Embargos Culturais

O Século do Populismo, de Pierre Rosanvallon

Publicado pelo Ateliê de Humanidades Editorial, com tradução de Diogo Cunha, O século do populismo, do historiador francês Pierre Rosanvallon, parece-me um livro muito mais preocupado com conceitos e problemas contemporâneos de democracia do que propriamente com uma análise do populismo, em todas suas variações. Embora seja, reconhecidamente, um clássico, em relação ao tema do populismo.

Spacca

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

Talvez nesse ponto a mensagem do livro: a democracia é ameaçada permanentemente pelo populismo, embora os populistas insistam que verdadeiramente representam o povo. Esse paradoxo é que sustenta as reflexões desse importante livro.

O autor discorre inicialmente sobre uma tentativa de compreensão do que seria “povo”. É o que lemos na primeira parte do livro, na qual o autor faz uma anatomia do populismo. Isto é, “se os movimentos populistas têm em comum erigir o povo como figura central da democracia”, forçoso que o populismo deva ser estudado a partir de um conceito de povo.

Com referências à Declaração de Independência dos Estados Unidos, a episódios dramáticos da Revolução Francesa, a Jules Michelet e a Vitor Hugo, entre outros, o autor explora concepções de “povo social”, de “povo classe” e de “povo cívico”. O “povo social” se aproximaria do conceito de proletariado ou de classes trabalhadoras (quando menino eu ouvia falar de classes laboriosas). Mas quem é essa gente? O populismo está contido em vários clichês de paixões e emoções.

Vejamos, por exemplo, uma passagem de um delicioso romance de Moacyr Scliar (Eu vos abraço, milhões): “(…) Povo! O povo seria o juiz, o júri, o carrasco. Porque o povo é soberano. O povo julgaria, o povo, de forma unânime, daria a sentença (sempre uma condenação à morte), o povo liquidaria os inimigos da revolução na força, na guilhotina, à bala. Ah, e cada execução seria uma celebração”. O texto arrepia, e nos remete aos tribunais do povo, das revoluções francesas, russas, chinesas e cubanas.

Ernesto Laclau e Chantal Mouffe são referências constantes nesse livro. Esta última explorou os contornos e características do “líder”, figura central e tão importante do populismo, quanto também é importante o sentido tão amplo e indecifrável de povo. Do ponto de vista econômico, os populismos se aproximam de postulados vagos de nacional-protecionismo. O político populista defende a “indústria nacional”, o “mercado nacional”, o “emprego nacional”. A refundação democrática (sic) é feita a partir de alicerces econômicos, extremamente protecionistas.

A sessão histórica do livro é muito detalhada. Rosanvallon identifica um “laboratório latino-americano” do populismo, discorrendo com mais profundidade sobre Jorge Eliéser Gaitán na Colômbia e Juan Domingo Perón na Argentina. Gaitán é o fundador desse modelo, transformando “profundamente a paisagem política colombiana nos anos 1940”. É o “tribuno do povo”, sintetizada na fórmula “eu não sou um homem, sou um povo”. Gaitán fez doutorado na Itália nos anos 1920, ao longo da glória de Mussolini, o campeão da causa. Perón também esteve em Roma a propósito de uma missão militar, bem como manteve laços com lideres da Alemanha nazista. Perón era um simpatizante do autoritarismo alemão.

Há um apêndice valiosíssimo, a propósito da história da palavra “populismo”. Rosanvallon menciona os populistas russos do século XIX, chamados de “narodiniks”. Eram intelectuais aristocratas cheios de afeto e de preocupações pelos camponeses. Discorre também sobre o populismo norte-americano, época em que um “partido do povo” enfrentou democratas e republicanos, talvez protagonizando o que hoje chamaríamos de “terceira via”.

O século do populismo, de Pierre Rosanvallon, é leitura necessária para quem vivemos em países onde pontificaram e pontificam getúlios, juscelinos, jangos, lacerdas, homens-da-capa-preta, lulas, bolsonaros e mais aquele que disse que iria colorir o Brasil. Naturalmente, e felizmente, nossos exemplos passam ao largo das experiência italiana e alemã, ainda que tivéssemos uma manifestação dessa simbologia, nos programas do integralismo, contidos no pensamento de seus maiores representantes, Plinio Salgado, Miguel Reale e Gustavo Barroso. Reale foi o jurista e intelectual do movimento, formulando suas bases doutrinárias, em textos que essa coluna comentará.

A tradução brasileira do livro de Rosanvallon conta com uma introdução de autoria do competentíssimo cientista político Christian Linch, ao lado do tradutor. A introdução vale uma consulta à obra.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

é livre-docente pela USP, doutor e mestre pela PUC- SP e advogado, consultor e parecerista em Brasília, ex-consultor-geral da União e ex-procurador-geral adjunto da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

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