Livro apresenta o pensamento singular de Marco Aurélio

Para quem pretende entender um pouco o porquê do ministro Marco Aurélio ter ganhado o título de “senhor voto vencido”, vai a dica: leia o livro Vencedor e Vencido, que será lançado na quarta-feira (6/12) em Brasília.

A obra, publicada pela Editora Forense, reúne as principais decisões, entrevistas e discursos do ministro do Supremo Tribunal Federal e presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Os textos publicados foram selecionados pelo advogado Sérgio Bermudes, também autor do prefácio.

“Este livro não é uma prestação de contas do ministro do Supremo Tribunal Federal aos jurisdicionados, nem uma biografia. São pedaços de uma judicatura luminosa de um juiz que a história dirá marcante porque, não importa se vencedor ou vencido, exerceu, destemidamente, a função de julgar, conforme os seus princípios, a sua ciência e a sua fé”, escreve Bermudes.

O lançamento do livro começa às 18h30, na quarta (6/12), na Praça dos Três Poderes, Espaço Cultural, anexo II A, 1º andar, na biblioteca, em Brasília. São Paulo e Rio de Janeiro também deverão ser presenteados com uma noite de autógrafos.

Leia o prefácio do livro

PREFÁCIO

Este livro reúne alguns dos principais pronunciamentos do Ministro Marco Aurélio Mendes de Farias Mello, MARCO AURÉLIO, pela praxe de se identificarem os Juízes do Supremo Tribunal Federal por dois nomes. Figura singularíssima na Corte, desde o seu ingresso em 13 de junho de 1990, ele tem-se distinguido pela originalidade de muitas das suas decisões, tanto as monocráticas quanto as proferidas nos órgãos colegiados, Turma ou Tribunal Pleno. Esses julgamentos não quedam encerrados nos repositórios de jurisprudência. Freqüentemente, alcançam a mídia e, por meio dela, a parte consciente, sensível e engajada dos brasileiros que, concordando com ele, ou dele divergindo, rendem-lhe a homenagem de um grande respeito.

Na judicatura de MARCO AURÉLIO, incandesce a orientação do Supremo de não cortejar ninguém. Como o seu paradigma norte-americano, o Tribunal decide, sem se preocupar com aquele julgamento do povo que, para repetir Ruy Barbosa, lhe julga a justiça, às vezes, acrescente-se agora, num juízo apressado e superficial. O Ministro MARCO AURÉLIO vai além: ouvindo embora, atentamente, os seus pares, não hesita em discordar deles, ainda que a divergência o deixe sozinho. O STF não procura agradar a opinião pública, nem MARCO AURÉLIO aos seus Colegas de toga. Ele afirma as suas convicções, em julgamentos destinados a permanecer, alguns minoritários hoje, mas triunfantes amanhã, como sói acontecer nos colegiados.

Não se suponha, entretanto, que MARCO AURÉLIO só experimente a situação de vencido. Na maioria de seus votos, como relator, a Corte o acompanha porque concorda com ele e aceita a sua opinião substanciosa, fruto da correta identificação da lei e dos princípios incidentes e da sua adequada aplicação, como ainda da compreensão da fenomenologia jurídica, e da função do mais alto Tribunal da República, tornado o principal guarda da Constituição, pela expressa vontade dela mesma.

Apresentam-se aqui, além de votos vencidos, também manifestações prevalecentes do Juiz notável, o que justifica o título deste livro. Vencedor ou vencido, o Ministro MARCO AURÉLIO deixará, nos seus julgamentos, a sua marca pessoal, muito visível também em atos não-decisórios, como os seus discursos, aqui reunidos, de posse na Presidência do Supremo Tribunal Federal e, mais recentemente, na Presidência do Tribunal Superior Eleitoral. Neste último, a voz dele falou pela consciência ética da nação, denunciando e verberando a situação do Brasil de hoje, chocado e sofrido por acontecimentos revoltantes.

