epidêmica e tantos outros fatos à expor a incompetência gritante dos que nos governam.O caso da Alemanha, que construiu sua própria vila - onde ficará time/comitiva - já seria - só este caso - de fazer corar de vergonha qualquer governo/povo.
Patriotismo não é usar bandeira e torcer por um time durante algum tempo. Patriotismo é ter a humildade de perceber como estamos falhando como nação e a angústia de não se sentir bem até mudarmos como povo.
O articulista apontou com correção a questão dos "gastos" da Copa do Mundo de Futebol. Inclusive indicou que os valores públicos que União, Estados e Municípios estão destinando à estrutura da competição, são, na verdade, diminutos, pois as verbas públicas alocadas estão sendo destinadas a obras de infra-estrutura que servirão depois à população, permanentemente. Logo, as ditas despesas da Copa, efetivamente, são de origem privada.
Mas, e os ganhos? E os "ativos" desta contabilidade? Estes foram esquecidos no texto! Como se despesa não pudesse ser vista como investimento e como se um evento deste naipe não pudesse gerar resultados ao país.
A Copa do Mundo é, segundo especialistas, o maior evento de um só esporte, o mais assistido e o mais apreciado do planeta. Centenas de milhões de pessoas acompanharão os jogos e serão levadas a observar, a conhecer e a descobrir as características do país que sedia a edição do torneio.
Ora, vivemos uma economia com grande vitalidade e oportunidades, um país com belezas naturais e imenso mercado consumidor. Evidentemente, com tantos olhares voltados para nossa pátria e nosso povo, a publicidade maciça que terá o Brasil durante o mês inteiro da competição, seguramente, trará a curto, médio e longo prazo, um forte fluxo turístico e de investimentos. Estes serão os ganhos diretos do país ao sediar a Copa do Mundo.
Quanta riqueza isto deverá gerar à nossa economia interna, beneficiando todos os brasileiros?
Quando vários países investem fortunas em publicidade, apresentando-se como bons destinos de turismo e de investimento, o Brasil deve colher, com toda a exposição mundial da Copa, muitos e muitos dólares de retorno, que alguns analistas contam em vários bilhões.
Logo, a Copa dará lucro ao Brasil.
Uma Copa: adio-mais-caro-da-copa-levaria-mais.html ]; y-lead/wp/2014/05/12/five-sad-and-shocki ng-facts-about-world-cup-corruption-in-b razil/];
a) que está custando mais que as 3 (três) últimas edições somadas;
b) que entra para a história como a 1ª (primeira) na qual a FIFA --- entidade privada --- não pagará impostos, o que duplicará seus bilionários lucros;
c) para a qual se construiu o 2º (segundo) estádio mais caro do planeta, 61% mais caro que a mais que arena nababesca na Arábia Saudita (edificado em Brasília/DF, que levaria Mil anos para ter seu custo recuperado, cfe. http://www.folhapolitica.org/2014/04/est
d) que consegue levar esse país miserável, carente dos mais básicos serviços públicos (onde há 45 milhões de dependentes do "bolsa família"; com IDEH e educação equivalentes a países africanos; níveis de violência, competindo com os de El Salvador) a ser objeto de matérias jornalísticas no exterior, como administrado por corruptos e habitado por um povo inculto, que se orgulha da execução de estádios de futebol ao custo final superior a 318 vezes o custo original [V. entre outros: http://www.washingtonpost.com/blogs/earl
e) para qual até ex-jogadores de Copas anteriores passaram a receber o teto da Previdência, independentemente de contribuição, enquanto milhares de brasileiros que contribuíram pelo teto não o recebem.
Para essa Copa, colunista José Maurício --- que seguramente está custando caríssimo, não apenas "pode" ter custado caro, como escrevestes --- já recebemos a Taça de Idiotas do Planeta, comprada com nossos impostos e contribuições previdenciárias.
O único acerto dessa Copa está no nome do Mascote "Fuleco" [consulte "fulecar" no Pai dos Burros ou em http://www.priberam.pt/dlpo/fulecar ].
Caro Prof.
Muito interessante a publicação.
Numa outra deveria ser colocada o verdadeiro legado que o Pais receberá.
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