MP dos bingos vai entupir a Justiça do Trabalho de ações

Não bastassem todas as polêmicas geradas pela Medida Provisória 168, especialmente sobre sua constitucionalidade ou não, questões paralelas surgiram. Pela imprensa, pessoas gabaritadas estão expondo suas opiniões, porém, sem consistência jurídica.

Deixando de lado a questão da constitucionalidade ou não da Medida Provisória, o que mais se ouviu e se leu nos últimos dias sobre a proibição dos bingos, foi o grande número de desemprego que o fechamento dos bingos causaria. Todavia, alguns advogados e jornalistas de respeito, como por exemplo Boris Casoy, e até mesmo o ministro da Justiça deram declarações no sentido de que não se pode manter as casas de bingo sob o argumento de que geram milhares de empregos, pois se assim fosse, poder-se-ia dizer também que o tráfico de entorpecente, o tráfico de arma e a prostituição são também grandes fontes de emprego.

Com todo respeito que merecem as pessoas que assim entendem, tais argumentos são totalmente infundados.

O argumento de que prostituição gera também emprego não vinga, pois, não é e nunca foi crime se prostituir. A venda ou aluguel do próprio corpo já vem de muitos séculos. Não é, portanto, crime algum se prostituir. É considerado crime a exploração da prostituição, a manutenção de casas de favorecimentos, etc… Mas já há projetos de lei regulamentando a prostituição, regulamentação, aliás, que o próprio ministro da Justiça entende correta.

Com relação ao tráfico de drogas e armas, a questão é outra. Nunca, jamais o governo incentivou, autorizou, fomentou ou deu concessão para que se explorassem o tráfico de drogas ou de armas. Muito pelo contrário, o governo sempre combateu ou pelo menos tentou e tenta combater essas atividades criminosas.

Diferentemente da exploração dos bingos, em que foi editada uma lei (Lei Pelé), onde o governo autorizava e incentivava a exploração do bingo, pois, parte da verba seria distribuída para associações desportivas e atletas amadores, e além de beneficiar diretamente o desporto nacional, era uma fonte de arrecadação muito bem vinda.

Ora, então o governo incentiva, edita uma lei possibilitando a exploração do jogo do bingo, os empresários acreditando no governo investem alto, compram imóveis, máquinas, aparelhos, contratam funcionários, promovem suas casas tudo com o incentivo governamental e de um dia para o outro, apenas para mascarar um escândalo, edita Medida Provisória onde expressamente dispõe que ficam declaradas nulas e sem efeitos todas as licenças, permissões, concessões ou autorizações para exploração dos jogos de azar e que a Caixa Econômica Federal e autoridades referidas na Medida Provisória deverão proceder à rescisão unilateral imediata dos contratos vigentes ou revogar os atos autorizadores do funcionamento dos respectivos estabelecimentos, sem nenhum tipo de indenização.

Agora, o cidadão que confiou no governo, investiu, gerou milhares de empregos, deu lazer à população, ajudou associações esportivas e atletas amadores, inclusive, alguns famosos, tem que arcar com o prejuízo sozinho?

Não se pode deixar de lado o fato de que os mais de 320.000 funcionários que serão demitidos terão direito a levantar o FGTS e mais a multa de 40%, pois serão despedidos sem justa causa, sem contar que o empregador tem que depositar mais 10% do valor do fundo para o governo. Então, além de serem prejudicados por acreditarem no governo, terão ainda que por culpa exclusiva dele pagar multa e ainda agraciá-lo com 10% do valor do FGTS. Parece brincadeira, mas não é. É isso mesmo. O empresário incentiva o esporte, gera receita para o governo e em troca recebe um prejuízo enorme e o dever de pagar 10% de “gorjeta” ao seu algoz.

Não podemos esquecer também, que se trata de Medida Provisória, assim, poderá o Congresso Nacional não convertê-la em lei, e aí como fica a questão?

Os empresários demitem, os funcionários entopem a Justiça do Trabalho de ações, o governo recebe seus 10%, e depois a Medida Provisória não é convertida em lei. E mais: podendo, inclusive, ser aprovado o projeto de lei que tramita no Congresso Nacional regulamentando o jogo.

Como se percebe, a questão é muito mais delicada do que aparenta. Envolve não só matéria jurídica como social, pois, o mesmo governo que quer controle do Judiciário, reclama, com razão, da demora da Justiça, é quem mais ajuda a aumentar o problema.

