O crime organizado vem crescendo e se tornando cada vez mais atuante ao redor do mundo. No México, em junho de 2020, o presidente da República, Lopes Obrador, "reconheceu que foi sua a ordem de libertação de Ovidio Guzmán, filho do famoso traficante El Chapo, após o suspeito de narcotráfico ter sido detido em outubro numa operação do exército em Culiacán, capital do estado de Sinaloa, no oeste do México" [1]. Foi a capitulação de um estado impotente.
Na Colômbia, Pablo Escobar apreciava a popularidade, chegando, inclusive, a ser deputado federal. Entre outras peripécias, ele criou um zoológico e importou da África animais exóticos, cujo ingresso no país, nos anos 1980, ninguém explica, mas é fácil de imaginar. Em 1993, Escobar morreu e os animais foram abandonados à sua própria sorte. Entre eles, alguns hipopótamos que se reproduziram e agora constituem um problema para a biodiversidade (não têm predadores) e um risco para a vida dos habitantes do local. O caso foi parar na Justiça norte-americana [2].
No Brasil, vários são os grupos organizados, uns mais potentes, com ramificações internacionais, outros mais locais. Não raramente há disputas de território, soluções são negociadas ou terminam em execuções que, geralmente, não chegam à identificação dos autores.
Ao contrário de colegas de outros países, que parecem gostar de serem vistos e reconhecidos, os líderes brasileiros são mais discretos, contentam-se em ver seus núcleos crescerem, alimentados por vultuosos lucros, originários, principalmente, do tráfico de entorpecentes.
E da mesma forma que as empresas diversificam as suas atividades, por vislumbrarem que o investimento em um só setor sempre constitui um risco, as organizações criminosas também incursionam por áreas diferentes. Uma que seja fiscalizada com maior rigor pode dar lugar a outra menos visível para os órgãos de segurança. E, obviamente, na decisão são feitos os cálculos das despesas e dos lucros.
E assim nasceu uma nova forma de ação, que alguém chamou de "novo cangaço". Segundo os pesquisadores, "o novo cangaço é uma modalidade de crime que existe desde 1990 e tem sua origem no Nordeste, onde grupos altamente armados atacavam pequenas cidades do sertão nordestino para realizar crimes cinematográficos, cercados de muita violência" [3].
Atualmente ele constitui a tomada de municípios do interior por um grupo composto por dezenas de pessoas, fortemente armado, extremamente organizado, e que toma uma cidade de assalto saqueando estabelecimentos bancários.
Ele é mais forte no Sudeste, principalmente no estado de São Paulo, onde várias cidades foram sitiadas (Botucatu, Mococa, Araçatuba e outras), mas tem precedentes no Sul (Criciúma, em Santa Catarina) e no Norte, tendo merecido estudo acadêmico na Universidade Federal do Pará [4].
No último dia 31, em Varginha, Minas Gerais, a situação foi diferente. A Polícia Militar, a Polícia Rodoviária Federal e o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), certamente alertados por denúncia anônima, prepararam-se para o enfrentamento.
O site Globo.com – Sul de Minas, informa que "segundo a Polícia Rodoviária Federal, os confrontos com os homens ocorreram em dois sítios diferentes localizados em duas saídas da cidade. Na primeira, os suspeitos atacaram as equipes da PRF e da PM, sendo que 18 criminosos morreram no local. Em uma segunda chácara, conforme a PRF, foi encontrada outra parte da quadrilha e neste local, após intensa troca de tiros, sete suspeitos morreram" [5]. Com a morte de um caseiro, o resultado de ambas resultou em 26 mortes.
Mas uma coisa chama a atenção: a reação da sociedade foi bem diferente de fatos semelhantes no passado. Com efeito, colocada no Google, a frase "PM de Minas mata 25 suspeitos de assaltos no novo cangaço" revela a existência de "aproximadamente 38,6 mil resultados (0,47 segundos)" [6].
