Muito mais do que o apego à forma escrita e positivada, o Direito se realiza quando os cidadãos o vivem de maneira efetiva, fazendo com que seus princípios e regras se tornem práticas sociais compartilhadas. Esse é, sem dúvida, o melhor meio para a concretização do projeto constitucional idealizado na Carta de 1988.
Contudo, analisando o contexto atual, é possível constatar outras consequências da nova economia psíquica e da formação do neosujeito hiperindividualista tratado nas minhas duas colunas anteriores: sem o laço ético entre o individual e coletivo, a sociedade brasileira caminha para o distanciamento cada vez maior desse ideal de realização do Direito, o que leva ao fenômeno da “judicialização da vida”.
Duas hipóteses parecem confirmar essa ideia: a primeira delas é a inversão da prioridade entre as diferentes ordens normativas e seu papel de estabilização social, fazendo com que o Direito, que deveria ser a ultima ratio, tenha se tornado a prima ratio na resolução de conflitos. Ou seja, ante a falência dos sistemas normativos gerais, resta a violência institucionalizada do Direito — ou, ao menos, sua ameaça de potencial sanção — como último recurso para resolver controvérsias humanas.
Já a segunda hipótese, decorrente da primeira, é que o componente normativo da sanção está supervalorizado, sobrepondo-se à legitimidade enquanto elemento de garantia de eficácia das próprias normas jurídicas. Isso significa que o aspecto punitivo ganha cada vez mais força no discurso jurídico, reforçando a exigência de uma sanção célere, não importa se violando o direito fundamental ao contraditório e à ampla defesa. O Direito perde seu diferencial em relação às normas sociais. Avancemos nessas premissas.
O Direito como prima ratio
A experiência de viver em sociedade, no seio do que minimamente podemos chamar de civilização, é uma experiência marcadamente normativa. Na vida social, há uma infinidade de normas que regulam as condutas humanas, impondo-lhes limites, estabelecendo obrigações ou proibições ou ainda incentivando ações.
Esse mundo normativo é marcado pela complexidade, com grande multiplicidade de princípios e regras de conduta de diferentes características e matrizes. Norberto Bobbio nos lembra de que há preceitos religiosos, regras morais, sociais, costumeiras, regras de etiqueta e boa educação (ética menor), regras que regulam a relação do homem com a divindade, ou, ainda, do homem consigo próprio, sendo que as normas jurídicas são apenas parte desse conjunto normativo[1].
A ordem moral diz respeito à delimitação do valor da conduta humana, estabelecendo critérios para a delimitação do que é bom/ruim, bem/mal. Kantianamente, entende-se que a moral é primeiramente interna, oriunda da autonomia e liberdade individual do ser humano racional. Sendo de índole intraindividual, a sanção mais comum a ela atribuída é sentimento de culpa, oriundo da violação dos princípios internamente estabelecidos.
A moral interna não se confunde com a ideia de uma ordem moral positiva que, conforme anota José de Oliveira Ascensão, é formada pelo conjunto de regras morais ou vigentes em uma determinada sociedade, com vistas ao aprimoramento e aperfeiçoamento da ordem social[2].
Ora, no contexto da “nova ordem psíquica” tanto a noção de ordem moral interna quanto a concepção de uma moral positiva e social perdem sua capacidade de regulação e controle. A primeira porque o neosujeito — perverso —, ao encobrir o outro e impor suas determinações, tem baixa capacidade de autorresponsabilização, preferindo deslocar o problema e colocar a culpa nos outros. O fenômeno do autoengano, diagnosticado por Eduardo Gianetti, bem demonstra como o sujeito tem a capacidade de mentir para si mesmo — um paradoxo lógico — justamente em face da dificuldade de suportar a culpa por seus erros[3].
Por sua vez, a ideia de uma moral positiva estável que sirva como parâmetro de conduta para a sociedade não mais encontra sustentação em ambiente altamente fragmentário e complexo, marcado pelo individualismo. Como já demonstrado, a reconstrução do laço do sujeito individual com o coletivo ainda é uma tarefa em andamento.
