Abstract: voltando ao tema. A ascensão da insignificância e surgimento do homo pateticus. O crescimento provocativo do “pos-sapiens” — o homo pateticus
‘Ontologia da estupidez’: a falta de vergonha como princípio epocal
Esta coluna não é censura contra quem quer ser patético. Cada um escolhe como quer ser visto e compreendido por seus semelhantes.
Esta coluna pretende descrever um fenômeno que, a olhos vistos, é realmente patético.
Heidegger, secundado por Ernildo Stein, fala dos princípios epocais. Cada época tem seu princípio fundante: o eidos platônico, a ousia aristotélica, o ens creatum de Aquino; o cogito de Descartes, o eu penso kantiano, o eu absoluto hegeliano, a vontade do poder nietzscheano (último princípio epocal da modernidade) e a era da técnica.
Pois vivemos na era da técnica. Do dispositivo. Da algocracia. Das redes sociais. Da instantaneidade. Da época em que os idiotas perderam sua timidez. A “perda da vergonha” — este pode ser o novo princípio epocal. Uma espécie de pateticismo fundamental. O pateticus é um fundamento sem fundo. No que se fundamento o “ser pateticus”? Em outro patético. E esse? Ora, fundamenta-se em outro patético e assim iríamos ao infinito na busca do “pateticus-zero”, o fundador do pateticismo. Mas, mesmo assim, alguém iria indagar: e em que se baseou o “pateticus-fundante-fundamental”? A resposta: há uma ficção necessariamente útil que resolve o problema. É o “como se”. É como se existisse um patético que determina o fundamento de todos os patéticos. Como a Grundnorm de Kelsen (aqui falo da Teoria Geral das Normas).
Escrevi o texto intitulado Será que o Homo Ridiculus veio para ficar? Dizem que sim… (aqui — lamentavelmente possui mais do que 15 linhas, limite máximo de leitura neste Zeitgeist). Depois, postei o link em alguns perfis do Instagram em que pessoas dançavam e perguntavam “será que sou um advogado, será que sou dentista, será que sou médico, será que sou defensor, será que sou delegado, será que sou mais ridículo que os demais… e tem até um perfil em que uma mulher dança perguntando “será que sou solteira” ou algo assim (nesse perfil coloquei apenas uma expressão: patético; houve uma enxurrada de adeptos da nova seita para me criticarem com veemência. Na verdade, retifico o que falei. Quis dizer, mesmo, foi “patética”. Saiu patético.

A performance de toda essa gente dos trends é patética. Como a de uma presidente de OAB seccional ou estadual que pergunta: será que sou presidente da OAB? Hum, hum. O mais recente mico foi pago por um lutador de jiu-jitsu, que pergunta “será que todo lutador de jiu-jitsu é gay? Será? E encerra o trend de forma apoteótica, atirando-se sobre os alunos ou colegas (não deu para saber). E recebe(u) muitos likes. E apoios.
E antes de fechar a coluna descobri talvez o avatar do pateticus fundante: o de um psiquiatra que dança perguntando “será que sou psiquiatra? O pau que rola pelas redes…”.
E pensar que a humanidade já nos deu Einstein…
Se alguém quer saber o que é patético, aqui vai (está no Google):
Patético é um adjetivo que descreve algo ou alguém que provoca pena, dó, tristeza profunda ou comovente. Também pode significar algo ridículo, desprezível ou que causa desdém, muitas vezes devido a um comportamento exagerado ou incapaz. É algo que move os afetos ou que traduz emoção intensa.
Pronto. O patético tem várias acepções. Escolham. Aliás, vou substituir o nome do novo sujeito histórico: agora é Homo Pateticus. Do Homo Sapiens ao Homo Pateticus — esse que faz dancinha (trends) no Instagram. Ficou mais simples, não?
Mas, nem tudo está perdido: no mesmo Instagram Juliana Miranda (ver vídeo abaixo— é bem curtinho) escracha com sofisticação essa onda de trens patéticos. Cumprimentos à Juliana.
Fim da primeira parte.
O que houve com o homo sapiens?
A indagação fundamental que assombra a contemporaneidade não reside mais nos grandes dilemas da filosofia, mas sim em uma constatação muito mais simples, porém tenebrosa: o projeto da humanidade deu errado? O que houve com o “sapiens”? Olhando as redes sociais, especialmente o Instagram e TikTok, a resposta é afirmativa.
Vive-se uma “ontologia da frivolidade”: a proliferação viral de vídeos em que indivíduos dublam e performam a vazia indagação “será que eu sou…?”. Uma observação: o “será que…” é apenas a ponta do iceberg. A pontinha. Há outras coisas parecidas que só as redes sociais podem “produzir”. Esta coluna é, assim, abrangente.