Já a manifestação do esportista Maurício Souza em rede social, com crítica à foto em que o Superman estava beijando outro homem, colocada no Google com a frase "comentário homofóbico de Maurício Souza em rede social repercute" teve "aproximadamente 31.000 resultados (0,50 segundos)" [7]. Além disso, gerou o desligamento do jogador de voleibol do seu clube, críticas, protestos e adesão de milhares de pessoas à sua conta no Instagram.
Comparados os dois fatos, fácil é ver que, proporcionalmente aos resultados, a crítica teve reação muito maior ao afirmado pelo esportista do que as 26 mortes. Possivelmente porque a sociedade está cansada do alto grau de impunidade, milhões de pessoas já foram vítimas de crimes e vê a fraqueza do Estado aumentar.
Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, a Comissão de Direitos Humanos pediu uma apuração dos fatos e a presidente da casa informou que oficiaria à polícia e ao Ministério Público, ou seja, uma decisão protocolar. O procurador-geral da Justiça, Jarbas Soares Junior, com a experiência de décadas na carreira, em entrevista a uma rádio local, adotou posição firme ao afirmar que "Minas não será o estado do crime" [8].
Para Robson Souza, o sucedido "está sendo apresentado como um confronto de duas partes, mas, em um confronto entre partes altamente armadas, espera-se no mínimo algum tipo de vitimização de ambos os lados", afirmou ele. "Nesse caso, somente o lado dos infratores teve baixas e baixas fatais, e do outro lado [da polícia] não houve nenhuma baixa" [9].
Muito embora seja precipitado analisar o mérito da questão, pois depende de colheita de provas, inclusive pericial, o fato é que a opção fica entre: a) a polícia deve esperar ser atacada para reagir; b) a polícia deve atacar se constatada a gravidade da situação e a iminência de um ataque.
Com todo o respeito que merece o professor doutor Robson Sávio Reis Souza, não é razoável esperar que sobrevenham mortes de policiais para daí admitir-se a reação policial e depois contabilizar as perdas dos dois lados e, só então, concluir se houve ou não excesso na legítima defesa.
Não se pode exigir que a polícia aguardasse disparos de dezenas de pessoas que portavam verdadeiro arsenal, que incluíam "coletes a prova de balas, explosivos, fuzis e metralhadoras ponto 50", além de veículos roubados e pregos preparados para furar os pneus de viaturas policiais, conhecidos por "miguelitos" [10].
Em conclusão, não se pode reagir a uma ação de dezenas de pessoas, portadoras de todos os recursos do armamento moderno e orientadas, certamente, por profissionais do crime altamente capacitados, com os métodos clássicos e as conclusões doutrinárias de penalistas com os olhos postos nos anos dourados.
[1] Diário de Notícias. Presidente do México admite que deu ordem para libertar filho de El Chapo. Disponível em https://www.dn.pt/mundo/presidente-do-mexico-admite-que-deu-ordem-para-libertar-filho-de-el-chapo-12332921.html. Acesso em 4 nov. 2021.
[2] Poder 360. Disponível em https://www.poder360.com.br/internacional/tribunal-americano-declara-hipopotamos-de-pablo-escobar-como-pessoas/. Acesso em 4 nov.2021.
[3] O Dia. Disponível em https://www.opovo.com.br/noticias/brasil/2021/11/03/novo-cangaco-conheca-a-modalidade-de-crime-que-se-espalhou-pelo-brasil.html. Acesso em 4 nov. 2021.
[4] Costa, Carlos André Viana da. Novo Cangaço no Pará: a regionalização dos assaltos e seus fatores de incidência. Disponível em https://cdn-conjur.s3.amazonaws.com/uploads/2021/11/20140520-20COSTA.pdf. Acesso em 4 nov. 2021.
[5] Disponível em https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2021/11/01/pm-diz-que-tecnica-tatica-policial-e-treinamento-explicam-acao-que-terminou-com-26-mortos-e-nenhum-policial-ferido-em-mg.ghtml. Acesso em 4 nov. 2021.