A(s) ordem(s) normativa(s) de índole social e heterônoma, sejam elas religiosas — dependentes da fé individual, mas de características sociais por determinar regras de conduta gerais a partir de critérios transcendentes —, sejam propriamente sociais — usos, costumes, convenções culturais que estabelecem parâmetros de conduta e impõem julgamento/reprovação/sanção imediatos —, também não têm dado conta de operar essa reconstrução do laço coletivo em bases suficientemente eficazes para produzir efeitos em prol da cidadania e da ética da tolerância, diminuindo a necessidade ou a importância do Direito.
Pelo contrário, não raro presenciamos ações fundamentalistas que significam o encobrimento ético do outro: o linchamento — moral, social ou físico — é exemplo clássico de punição extrema, executada pela própria sociedade, que mata o próximo e clama por intervenção jurídica para que seja evitado.
A cultura da litigiosidade se impõe. Nos casos concretos levados diariamente ao Judiciário, é comum o individualismo e a irracionalidade impedirem a composição amigável de litígios.
O resultado é o apego ao Direito como prima ratio: a nova economia psíquica parece prosperar e sobrepor-se a qualquer outro sistema de controle ético-normativo, fazendo com que a ordem jurídica seja o primeiro (quiçá único) sistema normativo com alguma condição de regular condutas, não porque legítima, mas porque ainda conta com a violência estatal como suporte.
Da legitimidade ao primado da sanção
Aprendemos com Herbert Hart que a noção da obrigação — ideia de que onde há direito, a conduta humana é não facultativa —, não deveria ser fundada apenas na previsão das reações psicológicas do destinatário da norma ou na pressão social, mas sim na distinção entre os aspectos interno e externo da posição do sujeito em relação à estrutura social e suas normas, de modo a assentar em outras bases o vínculo de obrigatoriedade[4].
Nessa concepção, o ponto de vista interno é próprio dos que se sentem parte do grupo social e aceitam suas regras como guias de conduta. Já o ponto de vista externo é inerente aos observadores que se referem do exterior às regras de conduta de uma sociedade, ou seja, aferem seu cumprimento e regularidade, mas não se sentem legitimamente atingidos por elas[5].
Ao cooperarem voluntariamente, os observadores internos indicam que reconhecem a legitimidade das regras jurídicas, enquanto que os observadores externos apenas as cumprem quando sujeitos à possibilidade sofrerem alguma espécie de sanção ou castigo.
Eis uma das grandes lições de Hart: a realização do Direito assenta-se no binômio legitimidade-coação, em que a primeira atende aos anseios daqueles que aceitam a obrigação jurídica desde um ponto de vista interno e a segunda é o meio de garantia de cumprimento das leis para os que enxergam a ordem jurídica desde fora, isto é, de um ponto de vista externo.
Em uma civilização perfeita, todos cumprem suas obrigações e não se faz necessária a intervenção violenta do Direito, pois as chamadas regras primárias de conduta são suficientes.
Todavia, em uma sociedade composta por neosujeitos hiperindividualistas, sem culpa nem ordem social que os regulem, a grande maioria coloca-se do ponto de vista externo, levando ao primado da sanção sobre a legitimidade do Direito.
Esse quadro traz consequências drásticas: os sujeitos apenas cumprem as regras ante a possibilidade de sofrer sanções por parte do poder instituído, tornando infinita a demanda serviços judiciários. Não há estrutura processual que aguente, não há juízes, promotores, advogados e policiais suficientes: no limite, todos teriam que desempenhar, ao mesmo tempo, todas as tarefas jurídicas. Todos seríamos juízes e policiais ao mesmo tempo.
O resultado, atual e iminente, é visível aos olhos: i) sobrecarga ética do Judiciário nas demandas sociais; ii) congestionamento processual e lides quase eternas; iii) sentenças não transitam em julgado, levando ao reinado das antecipações de tutela e decisões liminares, iv) juízes assorbebados, sem condições de refletir sobre os casos e as vidas postas em suas mãos e v) predomínio de assessores e estagiários como grandes magistrados das causas.
