Ações do governo Lula frustram operadores de Direito

O mês de janeiro de 1972 ainda estava no seu sexto dia quando desembarquei na Rodoviária de Brasília. Trazia a pequena família e uma mala cheia de sonhos e esperanças. A ditadura Médici imperava, mas, nos bastidores da advocacia, ecoavam os lamentos silenciosos da resistência democrática.

Recém-formado, fui acolhido no escritório do doutor Victor Nunes Leal, reduto de luta contra o arbítrio. O ministro Victor Nunes havia sido aposentado compulsoriamente por ato institucional como ministro do Supremo Tribunal. Com ele, no escritório, estavam o advogado Cláudio Lacombe, que renunciou ao Tribunal Superior Eleitoral, e os ex-promotores de Justiça José Paulo Sepúlveda Pertence e José Gerardo Grossi, também atingidos pelo ato discricionário.

Os atos que atingiram os advogados eram conseqüência do pedido de aposentadoria do ministro Adauto Lúcio Cardoso, que saiu do Supremo Tribunal Federal em protesto contra a decisão que não acolheu a representação de decretação de inconstitucionalidade do Decreto-Lei 1077, que instituía a censura prévia a livros e periódicos.

Esses advogados incentivavam os jovens para que lutassem e se posicionassem politicamente e não esmorecessem na busca do restabelecimento da democracia e do Estado de Direito. O discurso do ministro Adauto Lúcio Cardoso servia de alento e esperança para os que se iniciavam na dura missão de fazer imperar a Justiça.

Apesar da ditadura, os tribunais funcionavam, e os direitos dos cidadãos, nas questões entre partes, precisavam ser defendidos. Assim trabalhávamos, como é na China e em Cuba; se os direitos requeridos não forem contra o governo, todos são livres para advogar.

A chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao poder gerou nova esperança dentre os operadores do Direito. Imaginou-se que as ações que guilhotinaram os direitos dos trabalhadores, dos idosos, dos aposentados e dos menos favorecidos seriam reconhecidas imediatamente.

Não foi isso o que aconteceu: as ações de recuperação dos prejuízos causados por planos econômicos no FGTS estão sendo levadas para os inventários de seus falecidos interessados; o minguado salário mínimo pouco basta para os aposentados e pensionistas prolongarem a vida comprando os remédios que garantem mais alguns dias de sobrevivência e esperança de receber os atrasados; a não correção da tabela do Imposto de Renda, impondo carga insuportável sobre os trabalhadores; e, afinal, as taxações que incidirão sobre os ganhos dos servidores públicos aposentados — decisão mais recente do Supremo Tribunal Federal — é que causam desencanto e revolta.

A confiança depositada na independência dos juízes é resumida no conto de François-Guillaume-Jean-Stansislas-Andrieux, O Moleiro de Sans-Souci. O poeta narra que, quando o rei da Prússia resolveu mandar construir o castelo de Sans-Souci, o seu intendente tudo fez para afastar da vizinhança um modesto moleiro, cujo moinho daria uma nota prosaica a tão belo sítio. O moleiro, porém, não aceitou nenhuma proposta para sair do local e permitir a demolição de seu moinho. Ameaçado com a expulsão violenta, não se deu por vencido e gritou, decidido a ir lutar com o rei na Justiça: “Il y a des juges à Berlin” (Há juízes em Berlim).

A decisão do Supremo Tribunal Federal, impaciente com a lentidão do processo legislativo, deve ser examinada com atenção, respeito e sem medo, como o fez o professor Paulo Bonavides; ou, brevemente, veremos ministro renunciando e se mudando para Berlim em protesto contra a nova modalidade de ditadura.

Paulo Castelo Branco

é advogado e ex-secretário de Segurança Pública do DF.

Vinicius Dardanus (dardanus.blogspot.com) disse:
29 de agosto de 2004 às 16:42

Concordo com o princípio, mas não com a surpresa. Qualquer pessoa bem informada devia saber bem a que o Governo Lula veio. Jorge Amado em 1989 já sabia que a "linha albanesa" do PT era incompatível com democracia. Fingir desconhecimento em 2002 é inaceitável.