[6] Google. PM de MInas mata 25 suspeitos de assaltos no novo cangaço, em 4 out. 2021. Disponível em https://www.google.com/search?q=PM+de+MInas+mata+25+suspeitos+de+assaltos+no+novo+canga%C3%A7o&rlz=1C1SQJL_pt-BRBR863GB863&sxsrf=AOaemvLWh2hXIXt15HQ4EQceiFMDZJjI-A%3A1636019939183&ei=466DYf7RCoLF5OUP-v6KqAE&oq=PM+de+MInas+mata+25+suspeitos+de+assaltos+no+novo+canga%C3%A7o&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAM6BwgAEEcQsANKBAhBGABQ1GdYs5sBYPieAWgBcAJ4AIABrgGIAeUPkgEEMC4xNpgBAKABAcgBCMABAQ&sclient=gws-wiz&ved=0ahUKEwi-z8eauf7zAhWCIrkGHXq_AhUQ4dUDCA4&uact=5. Acesso em 4 nov. 2021.
[7] Google. Comentário homofóbico de Maurício Souza em rede social repercute. Disponível em https://www.google.com/search?q=Coment%C3%A1rio+homof%C3%B3bico+de+Maur%C3%ADcio+Souza+em+rede+social+repercute&rlz=1C1SQJL_pt-BRBR863GB863&oq=Coment%C3%A1rio+homof%C3%B3bico+de+Maur%C3%ADcio+Souza+em+rede+social+repercute&aqs=chrome..69i57j69i59.1663j0j15&sourceid=chrome&ie=UTF-8. Acesso em 4 nov. 2021.
[8] O Tempo. Disponível em https://www.otempo.com.br/cidades/minas-nao-sera-o-estado-do-crime-diz-procurador-geral-apos-acao-em-varginha-1.2563838. Acesso em 4 nov. 2021.
[9] O Tempo, reportagem citada (item VIII).
[10] O Tempo. Reportagem com fotos e vídeo. Disponível em https://www.otempo.com.br/cidades/varginha-veja-fotos-e-videos-da-operacao-da-pm-e-prf-que-deixou-26-mortos-em-mg-1.2563395. Acesso em 4 nov. 2021.


É realmente uma lástima esse pensamento esquerdista extremo, " se não morreu policial, então não houve confronto" é o poste mijando no cachorro.
A Polícia não pode ficar esperando um de seus homens ser baleado para depois agir. A pouca repercussão das mortes demonstrada no artigo mostra o apoio popular à ação da PM de Minas e da Polícia Rodoviária.
Grupos de pessoas altamente armadas andando ostensivamente pelas ruas das cidades não pode ser considerado como um grupo que tem o "direito" de reunião, uma vez que o próprio art. 5o., XVI, da C.F. diz expressamente que todos podem reunir-se pacificamente e sem armas. A missão constitucional dos órgãos de segurança deve atuar, especialmente, na prevenção. Nenhum grupo armado com armas modernas, altamente letais, com coletes à prova de balas e organização paramilitar está dentro da lei. Esse aparato é privativo dos órgãos de segurança. Se vão ou não usar o arsenal e causar danos, isso fica a ser decidido pelos integrantes numa fração de segundo, por motivos que só eles conhecem.
A sociedade não pode ficar refém disso.
Leis fracas e absoletas, com certeza favorecem a criminalidade. Um exemplo clássico eh o nosso Código Penal, um idoso com 70 anos, todo remendado. Um Congresso Nacional super caro e ineficaz, provocando insegurança juridica. Pobre Brasil.
O grave problema é o caráter brasileiro, tolerante com o erro alheio, com o jeitinho, com o salamaleque, com o tapa nas costas, com o abraço efusivo, com a gargalhada forçada, diante de uma piada de "mau gosto". sul/noticia/2021/11/04/mp-denuncia-dupla -por-morte-de-ambulante-que-reclamou-do- preco-da-carne-em-acougue-do-rs.ghtml).< br/>
Alguns dizem que a nossa Democracia "é muito jovem" e que o brasileiro está em progresso.
