Embargos Culturais

Doutores, de Graciliano Ramos

Na crônica Doutores, Graciliano Ramos (1892-1953) enfrentou um dos problemas mais persistentes da vida pública brasileira: a idolatria do título e o culto ao doutor como arquétipo de autoridade natural, independentemente do conteúdo real do saber ou da legitimidade do poder. O leitor encontrará o texto no Portal da Crônica Brasileira, o mais completo repositório on line sobre esse delicioso gênero literário [1]. Escrita em linguagem seca e sem qualquer concessão retórica, a crônica Doutores é menos um retrato de costumes e mais um diagnóstico cultural [2]. É nesse sentido que sugiro a leitura. É o tema dos Embargos Culturais dessa semana.

O ponto de partida do texto é simples e engenhoso. Graciliano opõe dois tipos de doutor: o do litoral e o do interior. O primeiro surge como produto da cidade grande, do diploma, da linguagem difícil, do prestígio acadêmico e do verniz civilizatório. O segundo não precisa de certificados nem de citações: exerce autoridade pela proximidade com o mando local, pela intimidação silenciosa, pela força do costume. O que muda é a aparência; a estrutura de poder permanece intacta.

A crônica não narra um episódio específico, nem mesmo constrói uma fábula tradicional. É antes uma tipologia social. Graciliano enumera, descreve, contrapõe. O leitor reconhece imediatamente as figuras que o escritor alagoano elenca. Esse reconhecimento é de algum modo desconfortável. Revela que o título de doutor opera como atalho simbólico de dominação, dispensando a verificação do mérito, da competência ou da justiça das decisões.

Ao problematizar o doutor do litoral, Graciliano atinge o coração do bacharelismo brasileiro. Desde o século 19, o diploma — sobretudo o jurídico — tornou-se no Brasil instrumento de distinção social, passaporte para o poder político e administrativo, marca de superioridade simbólica. O bacharel não precisava demonstrar saber; bastava ostentar o título. A linguagem hermética, longe de ser defeito, era virtude: quanto menos compreendido, mais o doutor era respeitado. Falar difícil era marca de inteligência e poder.

O doutor do interior, por sua vez, revela o outro lado da moeda. A autoridade dispensa o palavrório técnico, porém se ancora na mesma lógica hierárquica. Não é o saber que legitima o poder, é a posição ocupada. O título continua a funcionar como selo de mando, ainda que adaptado às circunstâncias locais. É o tempo dos coronéis, contexto que lemos em autores como Wilson Lins, Jorge Amado e Rachel de Queiroz. O coronel foi estudado por Victor Nunes Leal em Coronelismos, Enxada e Voto. Na crônica, Graciliano sugere, com ironia contida, que o Brasil apenas muda o figurino da dominação — nunca sua essência.

Experiência real

Um dos aspectos mais sofisticados de Doutores é a crítica à linguagem como instrumento de poder. O doutor do litoral fala difícil; o do interior fala pouco. Ambos produzem submissão. Em um caso, pela intimidação intelectual; no outro, pela intimidação social. A linguagem jurídica — complexa, autorreferente, excludente — aparece implicitamente como parte desse mecanismo. Não esclarece: distancia; não comunica: hierarquiza.

Spacca

Caricatura: Prof. Arnaldo Godoy

A crítica ganha peso adicional quando lembramos que Graciliano não escreve como observador externo. Foi prefeito (de Palmeira dos Índios, Alagoas, eleito em 1927, renunciou dois anos depois) e diretor de instrução pública. Conhecia a burocracia por dentro, percebia o valor e o abuso do título, compreendia o prestígio automático conferido ao bacharel. Doutores não nasce do ressentimento. Surge da experiência real vivida pelo autor.

A forma do texto reforça o conteúdo. Graciliano usa frases curtas, duras, econômicas. Não adota o estilo do doutor que critica. Sua linguagem é antirretórica, quase ascética. O estilo funciona como ética: escrever bem é escrever com nitidez; escrever com nitidez é recusar o privilégio da incompreensão. Em Doutores, a crítica ao bacharelismo está no que se diz, e principalmente em como se diz. E essa compreensão (minha) não é um jogo de palavras.