O paradoxo é que essa situação leva à ausência de eficácia geral do sistema de Justiça e, consequentemente, à perda de credibilidade do próprio Direito ante ao não atendimento das demandas em seu devido tempo.
A sociedade fica sem saída: ou há um resgate ético e os conflitos se revolvem de maneira alternativa ou a cultura da litigiosidade baseada na coação e encobrimento do outro acabará com as possibilidades de uma jurisdição eficaz, tornando o sistema jurídico algo meramente simbólico.
Enquanto isso, o diagnóstico da nova ordem psíquica se confirma e se reforça a cada dia. A vaia da torcida brasileira na execução do hino do Chile durante jogo da Copa do Mundo é apenas mais um dos sintomas dessa perversão democrática. Entre cidadãos sem limites, com tão baixo compromisso ético, a judicialização da vida se revela um caminho sem volta.
[1] BOBBIO, Norberto. Teoria da norma jurídica. Trad. de Fernando Pavan Baptista e Ariani Bueno Sudatti. 3. ed. Bauru: EDIPRO, 2005, p. 23-26.
[2] ASCENSÃO, José de Oliveira. O direito: introdução e teoria geral. 9. ed. Coimbra: Almedina, 1995, p. 31.
[3] Cf. GIANETTI, Eduardo. Auto-engano. São Paulo: Cia. Das Letras, 1997.
[4] HART, Herber. O conceito de Direito. 3. ed. Trad. A Ribeiro Mendes. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, p. 92-99.
[5] Ibidem, p. 99-100.


Mais uma ótima coluna nesta muito pertinente série que Dr. Marco Aurélio Marrafon vem produzindo. Todavia, seguimos a disputar o ponto de corte da análise: o fenômeno que hoje se presencia após a implosão das ordens morais precedentes ao Direito é, efetivamente, o de um "individualismo exacerbado"? Mas, como é possível que o indivíduo - aquele que, no dizer de Ayn Rand, constitui em si "a menor das minorias" - possa impor de tal modo sua agenda sobre uma sociedade de massas, onde, objetivamente, a "ultima ratio" dos corpos coletivos -- o Estado -- atingiu graus de controle social impensáveis sequer ao mais absoluto tirano do passado e inverteu a pirâmide da subsidiariedade?
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A explicação encontra-se no momento precedente ao da ruptura da moral social: ela não tombou por seu próprio peso, ou por simples determinismo econômico. Sua queda foi meticulosamente planejada, como que por obra de engenharia, e os cálculos encontram-se todos documentados nas obras dos mais influentes teóricos da segunda metade do século XX, sobremaneira os da chamada Escola de Frankfurt.
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Mais que uma era de indivíduos crédulos em sua onipotência privada, encontramo-nos diante do retorno do tribalismo pré-cristão. A adesão à tribo é instintiva, pré-racional. Deposita todas as expectativas no advento de uma liderança provedora e iluminada, e confere poder absoluto do líder sobre a manada. Indivíduos podem mover-se contra o rebanho; tribos movem-se em coletivos, umas contra as outras, a fim de garantir ao líder os meios de acesso à terra que lhes prometeu. Somos todos tutsis ou hutus (grupos inventados "ad hoc" para ocuparem-se uns de odiar os outros), enquanto nossos belgas tributam-nos a ambos a fim de nos defender do inimigo fabricado, o qual, antes deles, nem existia.
