Não existe vontade política para o impeachment

Cogita-se, na imprensa, sobre o impeachment do Presidente da República. Há algumas insinuações nesse sentido, mas entre o propósito e a realidade há enorme distância. Inexiste, em primeiro lugar, a denominada “vontade política” de partir para tal iniciativa. Em seguida, em todos os setores, sem exceção qualquer para o industrial e o financeiro (principalmente o financeiro), o tratamento outorgado ao tema pelas denominadas lideranças é muito prudente, contrito até. Por fim, embora o povo, como tal considerada a denominada classe trabalhadora, constituída por sindicatos e quejandos, não esteja de bem com o metalúrgico, ainda demonstra pelo mesmo uma ligação quase carnal, protegendo-o na desgraça.

Disso há testemunho nos movimentos populares iniciados há pouco, muito menores do que os esperados ou estimulados, mas, ainda assim, demonstrativos de uma certa compatibilidade de tendência com o “fico”.

Por fim, o Supremo Tribunal Federal, constituído por juristas diferenciados, sim, mas trazendo princípios ideológicos colhidos lá fora e entranhados na toga, não parece impressionado com a remotíssima perspectiva. Em suma, inexistindo a descoberta de ligação direta do presidente com as ilegalidades em apuração, Luiz Inácio Lula da Silva termina o mandato, melancolicamente, mas termina, partindo depois para uma prudente expectativa, quiçá para o ocaso. No fim das contas, e atrás de tudo, valem considerações atinentes aos dinheiros, satisfazendo-se, então, os exportadores (ou importadores), em geral, e os banqueiros em particular. Obtém-se, então, uma espécie de “paz armada”, no sentido de se estabilizar o menos ruim, pois com o impedimento seria pior.

Ao lado de tudo isso, haverá, evidentemente, cassações, umas esperadas, outras surgindo no frigir dos ovos, havendo, também, uma espécie de moeda de troca nos bastidores, sabendo-se que nos momentos de crise política vale a dupla arte da retenção e da entrega, aquilo que ressumbra da peça “Chicago”. Ali, em dado momento, a carcereira afirma: “se tu faz pra mama, mama faz pra tu”.

É mais ou menos assim, repercutindo, até mesmo, num doleiro famoso, preso há algum tempo e ouvido por Comissão Processante. Realmente, a denominada “delação premiada” — até esse acidente híbrido mal copiado dos americanos e, diga-se, revestido de grande dose de imoralidade —, é uma espécie de “se tu faz pra mama, mama faz pra tu”, embora seja tragicômico ver-se o Ministério Público, por hipótese, participando dessa tentativa de impossível concretização desse expediente quase mafioso.

Quanto ao resto, há no Estatuto da OAB proibição expressa à tessitura de comentários sobre causas entregues a colegas criminalistas. Qualquer referência a tais conflitos soaria como interferência indevida, mesmo havendo sérios presságios, advindos dos babalaôs, quanto a particularidades represadas, até o momento, nos escaninhos da acusação oficial paulista.

Comentários esparsos surgem nos jornais. Aumentarão nas proximidades das eleições, condensando-se sensivelmente. A manobra é conduzida com método e sofisticação. É esperar para ver.

Paulo Sérgio Leite Fernandes

é advogado criminalista em São Paulo.

Band disse:
19 de agosto de 2005 às 11:28

Existe um lado ruim e outro bom nisto. O ruim é que estamos achando tão natural a corrupção que as pessoas não se importam mais de serem tapeadas. E a boa é que nada vai mudar no país! Será boa mesmo?

Os que o Presidente Lula considera realmente traidores já estão sendo punidos. Roberto Jefferson foi denunciado no conselho de ética da câmara por falar a verdade, Marcos Valério perdeu todos os contratos com o governo Lula por ter feito empréstimo “legais” para o partido e Duda Mendonça perdeu milionário contrato da conta da Presidência da República, conta era de R$ 150 milhões.