O gosto de sentir a prevalência de seus votos não leva o Ministro MARCO AURÉLIO a buscar a adesão do Tribunal, à custa das suas convicções, embora ele compreenda que, por vezes, seja necessário abdicar de um entendimento pessoal e seguir a maioria, quando não se trata de transigir com os fundamentos da sua crença quanto ao modo de exercer a missão a que foi convocado. A divergência não o assusta, nem combale a sua determinação, ainda quando o deixe em posição solitária.

Numa carta de 18 de abril de 2005, ele falou de sua fé de Juiz: “Sinto-me estimulado a persistir no ofício judicante, manifestando, passo a passo e de forma espontânea, a convicção sobre os conflitos de interesse, as matérias que me são submetidas… Disse Eliézer Rosa que a Justiça é obra do homem, sendo, portanto, passível de falha. De algo estou seguro ― implemento o ofício de acordo com o convencimento formado, sem preocupar-me com o grau de acatamento exterior. Aliás, vem a calhar o que ressaltado pelo padre Antônio Vieira no Sermão da Terceira Quarta-feira da Quaresma, relembrando palavras de Sêneca ― ‘o maior prêmio das ações heróicas é fazê-las. (…) O prêmio das ações honradas, elas o têm em si, e o levam logo consigo; nem tarda nem espera requerimentos, nem depende de outrem: são satisfação de si mesmas. No dia em que as fizestes, vos satisfizestes’. Procuro seguir atento à máxima segundo a qual a caminhada é como um processo, sendo que este ainda viabiliza o retorno a fase anterior, o que não ocorre com a vida…”

Este livro, que a Editora FORENSE agora oferece ao público, não é uma prestação de contas do Ministro do Supremo Tribunal Federal aos jurisdicionados, nem uma biografia. (Aliás, não foi dele a seleção dos textos, nem a idéia de publicá-los nesta coletânea). São pedaços de uma judicatura luminosa de um Juiz que a história dirá marcante porque, não importa se vencedor ou vencido, exerceu, destemidamente, a função de julgar, conforme os seus princípios, a sua ciência e a sua fé.

Rio de Janeiro, maio de 2006

Sergio Bermudes

Leo Silva disse:
05 de dezembro de 2006 às 12:22

Uma bela homenagem, sem dúvida. Mas fica no ar a pergunta: quantos outros, dentre os pares do Ministro, têm se mostrado merecedores de semelhante honraria?

Oxalá os demais integrantes do Pretório Excelso jamais se importem se são vencedores ou vencidos, mas simplesmente exerçam, "destemidamente, a função de julgar, conforme os seus princípios, a sua ciência e a sua fé".

olhovivo disse:
05 de dezembro de 2006 às 12:54

Há (muitos) jornalistas que se sentem verdadeiros deuses por influírem nos julgamentos, embora não saibam sequer manusear um código. Mesmo assim conseguem direcionar decisões de juízes com doutorado, mestrado e outros títulos mais que, nessas horas, são teoricamente jogados na lata do lixo. O min. Marco Aurélio é um exemplo de Juiz que não se deixou contaminar por esse verdadeiro câncer que se disseminou no Judiciário.

Armando do Prado disse:
05 de dezembro de 2006 às 13:44

Judicatura? Tenho comigo que sua excelência aspira ao estrelato dos filmes de longa, bota longa nisso, duração dos processos da (in)justiça brasileira. Sempre desconfiei de juízes que aparecem maais do que os jurisdicionados (Nelson Hungria, Moreira Alves, Jobim, Mello-Collor, etc).

Neli disse:
05 de dezembro de 2006 às 14:13

Se alguém quiser me dar o livro:agradeço!Comprar?Jamais!
Decisões do Marco Aurélio: as penais são de chorar,as demais(que conheço),não!
Mas em matéria penal ele já "revogou" artigo do Código Penal(a que presume estupro quando a conjunção carnal é praticada com uma menor de 14 anos),e outras. Ele poderia ficar decidindo as causas de direito público e deixar as de Penal para outros ministros. Um acinte,nesse mundo tão violento,em que a mulher é tratada com menosprezo,um ministro do STF julgar pro "reo" e contra lege.Se a lei é errada:mude-se a lei,mas julgar contra ELA?