Ao contextualizar a crônica no panorama cultural brasileiro, percebe-se que Graciliano dialoga com uma tradição crítica ampla — de Sérgio Buarque, Gilberto Freyre, Alberto Venâncio Filho a Raymundo Faoro — que identifica no bacharelismo um dos entraves à modernização democrática do país. O título substitui o conteúdo; a forma suplanta a substância; a autoridade se legitima pela distância, não pela responsabilidade.

Doutores mantém inquietante atualidade. Aqui em Brasília basta usar uma camisa de manga cumprida e o guardador de carros vai longo perguntando: posso cuidar doutor?  Ainda confundimos complexidade verbal com profundidade intelectual. Ainda aceitamos que o prestígio do cargo ou do diploma dispense a obrigação de clareza e prestação de contas. Graciliano enfatiza, com economia e rigor, um problema que ainda não resolvemos.

Para o leitor da ConJur, Doutores funciona como provocação necessária. Convida à autocrítica institucional: quantas vezes o Direito reproduz o bacharelismo que deveria combater? Quantas vezes o título serve mais para afastar do que para servir? Quantas vezes a linguagem jurídica protege o poder em vez de proteger o cidadão?

Doutores não propõe reformas e não oferece saídas fáceis. Avança com uma tarefa mais difícil: expõe a engrenagem cultural que sustenta a autoridade sem saber e o saber sem responsabilidade. Graciliano, com a autoridade de quem conheceu o Estado por dentro e recusou seus vícios retóricos, ainda que primeiramente no contexto de uma prefeitura do interior, deixou-nos, em Doutores, uma lição em forma de provocação.

 


[1] Consultar o imperdível https://cronicabrasileira.org.br/.

[2] https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/21563/doutores.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

é livre-docente pela USP, doutor e mestre pela PUC- SP e advogado, consultor e parecerista em Brasília, ex-consultor-geral da União e ex-procurador-geral adjunto da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

Rejane disse:
25 de janeiro de 2026 às 10:25

Li a crônica. A primeira impressão é de que retrata um período histórico que deixou de existir no Brasil já no século XX, em que os livros, jornais, revistas, enfim, as notícias demoravam muito para chegar em determinadas cidades do interior. Neste século, com mais a internet, praticamente não existem barreiras culturais para quem quer informar-se, é óbvio. Com relação a uma reverência injustificada aos *doutores*, isso também diminuiu muito porque, hoje em dia, existem muitos *doutores*. Do ponto de vista da autenticidade, um verdadeiro doutor deveria ser reverenciado por outros profissionais da área como alguém que pesquisou determinado assunto com profundidade e obteve o título acadêmico. O que é também uma presunção relativa porque, na área jurídica, advogados militantes pesquisam profundamente para seus casos e podem ser mais profundos do que o *doutor* com título sem falar nas reflexões porque, muitas vezes, o *doutor* não raciocina muito bem, é só um repetidor de citações de outros autores. O principal para mim é o que a Academia teria a alterar ao ler uma crítica aos doutores. A primeira mudança que enxergo seria firmar posição firme contra a Inteligência Artificial nas teses de doutorado e dissertações de mestrado, pois a produção intelectual acadêmica deve ser obra exclusivamente humana. De resto, fiscalizar os *mestres* e *doutores* quanto

Rejane disse:
25 de janeiro de 2026 às 10:30

quanto

Rejane disse:
25 de janeiro de 2026 às 10:33
Rejane disse:
25 de janeiro de 2026 às 10:41

Dear Arnaldo Godoy. I notice my comments are not censored when I write them in English. So I try to put my ideas in English as I can. Basically I think the Academia should create rules for ethical behaviour mainly about independece and impartiality from political ideology and in case of violation to cancel academic title.

Rejane disse:
25 de janeiro de 2026 às 10:41

independence

Guilherme - Tributário disse:
25 de janeiro de 2026 às 11:48

Lúcido o comentário de Rejane Guimarães Amarante. Há muitos doutores verdadeiros e muitos doutores só titulados...

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