Imaginemos que metade dos trabalhadores demitidos ingressem com ações na Justiça, serão nada mais nada menos que aproximadamente 150 mil ações referentes ao mesmo caso. Imaginemos agora, que todos os empresários que se sentirem prejudicados ingressem também na Justiça pleiteando indenizações, sem contar os mandados de segurança e as ações diretas de inconstitucionalidade, a Justiça que já é abarrotada ficará ainda mais congestionada.

E não pára por aí. Se forem julgadas procedentes as indenizações de onde o governo vai tirar dinheiro para pagar, já que está pagando em suaves parcelas a correção do fundo de garantia na época do plano Collor?

Assim, o mesmo governo que reclama da morosidade da Justiça é quem mais colabora para tanto.

Mas não é só. A Medida Provisória envolve não só matéria constitucional, mas também administrativa, e é tranqüilo o entendimento dos administrativistas no sentido de que quando o Estado rescinde unilateralmente um contrato, por motivo de força maior ou conveniência deve sim pagar indenização a quem de direito (Art. 37 Lei 8.987/95), não podendo simplesmente revogar concessões e deixar quem investiu a ver navios.

Maria Sylvia di Pietro assim ensina “a rescisão por motivo de interesse público, ou ocorrência de força maior ou caso fortuito, a Administração fica obrigada a ressarcir o contratado dos prejuízos regularmente comprovados.”

E finalmente, muitas pessoas ainda criticam as casas de bingo, alegando que vicia, que é caminho para lavagem de dinheiro e que a sonegação fiscal impera.

Pois bem, primeiro, no Brasil há outros tipos de jogos como loterias, mega-sena etc…, que custam o mesmo valor ou até mais do que cartelas de bingo. Segundo, ninguém é forçado a entrar numa casa de bingo, entra quem quer, ou melhor, maiores de 18 que já tem consciência dos seus atos. Terceiro, como já sustentado em artigo anterior há inúmeras outras atividades que facilitam a lavagem de dinheiro e finalmente, é muito, mas muito mais vantajoso para o governo fiscalizar essas casas de bingos, para que efetivamente atuem na regularidade, criando empregos e pagando seus impostos gerando renda, inclusive, para pagar os funcionários que fiscalizarão as casas do que simplesmente proibi-las, aumentando desemprego, acabando com o lazer de muitos e diminuindo receita.

Rodrigo de Moura Jacob

é advogado, pós-graduado em Direito Mobiliário pela Universidade de São Paulo, sócio do escritório Nilson Jacob Advogados Associados

O Martini disse:
04 de março de 2004 às 16:29

Qualquer argumento é válido para defender interesses econômicos, até pretenso desemprego de centenas de milhares de trabalhadores. O estranho é que milhões ficaram desempregados devido à "consistente política macro-econômica do governo" até hoje prosperando, e nem por isso os desempregados entupiram a justiça. Mais estranho é que os "contratados" não procuram a justiça para se ressarcir de "lucros findos" mas para a continuação dos lucros - ao que parece, sem amparo legal. Creio que Bingos é antes de mais nada uma questão de moralidade - e há diversificadas moralidades.

Alexandre de Souza disse:
04 de março de 2004 às 16:50

Acredito que o Sr. O. Martini não seja advogado ou então não atue na área trabalhista. É do conhecimento de todos que existem inúmeros processos trabalhista em curso, e a cada dia que passa aumenta-se o número de processos distribuídos. A Justiça do Trabalho encontra-se sobre-carregada.
Caso o caro colega fosse proprietário de um bingo, será que aceitaria a MP editada pelo Governo Federal?
Ninguém que investe em uma empresa que ter prejuízo, todos visam o lucro. Por outro lado, os Bingos geram empregos direto e indireto, são milhares de postos de serviços.
Agora o Governo, para enconbrir as denúncias contra os membros da cúpula do PT, edita essa MP.
Infelizmente esse foi o Governo eleito pelos brasileiros.

Sergio Luiz Veronese Junior disse:
04 de março de 2004 às 18:42

Apenas para refletir: Se o fechamento das casas de bingo acarretarão mais de 150 mil ações na Justiça do Trabalho é porque, além da dúvida que paira sobre a origem e o destino do dinheiro movimentado nessas casas, os empregadores não cumprem com o que determina a legislação trabalhista ou será que a Justiça do Trabalho é fonte de enriquecimento sem causa ?