VANDELER disse:
29 de agosto de 2004 às 18:32

É de se admirar o que está acontecendo em nosso país.
Não podemos nos deter na luta pela justa democracia.
Justa é aquela democracia que dá maior dignidade ao ser humano, que protege a coisa julgada e o direito adquirido, trazendo a efetiva tranquilidade jurídica e social.
Se assim não for é preciso que todos brasileiros e principalmente os operadores do direito( advogados, juízes, promotores, defensores, juristas), tomemos as redeas de nosso destino e colaboremos, sem interesses pessoais, para o bem do povo em geral. Não com retóricas. Elas não acabam com a miséria que bate à nossa porta. Mas com atitude de corajosa fraternidade.
Acabou o momento do discurso vazio e distante. É urgente a necessidade de proporcionar aos brasileiros aquilo que a nossa terra pode proporcionar e não retirar e destituir de direitos que, minimamente, foram conseguidos com muito sofrimento ao longo da história brasileira.

Gesiel de Souza Rodrigues disse:
29 de agosto de 2004 às 20:14

Caro Articulista.... Lamentavelmente não há mais juízes em Berlim... A barganha diária roubou o espaço da coerência, do senso jurídico e da vergonha na cara. Paturebas se arrostam a pecha de mandarinos parciais, ou seja, aqueles que primeiro ouvem o "principe" para posterior posicionamento.

É preciso muito cuidado nas próximas eleições para que essa turba que ai está não tenha ainda mais a certeza de que tudo podem. Defensores das idéias mais inovadoras do início do século passado,sedentos pelo poder e inebriados pela bajulação deslavada que sempre marcou a história política do Brasil que permanece deitado em berço... com sua visão provinciana repugnante.

E assim vamos a cada dia passando uma vergonha diferente. Lembro-me de Nelson Rodrigues com seu humor cortante e ácido..."é a revolução dos idiotas".

Lamentável...Parabéns ao articulista por suas bem lançadas razões.

Ricardo José da Rosa disse:
29 de agosto de 2004 às 21:13

Regina Duarte tinha razão, durante a campanha política do atual Presidente. Agora, eu também estou com medo do governo Lula!

Juacilio Pereira Lima disse:
29 de agosto de 2004 às 22:13

Ilmo. Sr. Dr. Paulo Castelo Branco, parabenizo Vossa Senhoria pelo artigo; ainda ontem eu indagava um jornalista neste veículo de comunicação, a respeito da decisão do STF, o jornalista publicou em um artigo que a decisão era de uma "lógica jurídica cristalina". Como eu não estou convencido dessa "lógica jurídica" produzida pelo Tribunal, pergunto será que estamos com problemas mentais ou realmente estamos diante de uma Ditadura. Com essa decisão será que o Judiciário brasileiro não enterrou de vez o inciso IV do paragrafo 4º do Artigo 60 da CF/88 e o Ato Jurídico Perfeito - XXXVI. Art. 5º - será que não estamos afrontando o nosso já abalado "Estado Democrático de Direito"?

Mauro Garcia disse:
30 de agosto de 2004 às 00:15

O Sr. Paulo C. B.,ao que consta, é um dedicado profissional, lamentável em sua biografia apenas o fato de ter sido secretário de governo do Sr. Roriz. Um homem que transformou Brasília em local inviabilizado administrativamente e inabitável. Promoveu o Sr. Roriz uma campanha disfarçada de incentivo à imigração, com doações de lotes, visando ampliar sua base eleitoral e se perpetuar no poder. Sr. Paulo C. B.: diga-me com quem andas que direi quem és. Espero que o ditado não se aplique a sua pessoa.

Cirovisk disse:
30 de agosto de 2004 às 18:33

Concordo em gênero n° e grau com o leitor Paulo Cesar Rodrigues.

Acabo de crer que realmente nao existem partidos políticos é tudo a mesma coisa so muda os nomes.

É muita decepção que nos proporciona o atual governo, nao passam de uma corja sem escrúpulos que so visam os interesses internacionais, econômicos e deles próprios.
Estão longe mas muito longe de pensar no povo e na população que os elegeram e o pior ainda tomam atitudes ditadoriais no sentido de calar jornalistas, MP e juízes de um modo geral.

JA Advogado disse:
31 de agosto de 2004 às 10:32

Belo artigo. Parabéns ao seu autor. Parece-me que o Lula é produto da omissão e da vaidade pessoal. Omissão de muitos e vaidade do Serra - que se considerava a "bola da vez" e teimou infantilmente em ser candidato - quando era visível que ele não tinha combustível para enfrentar o desejo de mudança naquele momento. Aí está a fatura.

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