Passei angustiado o fim do ano de 2025. Como recorrente nessa quadra da vida, deixei minha casa e parti para um apartamento. Que alívio. No entanto, nessas horas, há um drama pesado para quem gostamos de livros: o que fazer quando se constata (na verdade sempre se soube) que um apartamento (por maior que seja) não comporta o mesmo volume de livros que casas comportam. Aconteceu comigo. São (eram) 8.000 volumes que precisavam ser reduzidos para 2.000. Consegui. É como cortar a própria carne.
Foi no meio dessa indecisão que livros aparecem, porque sempre lemos os livros certos nas horas certas. Tinha comigo Geografia do Tempo, do diplomata e escritor Ary Quintella. Havia comprado o livro em São Paulo, Livraria Travessa do Villa-Lobos. Conferi a data da aquisição: 15 de março de 2025. No meio do caos, parei tudo. Veio a luz. O livro de Quintella foi como uma epifania. A experiência do desmonte de uma biblioteca estava ali.
Contemplei a situação que vivia com a descrição que autor fez do desmonte da biblioteca de sua mãe, que também foi diplomata. Quintella é filho de Thereza Maria Machado Quintella, primeira diplomata que ocupou o posto de embaixadora, e que inclusive dirigiu o Instituto Rio Branco. O pai de Quintella também foi diplomata. A leitura me acalmou; o autor descreve como encarou o desmonte e a mudança da biblioteca da mãe, que também passava de uma casa para um apartamento.
A descrição está no capítulo “O príncipe valente”. Quintella (com a irmã) separou livros, chamou quatro livreiros cariocas, vendeu muita coisa, deve der doado outras, talvez tenha sentido muita dor; cada livro carrega sua reminiscência. Quintella é um otimista; é conferir as palavras que me confortaram:
“O resultado foi surpreendente. Livros que eu não me lembrava reapareceram. Livros que eu nunca notara seduziram-me. Várias vezes, interrompendo a arrumação, sentei-me para olhar uma obra então desaparecida ou esquecida. Terminando o trabalho, olhei feliz para as estantes (…) recolocá-los em um novo ambiente, em ordem diferente nas estantes, iluminados de forma natural, os volumes remanescentes parecem ter adquirido nova consistência. Eram os mesmos livros, mas era outra biblioteca. Era uma nova entidade. Era uma nova verdade. Era a promessa de uma nova vida”.
Um consolo, em forma de vibrante otimismo. Mas vamos ao livro. Geografia do Tempo é um conjunto de 32 ensaios que tratam de temas culturais, com estações na literatura, nas artes plásticas, no teatro, na ópera. Tudo flui de um modo superlativamente embasado. Um conjunto de informações preciosas. O autor é criterioso. Explica. Liga todos os temas. Consegue de modo oculto e ao mesmo tempo explícito refletir sobre leituras extensas, que ilustra com uma vastíssima referência a experiências de viagens. Filho de diplomatas, o autor experimentou na infância e na juventude os prazeres, os perigos e o encantamento das viagens.
Um índice onomástico do livro certamente revelaria a trajetória de um erudito. O autor liga temas, problemas e dilemas em sinapses irretocáveis. Trata com profundidade seus autores prediletos: Proust, Stendhal e Borges. O leitor viaja para Paris (nos passos de Tolstoi), Antuérpia (vai até a casa de Rubens), Seul (e lamenta com o autor o esquecimento do livro de Chateaubriand no avião, Déli (vai até o local no qual o Mahatma foi assassinado), sente o vulcão em Quito, passeia pela história do Louvre, procura Mozart em Veneza, associa laranjeiras a Sevilha, Florença e Versalhes.

Merece mais de uma leitura o imperdível o capítulo O leitor irresponsável. Quintella enfrenta um problema que acompanha leitores, o tempo todo: o que fazer quando não gostamos de um livro? E responde: nada. Deixe de lado. Vá ler algo mais interessante. O autor cita Proust, para quem o livro é uma amizade sincera. Difícil sermos amigos de quem não gostamos. Falta sinceridade.
Quintella explora o significado da leitura com ênfase em Ítalo Calvino, Geoff Dyer e George Steiner. Foi na leitura de Quintella que tomei conhecimento de um livro de Alan Bennet, um romance cômico de 2007, que nos mostra (em forma de ficção, bem entendido) as transformações vividas pela Rainha Elisabeth 2ª, quando começara a ler compulsivamente…
O capitulo Os Três Mosqueteiros é geracional. O autor faz referência a um filme carregado de estrelas, de 1973: Michael York (D’Artagnan), Oliver Reed (Athos), Richard Chamberlain (Aramis), Frank Finlay (Porthos), Geraldine Chaplin (Ana d’Áustria), Cristopher Lee (Rochefort), Faye Dunway (Milady), Charlton Heston (Richelieu), Jean Pierre Cassel (Luís 13), Raquel Welch (Constance), Georges Wilsons (Treville). Assisti no cinema, ainda no tempo em que havia lanterninhas, íamos bem arrumados — a mãe não deixava sair de casa de outro jeito — e não comíamos pipoca; havia bombonieres, que não vendiam pipocas). Quintella inicia o capítulo com a abertura de Missa do Galo, de Machado de Assis.
Quintella descreve-nos livrarias e sebos de Lisboa (no capítulo Um dia em Lisboa). No capítulo A alma dos belos corpos, passeia pelas livrarias que nos encantam; são tantas, cito apenas a Foyles, na Charing Cross, em Londres. O tédio que o autor sentiu na Shakespeare & Company (Paris) é talvez o mesmo tédio e decepção que senti na Lello, na cidade do Porto.
Fico por aqui. Geografia do Tempo é o livro ideal para quem gostamos de livros. Quando li o último capítulo lembrei-me do autor em cujos livros estudei matemática no ginásio, como antes chamávamos a segunda parte do ensino fundamental. O mestre era Ary Quintella, que descobri ser avô do também genial autor de Geografia do Tempo.
Seja o primeiro a comentar.
Você precisa estar logado para enviar um comentário.
Fazer login