Os estudantes de Direito têm diante de si uma perspectiva de vida bem atraente. Nenhum curso abre tantas possibilidades de escolha e de realização pessoal.
Todavia, boa parte dos que cursam Direito, principalmente os jovens das melhores faculdades das capitais, tiveram uma educação altamente protegida. Com boas intenções, sem dúvida, os pais buscam dar aos filhos as melhores escolas e atividades paralelas, que lhes preenchem todo o tempo. Nas classes média e alta é comum a criança conhecer a Disneyworld (em Orlando, EUA), sem ter ido uma só vez ao centro da própria cidade.
Protegido de todas as formas, vivendo em ambientes restritos, o jovem ingressa na Faculdade de Direito. E daí aprende que todos os direitos possíveis estão ao seu dispor. Afinal, a Constituição assegura tudo a todos, educação, moradia, saúde, lazer, meio ambiente saudável, só falta constar a felicidade.
Tudo isto, dito e repetido, vai se tornando uma verdade absoluta e incontestável. E a formação vai direcionando a mente dele (ou dela, hoje a maioria nas classes) para um mundo que seria muito bom, mas que simplesmente não existe. A academia preocupa-se mais com doutrina, às vezes estrangeira e sem conexão com o Brasil. Não prepara os estudantes para a realidade e daí vem o choque. Vale lembrar a música de Belchior, “Apenas um rapaz latino americano”, quando diz “a vida realmente é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior”.
Para ficar em um só exemplo, cita-se o Direito Penal. É comum o aluno de Direito dizer que ele é lindo na teoria, mas que na prática é diferente. Com isto os interesses se voltam para temas mais amenos. O TCC certamente dirá que todos têm direito a tudo, só não dirá como isto ocorrerá, uma vez que o Estado não tem como atender todas as reivindicações feitas pela sociedade.
Ao ingressar no mundo real, como estagiária, a jovem estudante poderá ter um choque ao verificar que o seu chefe na repartição, aquele profissional fantástico e que tanto admira, dedica-lhe um especial interesse que vai bem além das teses do Direito Constitucional, mesmo sendo casado e tendo filhos da sua idade. Esta decepção pessoal poderia ser atenuada, se lhe fosse explicado que os seres humanos são imperfeitos e situações como esta existem e precisam ser bem administradas. Por exemplo, perguntando como vai a esposa do pretenso conquistador.
Ao entrar no mercado de trabalho, o jovem profissional, já munido da carteira da OAB, resolve abrir um escritório de advocacia. Só não sabia que se gasta muito com isto e que o dinheiro só vem depois de ter seu trabalho reconhecido, dois ou três anos mais tarde. Não imaginava que poderia brigar com seu sócio, o melhor amigo na faculdade, porque ele seguidamente passa o fim de semana fora, saindo na quinta à tarde e voltando segunda às 11 horas da manhã. Nem de longe supunha que um cliente pelo qual lutou e conseguiu ganho de causa poderia ser ingrato e não lhe pagar os honorários devidos.
Nas carreiras públicas, após anos de estudo e sacrifício, imaginava que não teria maiores dificuldades. Não é bem assim. Ao prestar concurso para a polícia, via-se participando de grandes operações, mas a realidade lança-o para plantões por onde passam todas as misérias humanas. Sem estrutura de trabalho, vê-se impossibilitado de resolver tantos problemas e ainda tem que ouvir o cunhado desempregado dizer que a polícia é arbitrária e que só prende os pequenos.
Na magistratura, imaginou-se proferindo grandes decisões. No entanto, frustra-se ao constatar que não tem solução alguma para uma criança vítima de atos de libidinagem por parte do padrasto, cuja mãe aceita a situação porque não quer perder o seu homem. Sentirá dificuldades para decidir um pedido de tratamento no exterior para uma criança, que importa em 20 mil dólares e, que se vier a ser deferido, resultará na impossibilidade do SUS tratar 2 mil pessoas com problemas de menor gravidade.
Mas então, será tudo assim difícil?
Não, tudo isto pode ser enfrentado. Apenas é preciso estar preparado e os professores de Direito têm um papel importante nisto, na medida em que mostrem a realidade e ensinem como enfrentar os problemas. Não é diferente na medicina, na engenharia ou no mundo artístico. Assim é a vida e é preciso estar preparado paras dificuldades.