Rodrigo Regis Avila disse:
04 de março de 2004 às 19:09

Prezados Senhores,

Trabalho na área das vídeo-loterias, sou casado, tenho uma filha de 07 meses, nunca trabalhei para a máfia nem tão pouco lavei dinheiro ilegal. Contudo, a opinião pública vem sendo bombardeada por informações que levam a entender de que os bingos em geral são ilegais e acima de tudo devem ser proíbidos em nosso país.
Fico envergonhado em ver com que facilidade certas pessoas podem discorrer sobre a idoneidade de outras sem o mínimo de conhecimento para fundamentar suas teses.
Negar que possam existir irregularidades neste ramo aqui ou ali seria fora de lógica, porém rotular a toda uma gama de trabalhadores e empresários é no mínimo inconsequente.
Gostaria de parabenizar este site por trazer pareceres neutros no que diz respeito a moralidade do jogo, pois o que é moral ou imoral cabe a cada um definir com seus preceitos.
Para encerrar gostaria de colocar que acabo de assinar o aviso prévio, o que significa que daqui a trinta dias serei apenas mais um desempregado neste país, mas para o Governo de hoje vale mais o desemprego e a legalidade ( na visão dele Governo ) do que um trabalhador que gira a economia nacional com seu salário proveniente de atividades ilegais ( repito, na visão dele Governo ).

Rogério Santa Rosa disse:
05 de março de 2004 às 02:06

As casas de bingos não podem de forma alguma serem colocadas como grandes geradoras de emprego e alavancadoras da economia nacional. Primeiro porque todos os empregos gerados por esse seguimento é precarizado, o salário médio pago pelas casas de bingo é de R$ 350,00, e mais da metade dos seus funcionários não possuem carteira assinada, fazem bico nos bingos. Pelo volume de dinheiro movimentado nessas casas, seus funcionários deviam ter condições de trabalho muito melhores dos que têm hoje. Condições para que os funcionários participem de passeatas, movimentos, protestos em defesa do seu interesse, para isso eles tem muito dinheiro, ou vocês acham que os donos dos bingos estão preocupados com empregos, com a lentidão da justiça, com as mazelas sociais desse país. Duvido muito. Segundo, porque o Estado não tem hoje um efetivo controle sobre a movimentação financeira dessas casas de bingo.
Somente depois de regulamentado é que essas casas devem voltar a funcionar, aí sim, o povo brasileiro não terá duvidas de que os bingos não possuem ligações com a máfia, com lavagem de dinheiro, com o tráfico de drogas, com a prostituição infantil.
A atitude do governo foi corajosa e consequente, apesar de "alguns" não terem gostado.

ademir buitoni disse:
05 de março de 2004 às 15:56

O comentário do dr.Rodrigo Jacob é muito equilibrado e pertinente.Não se poderia ter legislado nesse assunto por Medida Provisória,cujo caráter é ,por natureza,arbitrário porque deriva de poder de legislar ,solitariamente,dado exclusivamente ao Poder Executivo(,como no antigo Decreto-lei dos tempos da ditadura)para a decisão ser posteriormente submetida ao Congresso Nacional.Independente das razões polticas ´, socias e econômicas, o Governo Federal não se mostrou democrático com relação aos bingos,mas sim autoritário.!!!Na verdade a MP é uma cortina de fumaça para abafar o "Waldogate",uma medida cínica e revanchista de um governo que foi eleito para exercer a democracia e não o autoritarismo.Os bingos não poderiam ter sido fechado desse modo,independente da atividade deles ser ou não anti-social.A MP é infeliz e descabida e o governo deveria mais é discutir esse assunto,como estava na mensagem que enviou ao Congresso dias antes.Quem está perdendo é democracia brasileira com mais esse exemplo de decisão arbitrária do
governo federal!!!

Miguel March Neto disse:
17 de março de 2004 às 11:44

Tudo isso porque o governo (que está demonstrando características ditatoriais) quis ELIMINAR INSTANTANEAMENTE a fonte das provas de suas irregularidades...
Concordo totalmente com o texto.

Cassiano Ricardo Rampazzo disse:
23 de março de 2004 às 20:36

Caro Rogério Santa Rosa: vejo que você é estudante de direito e por isso, derevia ser complacente. Mas não vou ser, pois ninguém o obrigou a enviar qualquer comentário sobre esse assunto e, por isso, vou lhe ensinar uma importante aula: saiba que no final do seu inflamado e inconsistente discurso, você flagrantemente comete o crime de difamação, pois está generalizando e acusando todos os empresários de um setor que emprega milhares de pessoas, arrecada impostos, dentre outras beneces, se estarem induvidosamente ligados a atividades criminosas. Saiba que antes que haja uma sentença penal condenatória, transitada em julgado, contra um proprietário de bingo, ninguém pode fazer uma acusação tão leviana quanto a sua. Ademais, gostaria de saber de onde você colheu esses imprecisos e mentirosos dados estatísticos quanto o salário e a falta de registros dos funcionários de bingo. Por acaso você tem aula de " Sociologia Bingüística" na sua faculdade?

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