Os homens,nos crimes sexuais,deveriam ser tratados como animais irracionais e não receber julgamento favorável da Corte Suprema.
Tirante isso,o Marco Aurélio é um bom ministro!

Mauro Garcia disse:
05 de dezembro de 2006 às 15:11

Tem maluco pra tudo neste mundo. Adminar Marco Aurélio é demais.

Ruberval, de Apiacás, MT disse:
05 de dezembro de 2006 às 16:16

Salvatore Cacciola deverá, por imposição moral, comprar toda a edição, vez que o HC deferido ao ilustreb "pilantra" italiano foi da lavra do min. Marco Aurélio, o que possibilitou fugir do país.

olhovivo disse:
05 de dezembro de 2006 às 16:47

Parece que há bacharéis em direito discípulos do prof. de direito constitucional Afanásio Jazadi. Chamam pessoas de "animais irracionais", julgam sem ler uma folha sequer dos autos, são partidários de pré-julgamentos e de linchamentos públicos, quando não condenam por ser parente de alguém de outra corrente idológica. Vê-se que a imprensa não tem o condão de mexer apenas com a cabecinha dos leigos, mas também dos portadores de diploma de curso superior. Isso é que é terceiro mundo E põe mundinho nisso. Aghhhhhh.

lu disse:
05 de dezembro de 2006 às 17:26

Interessante que sejam publicadas as decisões do ministro Marco Aurélio. Também deveriam publicar as dos outros membros do STF.
Serve de registro histórico, marca de um período, referência.
Somos livres para concordar ou discordar.

LAug disse:
05 de dezembro de 2006 às 17:55

É o Ministro mais independete do STF, e é muito inteleigente (pude notar isso na sessão que assisti ao vivo no STF este ano).

Spartacus disse:
05 de dezembro de 2006 às 19:10

Leitura obrigatória para quem deseja aprofundar-se nos meandros do direito, aliás, de um direito profundamente refletido e posto em prática.

(a)Sérgio Niemeyer
Advogado - Mestre em Direito pela USP - Professor de Direito - Palestrante e Parecerista
sergioniemeyer@adv.oabsp.org.br

Robespierre disse:
05 de dezembro de 2006 às 22:36

...boa maringá, bem lembrado. cacciola, o mafioso, deverá comprar toda edição para destribuir no natal. pindorama, pindorama o que fizeram de você?

Rossi Vieira disse:
05 de dezembro de 2006 às 22:39

Conheço alguns homens de coragem.Poucos. Na minha amada profissão, a advocacia, quem não tem coragem perde o espaço. Os corajosos muitas vezes são mal vistos pelo todo. O pouco é a exceção. O ministro citado é homem corajoso e exemplo de magistrado sério e independente. A coragem dignifica o homem e o faz diferente dos demais. A diferença não é pouca. Por isso são pucos os homens de coragem. Parabéns ao ministro e infelizmente não o conheço pessoalmente. Vou ler o livro, a conselho de Sergio Niemeyer ( homem de coragem) e simbolicamente, como um admirador, conhecê-lo melhor, como quem conhece os personagens de romances das grandes estórias da literatura mundial. E quem sabe, aperfeiçoar minha coragem e tecer teses vencedoras, como muitas das quais o ministro venceu.

otavio augusto rossi vieira, 40
advogado criminal em São Paulo
otavioaugustoadv@terra.com.br

Robespierre disse:
05 de dezembro de 2006 às 22:40

...e mais, ele e a imprensa marrom denuncista foram os grandes derrotados de 29 de outubro. livro dele? fala sério! prefiro reler "crime e castigo" e "almas mortas" nestes dias de dezembro...

Robespierre disse:
05 de dezembro de 2006 às 22:42

...aos demais que não querem perder tempo, mas querem ler algo sério, sugiro o insuperável Roberto Lyra, morto precocemente. Promotor de tala larga. Jogou-se a forma fora...

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