Neste quadro, a primeira coisa que deve saber o estudante de Direito é que a realização profissional está ao seu alcance e que, na caminhada, surgirão obstáculos, mas que podem ser superados.
A segunda informação importante é que saibam que muitos profissionais que hoje brilham nas carreiras públicas, na advocacia ou no magistério superior, passaram pelo mesmo processo. Tiveram as mesmas dúvidas e dificuldades, conseguiram superá-las com grande esforço pessoal.
A terceira referência é que dificuldades ou obstáculos, profissionais ou pessoais, podem ser uma ótima oportunidade de readequar ideias e planos. Imagine-se o jovem que, depois de cinco anos de estudos, chega ao oral do concurso de promotor de Justiça, mas acaba sendo reprovado por dois décimos. Qual a reação?
Ele poderia “virar a mesa”, dizer a todos que o concurso é fraudulento, que a banca era preconceituosa, pois não gostou de seu modo de vestir-se e coisas semelhantes. Abdica de seu sonho, dedica-se a uma atividade fora do Direito e, 30 anos depois, ainda está se queixando de que foi vítima de uma injustiça.
A outra posição seria avaliar onde falhou, qual foi o seu erro. Estaria fraco em alguma matéria? Não soube expor com clareza? A partir daí, decidir se fará novamente o mesmo concurso, ou se prestará em outro estado ou mesmo para outra carreira.
Obviamente, a segunda postura é a acertada. Avaliar a própria conduta, admitir e corrigir erros é um exercício de humildade que só faz crescer a pessoa. Por outro lado, é tolice pensar que a felicidade está exclusivamente em uma única carreira. Atualmente há uma grande quantidade de profissões jurídicas que permitem a plena realização pessoal e profissional.
Outro exemplo. Ter problemas com um sócio no escritório de advocacia tira o sabor da vida, com certeza. Mas a melhor solução não será a discussão judicial, persistindo em situação de conflito por três, seis ou dez anos. O melhor caminho é a conciliação e, para isto, ninguém melhor que um antigo professor da Faculdade de Direito, que seja respeitado por ambos e que possa aplainar as divergências.
Finalmente, é preciso colocar-se diante dos problemas com maturidade. Alguns podem ser de impossível solução. Vão além dos limites de ação dos envolvidos. Por exemplo, ciúme e perseguição por parte de alguém que tem poderes para causar-lhe o mal. Para estes casos, é preciso lembrar que isto existe desde que o mundo é mundo e que a melhor forma de atenuar é contornar o problema. Não comentar o assunto com ninguém, aparentar não ter percebido, seguir a vida simplesmente. O perseguidor certamente direcionará seus maus sentimentos para outro que se atravesse no seu caminho.
Em suma, os estudantes e também os profissionais mais jovens precisam ter consciência de que o universo jurídico tem realidade própria, bem diferente do mundo de ficção que os bancos da academia insistem em exibir. No entanto, enfrentando as dificuldades com maturidade e perseverança, é possível, sim, tornar os sonhos realidade. E nenhum curso como o Direito permite tantos sonhos e tanta realização profissional.
PS: Todos os exemplos dados originam-se de casos reais dos quais tomei conhecimento em minha vida.
Texto revelador, que nos leva da fantasia à realidade em cinco anos, mas porque devemos ignorar o fato do perseguidor investido de poder para nos causar o mal a ponto de fazer com que sejamos esquecidos, o que não acredito que aconteça e devemos assistir de camarote que ele redirecione seu alvo a outrem?
Olá, eu sou estudante de Direito, atualmente cursando o 3º ano, mais precisamente, o 5º semestre.
Eu sou de São José dos Campos, entrei na faculdade muito jovem, e esse texto explana bem o que eu sinto.
Ter uma incerteza do futuro tremenda já faz parte do meu cotidiano, até agora tudo o que sei, é que vou advogar de alguma forma, em qual âmbito e esfera é uma dúvida que me assola todos os dias.
Será que vou desempenhar bem minha profissão? Toda vez que eu fecho os olhos e me dizem para fazer um desejo, eu só peço pra eu conseguir ser o melhor que eu já fui, todavia, eu procuro sempre me preparar melhor para viver a vida jurídica além dos portões da faculdade.