Mas já José Dirceu, Delúbio Soares e Silvio Pereira é preciso esperar o fim das investigações para até serem nomeados como tal ou repreendidos publicamente! Ou seja, este é realmento o jeito petista de governar, e não serão punidos pelo que estavam fazendo pelo partido!

hammer eduardo disse:
19 de agosto de 2005 às 13:02

O texto do Dr.Paulo Fernandes é muito interessante e infelizmente sou obrigado a contragosto a concordar com ele.
Uma rapida observação nos rumos da CPMI tambem não anima muito. O que antes parava o Pais nos dias de depoimentos de ratazanas de grande calibre , começa lentamente a se tornar uma coisa chata tal e qual os programas vespertinos da TV. A impressionante desfaçatez com que elementos de variadas periculosidades mentem a vontade e fica tudo por isso mesmo. Para Nós meros mortais , choca de sobremaneira alguns ja entrarem para depor com habeas corpus preventivo para evitar que sejam presos , é no minimo uma confissão previa de culpa ja carimbada e um escarnio com os Membros da CPMI e com a inteligencia de quem assiste.
Um dos pontos positivos a meu ver é que finalmente cai a mascara de "defensores da ultima moral do Brasil" que o PT fraudulentamente impingiu a todos durante anos , são na sua essencia tão desqualificados quanto os demais , talvez ate piores devido às posições anteriormente defendidas. O Lula coitado, "entrou de gaiato no navio" , nunca teve preparo intelectual para um cargo desse nivel e achou erroneamente que se cercando de "cumpanheirus" com melhor nivel de conhecimento , dava pra embrulhar a sofrida População Brasileira para presente, deu no que deu. O que agride é a atitude covarde de negar que nunca soube de nada , não notava nada de estranho etc etc , literalmente atirou os antigos "cumpanheirus" aos crocodilos de uma forma suja apenas para se preservar. Merece o trofeu Jatoba/Pinoquio de platina.
O perigo maior para a politica brasileira é se o zezinho dirceu conseguir escapar sem ser cassado. Este elemento na realidade é o Pai e a Mãe de toda essa encrenca e lembremos que durante os depoimentos se referia ao governo como sendo " - no meu governo....." , nesses pequenos escorregões fortuitos é que a fera mostra as unhas por debaixo da porta.
Realmente não existe um clima de quase revolta popular como houve no final do des-governo Collor quando a temperatura subiu e muito. O ironico e bizarro hoje é ver o collor de sapato alto dando lição de moral , chega a ser digno de aparecer no Panico na TV ou no Casseta.
A oposição tambem ja sentiu que não vale a pena partir para o tudo ou nada , afinal basta ter paciencia e esperar um pouco mais de um ano que a "tchurma" das vestais flagrada no bordel vai cair de podre sozinha. A campanha eleitoral de 2006 vai ser uma baixaria de assustar as mentes mais liberais, o Programa do Ratinho perde e de goleada.
Lamento apenas pelo Povo Brasileiro que realmente não da sorte a um bom tempo e nem tem garantias para o futuro.

Nado disse:
19 de agosto de 2005 às 16:34

Por conta do obeso superávit e da completa e irrestrita liberdade à entrada e à saída de capital no Brasil, que o Governo Lula mantém em favor dos opressores estrangeiros (FMI, EUA, OMC) e seus adeptos, os mesmos estão pressionando e impondo à oposição para que não Lula não caia e que, assim, não haja ruptura com tal esquema de parasitismo e rapinagem, que lhes favorece com o mais grosso da riqueza do Brasil (a maior parte do PIB), enquanto vai asfixiando a nação e minando as energias e a esperança do povo.

Comentarista disse:
20 de agosto de 2005 às 06:51

Que o impeachment não ocorreria é algo que só os mais ingênuos ainda não haviam percebido.

E viva o Brasil, paraíso absoluto dos juros mais altos do mundo e republiqueta das bananas a serviço da especulação financeira mundial...

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