É insustentável posição dos presidentes do Bacen e do BB

Meirelles na mira

Uma nova denúncia contra o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, abalou os meios políticos e os mercados ontem. A CPI do Banestado descobriu uma conta de Meirelles nos Estados Unidos, não declarada à Receita, e uma transferência de US$ 50.677, feita no dia 18 de outubro de 2002, logo depois que se elegeu deputado federal, para uma conta titulada por doleiros nos Estados Unidos.

O caso

O documento em posse da CPI mostraria que o dinheiro migrou da conta do presidente do BC para outra conta, de número 030102375, que pertence a offshore Biscay Trading Ltd. Ocorre que a CPI tem em mãos um relatório segundo o qual Biscay Trading é de um grupo de doleiros de São Paulo que está sob investigação por lavagem de dinheiro. Ou seja, a suspeita é a de que o dinheiro tenha sido remetido para o Brasil de forma ilegal.

A omissão

Na declaração do Imposto de Renda que Meirelles entregou à Receita Federal, em abril do ano passado, havia cinco contas declaradas, uma só no exterior, no FleetBoston Bank — nenhuma menção a esta que a CPI descobriu, que seria no Goldman Sachs.

A divulgação

As informações foram primeiramente publicadas na edição online da revista Veja. A revista IstoÉ também teve acesso ao material da CPI. Depois da notícia, os ativos do mercado financeiro tiveram piora substancial. A Bolsa de São Paulo registrou o maior tombo desde maio, com queda de 3,82%. O dólar teve alta de 0,52%. Nesta sexta, operadores esperam nova rodada de pessimismo.

A defesa

A assessoria de imprensa do Banco Central divulgou nota sobre o caso. O texto afirma que todos os rendimentos de Meirelles nos EUA têm origem conhecida e foram tributados naquele país. E que todos os rendimentos recebidos depois do retorno definitivo do presidente do BC ao Brasil foram tributados pelo Fisco brasileiro, de acordo com a legislação. Afirma ainda que, nos EUA, é comum a realização de pagamentos por meio do envio de recursos para uma conta bancária indicada pelo recebedor, no caso, de uma empresa que Meirelles não conheceria. Por fim, assegura que a referida conta foi ativada em 23 de agosto de 2002 e desativada em 3 de dezembro daquele ano, o que o desobrigaria de declará-la, conforme a lei.

Quem é Antero – 1

A figura que vem tirando o sono da República do PT, por presidir a CPI do Banestado, parece um detetive saído de um filme B: com o cabelo sempre desalinhado, ternos um tamanho acima do ideal, tênis nos pés em vez de sapatos sociais, olheiras enormes e uma briga infindável com a balança. O mato-grossense Antero Paes de Barros (PSDB-MT), 51 anos, exerce o primeiro mandato como senador e esteve ligado a todos os casos ruidosos do governo Lula.

Quem é Antero – 2

Como presidente da CPI do Banestado, opera um esquema de vazamentos controlados de informações – embora negue estar por trás das denúncias contra as autoridades monetárias – que municia a imprensa e preocupa o Planalto. Foi, ainda, o responsável pela divulgação do vídeo em que Waldomiro Diniz aparecia cobrando propina do bicheiro Carlos Cachoeira. Ironia maior: Antero já foi filiado ao PT, na época em que era deputado constituinte. A fase durou pouco: irritado com a burocracia do partido, foi para o PDT e, de lá, para o PSDB.

Assim falou… Professor Luizinho

“É uma atitude organizada, orquestrada. Estão namorando com o perigo. É muita irresponsabilidade.”

Do líder do governo na Câmara, atribuindo denúncias contra o presidente do Banco Central ao PSDB, que tem o senador Antero Paes de Barros na presidência da CPI do Banestado.

Insustentável

A posição dos presidentes do Banco Central e do Banco do Brasil, Henrique Meirelles e Cássio Casseb, respectivamente, é insustentável. Devem poupar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pedir demissão a bem do próprio governo. É impossível que ambos ocupem o cargo que ocupam tendo de, a cada dia, dar explicações novas sobre casos sempre mais nebulosos que levaram de sua vida privada para o cargo que ocupam na vida pública — no caso de Casseb, há ainda a lambança com a compra de ingressos para o show do PT. As Bolsas derreteram nesta quinta.

O dólar subiu. É a incerteza do que virá somada à certeza de que algo virá que põe o país nessa gangorra. Como se viu na demissão de Luiz Augusto Candiota e no convite feito a Rodrigo Azevedo para assumir a diretoria de Política Monetária, o que os tais mercados esperam é a continuidade da política econômica. A ser verdade que o governo está mesmo preocupado com a estabilidade e o crescimento, que não crie dificuldades novas para si mesmo.”

* A coluna é produzida pelo site Primeira Leitura – www.primeiraleitura.com.br

Ricardo José da Rosa disse:
06 de agosto de 2004 às 12:58

O PT, do Presidente Lula, age como governos anteriores, aos quais tanto combatia, em diversos aspectos. O mais recente consiste em defender amigos (?) envolvidos em casos nebulosos. Não tenho mais dúvidas: o medo (ou terá sido outra coisa?) venceu a esperança.

Gilberto Aparecido Americo disse:
06 de agosto de 2004 às 15:58

Perdõem-me os discordantes, mas esse tipo de imputação é pura hipocrisia. Pouquíssimas pessoas vinculadas ao poder central resistem a uma investigação superficial, mesmo que executada por atrapalhados espiões importados. Muito mais sério é o currículo do sr. Meireles, empregado de grandes bancos internacionais e eleito deputado pelo PSDB, partido em tese visceralmente contrário ao PT. Somente estes dados seriam bastante para deixá-lo prestar serviços aos seus eleitores, mantendo-o no cargo obtido à custa de quase um milhão de dólares, segundo a imprensa tem noticiado. Todavia, o PT da pratica não é o mesmo da dialética. Não diria que está acovardado. Acho que é movido por interesses outros, os quais, dada a minha ignorância, desconheço, mas está pelo menos encantado pelo sirênico canto do "mercado".

Gilberto Aparecido Américo
advogado

Carlos Alberto Alves disse:
06 de agosto de 2004 às 18:26

As atitudes do Presidente Lula, bem como do PT, quanto aos fatos acima é, no mínimo, falta de coerência entre o discurso e prática.
a) Carlos Alberto Alves

Rogener Donizeti Spessoto disse:
08 de agosto de 2004 às 16:38

Concordo com a opinião do sr. Gilberto Ap. Américo e ainda diria mais: ao contrário de outras pessoas que já ocuparam cargos públicos de grande influência sobre o governo e que também foram vítimas destes tipos de denúncias, estes senhores estão se demonstrando ótimos profissionais nos cargos que ocupam. Exemplo disso é o trabalho desenvolvido pelo sr. Cássio Casseb, que tirou o BB de uma dívida enorme e está transformando-o em um dos maiores bancos do país, tratando-o como uma empresa igual a qualquer outra e não apenas como um simples órgão do governo (como são tratados a maioria deles), além de investir em uma política de recursos humanos para mais de 80.000 colaboradores, tornando seus profissionais pessoas competentes e amantes do seu trabalho. Quanto ao sr. Meirelles, está ocupando um cargo à sua altura e com bons resultados, depois de ter presidido um dos maiores e bem sucedidos bancos do mundo! Com base nisso, devemos analisar o que estes senhores estão fazendo para melhorar a nossa sociedade, ao invés de levarmos em consideração denúncias até então inconsistentes.

Rogener D. Spessoto
Téc. de Segurança do Trabalho

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