Agradeço pelo bom texto. Espero que eu encontre com frequência mais matérias assim, pra inspirar não só eu, como todos os estudantes de Direito que aqui frequentam.
Primeiramente, parabéns pelo artigo ser muito descritivo, crítico e encorajador. Só tenho a agradecer por ler relatos de jovens em situações parecidas às minhas e ver que o meu receio faz parte de uma massa de tripulantes da mesma embarcação.
Além do mais, saber que rumo tomar e qual atitude ter frente aos medos e desafios, passou mais confiança na reta final do meu curso.
Tais conselhos dados pelo Doutor, os quais não se resumem a este artigo, com certeza serão lembrados por mim a meus futuros estagiários e acadêmicos. Abraços!
Costumo ler os artigos desse autor, mas esse foi o mais incrível que já vi. Uma lucidez impressionante!
O Direito Efetivamente Aplicado...
Me preocupa muito ter passado pela graduação do Direito e nenhum professor jamais ter me falado em sala (a não ser quando eu mesmo suscitava a discussão) sobre nenhum dos problemas ventilados pelo lúcido articulista. Me preocupa que mesmo os melhores alunos estavam tão focados nas questões cobradas na prova da OAB e se esqueciam de perguntar aos professores, afinal, o que me reserva o mercado jurídico. Que problemas enfrentarei, o que habilidades preciso desenvolver para não ser engolido pela realidade, por onde devo começar para planejar a minha carreira profissional? Parabéns por tão esclarecedor artigo. Compartilharei com prazer em todas as minhas redes de contatos!
Me preocupa muito ter passado pela graduação do Direito e nenhum professor jamais ter me falado em sala (a não ser quando eu mesmo suscitava a discussão) sobre nenhum dos problemas ventilados pelo lúcido articulista. Me preocupa que mesmo os melhores alunos estavam tão focados nas questões cobradas na prova da OAB e se esqueciam de perguntar aos professores, afinal, o que me reserva o mercado jurídico. Que problemas enfrentarei, o que habilidades preciso desenvolver para não ser engolido pela realidade, por onde devo começar para planejar a minha carreira profissional? Parabéns por tão esclarecedor artigo. Compartilharei com prazer em todas as minhas redes de contatos!
Realmente a faculdade não prepara o estudante para a vida profissional, mesmo exigindo horas de estágio em escritório modelo, por exemplo.
Na profissão de advogado é que se vê que realmente nós não saímos preparados da faculdade, já que quando profissionais precisaremos ter conhecimento em administração de empresa, atendimento ao cliente, "vendas", entre outras, além do conhecimento básico de direito.
De uma lucidez impressionante. Conheço uma jovem que, recém saída da faculdade de direito, prestou concurso para Delegada de Polícia de Minas Gerais. Tomou posse, foi trabalhar em uma cidade média do interior, ficou no cargo por 2 (dois) meses e pediu exoneração. Indaguei-a qual o motivo de tal decisão, já que enfrentou um concurso concorrido, em cuja carreira tantos gostariam de ingressa? Ela me respondeu, afirmando que "foi a maior decepção da minha vida até aqui. Jamais imaginei que a Polícia Civil fosse o que realmente é. Para começar, as condições de trabalho são péssimas; existe muita corrupção; nada funciona a contendo..." Ao encerrar, afirmou que iria prestar concurso para o Ministério Público. Então eu a disse: - Se prepare, também para algumas decepções que certamente terá que enfrentar do MP, já que a vida real, está muito distante da letra da lei e dos bancos da faculdade.
Felipe, também sou leitor assíduo dos trabalhos do prof. Vladimir e por isso mesmo acompanho o seu comentário: " mas esse foi o mais incrível que já vi. Uma lucidez impressionante!".
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Parabenizo o autor pelo belíssimo texto.
Outro detalhe que as faculdades não preparam é para leitura de artigos e obras jurídicas. O estudante se encanta com a popularidade e "saber" jurídico do autor e acredita em tudo que ele escreve, sem levar em conta que por vezes aquele autor está defendendo o corporativismo da instituição ao qual pertence...