Veja-se que, em uma sociedade onde indivíduos fossem tão crédulos em sua autossuficiência quanto se imagina, a demanda social mais audível dificilmente seria pelo contínuo aumento da intervenção externa sobre suas relações intersubjetivas (quando não intrassubjetivas: hoje se acredita piamente que, em uma cidade como Nova Iorque, deva a prefeitura prevenir que nós mesmos escolhamos o tamanho de nossos copos de refrigerante; em um país das dimensões do Brasil, devam as polícias fiscalizar, de casa em casa, como se disciplinam as crianças; que todas as salas de aula apresentem filmes nacionais...!). no extremo oposto da "sociedade de confiança" (Alain Peyrefitte). De tal modo se adestraram as massas a dar por impugnadas (sem que se exija para tanto qualquer demonstração racional) as múltiplas ordens morais precedentes ao direito positivo, que desconfiamos de nossa própria capacidade de julgamento e suplicamos que nos seja imposta, desde fora, uma nova escala de valores prêt-à-porter. Ideologias de toda a ordem vendem-se em um mercado caótico apenas em superfície, pois todas se submetem à concorrência desleal do pensamento oficial, encampado pelo Estado. Uma vez adquiridas conforme a conveniência - e os estímulos fazem extremamente conveniente aderir ao pensamento hegemônico -, acaba-se o individualismo. Doravante, todo o discernimento terceiriza-se à tribo, conforme dizíamos. O "Outro" contra quem lutar (indispensável à pequena política, recorda Carl Schmitt) segue sendo uma abstração para a exploração de instintos coletivistas e mobilizações de massa. Há que espoliar "O Judeu", diriam na Alemanha de 1930, porque se identificassem claramente O Judeu como o cândido Seu Jacó da venda da esquina, não se venderia o serviço do árbitro.
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Encontramo-nos
A cristalina línea de raciocínio do articulista é tão similar à que defendi (em minha tese de 1976) e continuo a defender ainda hoje, que praticamente dispensaria qualquer comentário aditivo a tão preclara exposição.
Sem que pareça ousadia ou petulância, permito-me apenas acrescer que a questão central desse fenômeno involutivo é inerente ao ser humano. Quando defendo (em minha tese) que "o homem é um projeto mal-acabado", atribuindo - paradoxalmente - à sua racionalidade essa incômoda pecha, é justamente em razão do seu ingênito desequilíbrio comportamental. "Similar força que leva o homem à conquista do seu progresso, também sói arrastá-lo à sua gana destrutiva e ao seu fracasso" (J.Koffler, 1976).
O livre atuar humano implica no respeito pelo outro, mas, com o avanço insolente do individualismo predador, limites foram impostos pelo Direito, embora estes também tenham se transfigurado ao longo do tempo, praticamente impondo a construção de "éticas sob medida", representativas do caos social.
Permito-me, por fim, destacar também o excelente arrazoado do comentarista Leonardo Faccioni (Advogado Associado a Escritório - Empresarial), impecável em seu raciocínio.
O nosso antigo bom senso caiu em desuso. Hoje precisamos de regras até para determinar o tamanho dos colarinhos nas camisas. Somos e estamos cada dia mais ansiosos por regras, regulamentos, portarias, leis, decretos... qualquer coisa que digam aos outros (não à nós) como agir, o que fazer e o que não. Parabéns, ótima coluna!
Frente a esta realidade, hodiernamente os indivíduos buscam seus próprios anseios e negligenciam a esfera coletiva. Nesse diapasão, a judicialização do Direito impera e reina entre a sociedade de tal forma, que o Direto afasta-se cada dia mais da seara preventiva dos conflitos e se consagra como a primeira e última ratio concomitantemente, para a solução das lides.
O nosso amadurecimento como Nação, a exemplo do que ocorreu com os povos cultos europeus, depende de um eficaz sistema educacional, principalmente no nível superior, que prepara apenas para o exercício técnico-profissional, descurando da formação ética de cidadãos comprometidos com o coletivo.
O desrespeito cotidiano às simples regras de trânsito por pessoas com formação superior, por exemplo, comprova o que foi dito no parágrafo anterior. Sem falar nas condutas ímprobas de políticos, servidores públicos e empresários.
Em supermercados é corriqueiro o desrespeito às filas nos caixas. Um espertinho deixa alguém na fila e depois chega com um ou mais carrinhos cheios. Tente-se dialogar para ver se funciona. Ouve desaforos e até ameaças de agressão. Cabe ao que está certo ficar quietinho e aceitar a injurídica imposição.
O que esperar, então, das camadas sociais deseducadas por falta de acesso a um eficaz sistema educacional?
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