A angústia foi tragada por esse novo psicotrópico algorítmico, transformando-se em uma paródia trágica. Uma espécie de “bocozização”. Tudo é espetáculo, tudo por um click. Tudo por engajamento, mesmo que o preço seja o patético. Tudo é espetáculo.
Colapso da vergonha alheia e a perda do senso do ridículo
Para compreender a viabilidade da ascensão do Homo Pateticus é imperativo analisar a falência dos mecanismos de controle social, em especial a extinção da “vergonha alheia”. Não há mais limites. Perderam a vergonha.
Atualmente vivemos o declínio da vergonha. As plataformas digitais inverteram a lógica da sanção: o comportamento que antes geraria ostracismo e rubor passou a ser exponencialmente recompensado. Fazer fiasco gera likes.
O Homo Pateticus prospera exatamente neste vácuo. Como se cria? O que come? Como se reproduz? Eis as perguntas fundamentais. Ao se expor em situações de frivolidade extrema sem qualquer traço de autoconsciência crítica, e ao receber aplausos de uma massa de “seguidores” igualmente alienados, o “novo sujeito” decreta o fim do próprio constrangimento. Agora tudo pode. “Deus morreu”! E perdeu-se a capacidade de indignação. E da capacidade de sentir vergonha. E isso é gravíssimo.
Agnotologia: a construção deliberada da ignorância e da estupidez
Neste panorama desolador, é necessário refutar a ideia de que o momento atual seja fruto do mero acaso. Há nisso uma agnotologia (a construção deliberada da ignorância). A estupidez, na era algorítmica, deixou de ser uma condição inata ou uma deficiência cognitiva passiva; a estupidez é, hoje, uma “ciência empírica”. Ela é meticulosamente aperfeiçoável, possuindo métodos de validação, dinâmicas de replicação imediata e até métricas de desempenho (cliques) otimizadas por inteligência artificial e análise de dados comportamentais.
Este fenômeno pode ser decodificado à luz de um arcabouço conceitual sólido, notadamente o postulado sobre as “5 Leis da Estupidez” (de Carlos Cippola e aperfeiçoadas por Mauro Mendes Dias), tese amplamente difundida no debate jurídico e crítico por meio de publicações das mais variadas, como já escrevi aqui na ConJur.
Há, assim, um contraste absoluto entre a racionalidade esperada e a operação da estupidez aperfeiçoável, evidenciando o abismo ontológico (e gnosiológico). Diante da construção de sentido civilizatório, o homo pateticus contrapõe a maximização do engajamento por meio de humor rasteiro e imitação; diante do necessário pudor e proteção da intimidade, o homo pateticus contrapõe a exposição de si mesmo de forma escancarada; diante da possibilidade de prejuízo reputacional, o homo patetitus aceita o desgaste em troca da exposição espetacularizada.
A necessária crítica e aquilo que aqui passo a denominar de “hermenêutica da resistência”
Diante do esfacelamento do senso do ridículo e do avanço irrefreável dessa ciência da estupidez, a submissão silenciosa torna-se um ato de cumplicidade. É nesse sentido que a manifestação pública de resistência ganha força imprescindível. Há muitas vozes críticas. Mas ainda insuficientes. Por isso estou aqui me repetindo. Proponho a quem tem vergonha que participe da hermenêutica da sobrevivência, pela qual temos de denunciar firmemente a burrice espetacularizada, além de buscar as causas científicas do fenômeno.
A verdade inconveniente é que não há humanidade alguma em comportar-se como um fantoche de métricas; trata-se do esvaziamento total do sujeito em favor de um sistema operado por hiperconexão vazia.
Retomo as provocações iniciais: a humanidade fracassou? O fracasso é o diagnóstico preciso de um tempo que celebra a anulação da cognição, aos poucos cada vez mais terceirizada. E pensar que a humanidade já teve Shakespeare…! E agora tem a turma do “será que…”. Que vergonha.
Perdemos o senso do ridículo de forma quase irreversível, e a ausência da vergonha alheia deixou a praça pública desprotegida contra o avanço das indignidades. A polis foi carcomida. E, sim, a estupidez foi elevada ao “status de ciência” (sarcasmo!), porque pode sempre ser aperfeiçoada.
Resta saber se essa resistência será capaz de desarticular as armadilhas do Homo Pateticus ou se seremos todos condenados a figurar como coadjuvantes trágicos na grande coreografia do abismo.
Será?
Post scriptum: como viram, voltei ao assunto. É necessário. Na coluna anterior tinha as 5 Leis da Estupidez (quem perdeu, aqui vai outra vez o link — embora já esteja acima).
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