Reflexões Trabalhistas

O Dia do Trabalho e os meus 30 anos de docência

No longínquo ano de 1987, ingressei na Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) como quem adentra um território desconhecido e, ao mesmo tempo, familiar. Desconhecido porque ali se abria, para mim, o universo do Direito; familiar porque, de alguma forma, o Direito já habitava minha história — meu pai havia se formado na área, e minha mãe, professora, havia me ensinado que o conhecimento transforma destinos. Acredito que essa união de fatores, além dos excelentes professores que me formaram à época e que continuam me ensinando, me conduziu à docência.

A emoção de descer pela primeira vez a rampa da rua Monte Alegre e alcançar a chamada “prainha” ainda é vívida na minha memória. Na PUC-SP, compreendi que estudar Direito não é apenas conhecer e assimilar um conjunto de regras, mas desenvolver a capacidade de interpretá‑las e aplicá‑las criticamente à realidade social.

Após a conclusão da graduação, não consegui mais me afastar daquele ambiente que já reconhecia como meu. Permaneci na universidade para auxiliar o professor Pedro Paulo Teixeira Manus em suas aulas, cuja ausência, desde dezembro de 2021, ainda ecoa com intensidade.

Spacca

Assim, iniciei minha trajetória na docência, acompanhando o professor Pedro Paulo, pessoa dotada de uma inteligência rara e de uma singular habilidade de comunicação. Afinal, ele conseguia capturar a atenção dos alunos com leveza e profundidade: suas intervenções, ora marcadas por fina ironia, ora por exemplos extraídos de sua experiência na magistratura, tornavam o Direito vivo e acessível.

Foi nesse convívio que me apaixonei pela docência e que aprendi que ensinar é, antes de tudo, um exercício de escuta e de sensibilidade. A experiência como assistente não apenas consolidou meu interesse acadêmico como também me impulsionou ao mestrado e ao doutorado, sempre sob a orientação do próprio professor Pedro Paulo. Durante esse período, aprofundei meus estudos e reafirmei meu compromisso com o Direito do Trabalho, área que, desde então, se tornaria o eixo central de minha atuação profissional e intelectual.

Mão dupla

O ingresso formal na carreira docente ocorreu em 2 de maio de 1996, quando foi aberto concurso público e tive a honra de ser aprovada como auxiliar de ensino na Faculdade de Direito, da PUC-SP. Retornava, agora, não mais como aluna, mas como professora — ainda que carregando, em mim, uma grande curiosidade e a vontade de estudar e aprender.

No próximo sábado, um dia após as comemorações do Dia Internacional do Trabalho, completo 30 anos como professora dessa instituição. Essa data me convida à reflexão, mas também à gratidão, pois minha história na PUC-SP ultrapassa os 30 anos formais de trabalho, já que são quase quatro décadas de vivência quase diária, considerando o período em que ali estive como estudante desde 1987. É uma trajetória que se confunde com minha própria identidade.

Nestes mais de 30 anos, além de advogar, tive também a oportunidade de lecionar em outras instituições de ensino, o que ampliou significativamente minha compreensão sobre o papel do educador. Ensinar para diferentes perfis de alunos, em distintos contextos, permitiu-me aprender com os jovens — com seus anseios, seus sonhos, suas dúvidas e, não raramente, suas angústias. A docência, nesse sentido, sempre foi uma via de mão dupla: enquanto ensino, estou aprendendo.

A PUC-SP continua sendo minha casa. É o espaço onde construí amizades duradouras, onde vivi alegrias intensas e também enfrentei algumas dores inevitáveis ao longo de uma trajetória extensa. Talvez por isso a docência tenha se consolidado, para mim, como uma forma de celebrar o trabalho e, especialmente, o Direito do Trabalho. Ensinar essa disciplina é reafirmar, diariamente, que o trabalho é um direito fundamental e um dos pilares da vida humana, motivo pelo qual é necessária sua proteção jurídica.

Os encontros com colegas professores e com os funcionários da universidade sempre foram fonte de enriquecimento. A universidade é, por excelência, um espaço de relações sociais complexas, onde o saber se constrói de maneira coletiva e interdisciplinar. Estar em contato com as transformações jurídicas e sociais, em suas múltiplas áreas, é um privilégio que constantemente renova minha motivação acadêmica.

Há, contudo, um momento que sintetiza o sentido mais profundo da docência: o instante em que entro em sala de aula. Ali, a correria do dia a dia e os problemas externos perdem relevância. Meu olhar se volta integralmente aos alunos já que não basta apenas transmitir o conteúdo planejado, mas provocar reflexão crítica e incentivar a construção de um pensamento jurídico comprometido com a realidade social.

Trabalho como fonte de dignidade e realização

O Dia Internacional do Trabalho rememora a histórica luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho — uma luta que permanece atual e necessária. Em um contexto marcado por transformações tecnológicas, flexibilização das relações laborais e, precarização, a necessidade de proteção jurídica do trabalhador revela-se ainda mais premente.

Nesse contexto, o conceito de trabalho decente se destaca pois busca promover oportunidades para que homens e mulheres acessem um trabalho produtivo e de qualidade, exercido em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade. O trabalho decente é condição indispensável para a superação da pobreza, para a redução das desigualdades sociais, para a consolidação da democracia e para a promoção do desenvolvimento sustentável.

Aliás, não é por menos que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da Agenda 2030, especialmente o ODS 8, visa promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, além de garantir o emprego pleno e produtivo e o trabalho decente para todas e todos.

Neste Dia do Trabalho, o que se deseja é que os cidadãos e cidadãs brasileiras tenham efetivo acesso ao trabalho decente. Que possam encontrar, em suas atividades, não apenas um meio de subsistência, mas também uma fonte de dignidade e realização pessoal.

Fabíola Marques

é advogada, professora da PUC na graduação e pós-graduação e sócia do escritório Abud e Marques Sociedade de Advogadas.

Seja o primeiro a comentar.

Você precisa estar logado para enviar um comentário.

Leia também