Verdade infelizmente cada vez mais real! Muita teoria e conceitos moderníssimos (extremamente necessários), mas sem nenhuma conexão com a vida real que lhe baterá na cara assim que botar a carteirinha no bolso. Como dizia um velho professor a garantia se acaba na formatura.... As Faculdades de Direito estão cada vez mais herméticas em relação a sociedade, esquecendo que o Direito nasce nessa sociedade invariavelmente vai retornar a ela. Ficamos muito acadêmicos e mais que nunca uma república de bacharéis ensimesmados e observando o próprio umbigo. Esquecemos que somos uma Ciência (alguns questionam) Social Aplicada. estamos pensando o Direito dentro do laboratório, em CNTP. O pensamento e hábitos da sociedade não se modernizam na velocidade do pensamento acadêmico.
Taí mais um artigo que corrobora minha tese sobre o que é o Direito: a ARTE DA EMPULHAÇÃO....sem contar as vezes que o causídico neófito terá que molhar a mão do serventuário da justiça para fazer "andar" o processo....
Taí mais um artigo que corrobora minha tese sobre o que é o Direito: a ARTE DA EMPULHAÇÃO....sem contar as vezes que o causídico neófito terá que molhar a mão do serventuário da justiça para fazer "andar" o processo....
Taí mais um artigo que corrobora minha tese sobre o que é o Direito: a ARTE DA EMPULHAÇÃO....sem contar as vezes que o causídico neófito terá que molhar a mão do serventuário da justiça para fazer "andar" o processo....
Taí mais um artigo que corrobora minha tese sobre o que é o Direito: a ARTE DA EMPULHAÇÃO....sem contar as vezes que o causídico neófito terá que molhar a mão do serventuário da justiça para fazer "andar" o processo....
Parabéns mais uma vez ao ilustre Prof. Vladimir ao redigir esse irretocável texto. Reflexivo, mas acima de tudo didático onde os estudantes de Direito poderão rever seus conceitos e mais tarde aplicá-los na vida profissional. Espaço que o CONJUR nos brinda semanalmente.
Já havia lido comentário seu antes, e discordei.
Depois, li sua resposta de revolta com a decisão do Mensalão e o caso Pinheirinho... Demonstração de que para uns só existem direitos, ainda que à custa de violação do direito alheio...
Realmente, há quem exija dinheiro para tirar o processo de uma prateleira e colocar em outra. É só recusar! Dá mais trabalho, porque tem de fazer representação, tem de ir despachar.... Trabalhoso...
Fácil e buscar seu "teto" invadindo propriedade alheia pagando R$ 400,00 em tênis de grife (dizendo que não tem condição para aluguel), montado em motoquinha financiada e sempre na "balada", vivendo de mensalidade de miserável e furar a fila da lista da Cohab sem ficar vermelho, buscando "argumento jurídico" para sustentar a empulhação casuística...
O texto reflete as situações fáticas diárias, sendo que o operador do direito deve estar preparado para lidar com diversas situações, bem como estar inserido na sociedade de modo a enxergar sob diversos prismas as situações que lhe forem apresentadas.
Excelente artigo! Relembrei toda minha trajetória no "mundo" do direito, a faculdade, os primeiros passos como advogado, posteriormente exercendo o cargos de oficial de justiça, de delegado de polícia até o atual de defensor. De fato os estudantes, desde a faculdade, devem tomar ciência do mundo que os espera para não desanimar ao enfrentar a dura realidade. É necessário que se desperte a resiliência* e a alteridade** desde os primeiros passos no mundo jurídico, para que, ao enfrentar a realidade possam suportar e, de preferência, transformar essa realidade de acordo com o mister desenvolvido, e assim ajudar a construir uma sociedade mais justa.
*Capacidade que um indivíduo ou uma população apresenta, após momento de adversidade, conseguindo se adaptar ou evoluir positivamente frente à situação.
** É a capacidade de se colocar no lugar do outro na relação interpessoal (relação com grupos, família, trabalho, lazer é a relação que temos com os outros), com consideração, identificação e dialogar com o outro.
Sem entrar no mérito, sugiro aos colegas a leitura do seguinte artigo:http://www.conjur.com.br/2014-nov -03/volume-informacoes-nao-humano-operad ores-direito-ainda-sao
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