Não é nada disso.
Com o objetivo de eliminar o "entulho normativo autoritário", os sucessivos governos autodeclarados democráticos, principalmente aquele do FHC (um verdadeiro fracasso econômico) e do Senhor Lula (um gigantesco passo na Economia, mas produtor de legislação tolerante com a bandidagem), procuraram impedir o ingresso na cadeia dos pervertidos, insolentes, criticáveis e incompetentes rebeldes primitivos.
O que aconteceu?
O "rebelde primitivo" pratica crime e não vai para cadeia.
Para exemplificar: lá no Sul o comerciante ambulante criticou o preço da carne sofreu violência de empregados do próprio açougue.
Vejam: "Segundo testemunhas, as agressões teriam iniciado após a vítima reclamar do preço da carne no estabelecimento. O homem vendia salgados na rua e, após encerrar o trabalho, foi até o açougue. No local, teria feito comentários sobre o preço e ido embora sem comprar nada ("https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-
Os agressores não estão na masmorra. Estão nas respectivas residências.
E o cidadão (se que é se pode chamá-lo assim) que estuprou a sobrinha, cumpriu parte da pena, voltou para casa, e quando a filha o confrontou, falando que, também era estuprada, ele a matou?
Bom, no que vai dar isso tudo?
Em uma Ditadura, seja de direita ou de esquerda, porque, como disse Sérgio Buarque de Holanda, a Democracia (continua)
em terras brasileiras, é um acidente.
Durante a pandemia li e reli "Raízes do Brasil" do mestre brasileiro, e comparei as análises dele com o comportamento do povo durante o Isolamento Social.
As forças de segurança mineiras foram, extremamente eficientes.
O mineiro é, por si mesmo, conservador. Ele não é como o paulista, carioca e gaúchos, que, em "sonhos idílicos" vê o marginal como produto integral da sociedade, que deformou o seu caráter, "o bom selvagem urbano", ou como os marxistas, que veem tudo como "luta de classes", como o historiador Eric Hobsbawn, que até tece elogios aos bandidos (obra "Bandidos - rebeldes primitivos), como fomentadores de redistribuição "forçada de renda", como se todos esses perdedores fossem "verdadeiros "Robin Woods".
O Articulista, Magistrado aposentado e Advogado militante, inicialmente, poderia ter abordado a questão da presença da PRF no evento e a sua competência legal e operacional. PRF's não devem ter sido treinados para esse tipo de operação. Enquanto isso, continuam aumentando os acidentes nas Rodovias Federais por imprudência, negçigência e imperícia dos condutores.
Há várias coisas que acontecem que merecem destaque. A ação da policia nesse caso foi exemplar neutralizando os meliantes sem nenhuma baixa da força policial. O adestramento das forças envolvidas está muito bom. Continuemos assim. Bom trabalho
O texto é difícil de comentar. A opinião do autor - de histórico muito respeitável, aliás - conduz seu desenvolvimento a partir de elementos dispersos e fragmentários. A mim parece que o recomendável seria aguardar o surgimento de novas informações - a fonte da notícia referida no texto sequer informa se houve algum sobrevivente dos grupos atacados.
Não entendi direito a comparação com o caso Maurício Souza, mas me parece claríssima a diferença entre uma situação que opõe distintos grupos sociais e outra cuja conclusão só pode decorrer de uma completa reconstituição de fatos.
Encontrei em outra reportagem ligada à fonte citada no artigo a informação de que nenhum dos ocupantes do sítio teria sido recuperado vivo.
Isso, definitivamente, deve impor mais rigor na investigação a ser feita.
Advogados que passam 05 anos em um banco de faculdade fazem o que fazem, vide as perdas de prazos nos processos, esquecem de audiências, além de outras mazelas que não merecem serem faladas aki. Então, parabéns aos PRFs e PMs.
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