Constituinte exclusiva pode ser a saída para a crise

Depois de tantos apelidos, a República Brasileira sofre de incurável mal, diagnosticado como conflito de preconceitos. Já tivemos a República Velha, a República Nova, a Nova República, a República de Alagoas, a República dos Neoliberais e, agora, a República dos Trabalhadores que se transforma na República dos Trapalhões. Nossas muitas constituições não conseguiram apaziguar a Nação com o cidadão por não servirem para a convergência dos interesses comuns.

No fim do regime de exceção, o presidente eleito por voto indireto, Tancredo Neves, criou a Comissão Afonso Arinos com a finalidade de redigir anteprojeto de constituição para ser submetido à Assembléia Nacional Constituinte. A doença e morte de Tancredo Neves e a posse de José Sarney provocaram o abandono das idéias desenvolvidas pelos notáveis.

Durante a Constituinte de 1987/88 acentuaram-se as divergências, e o texto final acabou sendo colcha de retalhos, pois a tese da constituinte exclusiva foi derrotada. A ação dos membros do Congresso Nacional, eleitos para fazer a nova Constituição e trabalhar, também, na elaboração das leis ordinárias, em conjunto com parlamentares que possuíam mandatos de outras eleições, acabou por descaracterizar a finalidade maior da elaboração do texto constitucional.

Se, naquela época, tivéssemos aproveitado o texto da Comissão Afonso Arinos e elegido constituintes em assembléia exclusiva, teríamos a possibilidade de discussões de teses, princípios e compromissos voltados aos anseios da população. Os partidos e candidatos estariam com a missão de apresentar suas idéias e programas para o bem geral da nação, em vez de incluir no texto constitucional interesses regionais e até pessoais, comuns na vida congressual.

Recentemente, o presidente nacional da OAB, Roberto Busato, afirmou que irá submeter, em agosto, ao Conselho Federal da Ordem, a proposta de eleição de Assembléia Constituinte exclusiva. A razão, expõe Busato, é que esse pode ser o momento de se buscar saídas mais agudas para uma “refundação” da República. A história tem demonstrado que é na ruptura social que nascem as assembléias constituintes; é nesse instante que a nação se une em busca de uma constituição que congregue as várias tendências políticas e cheguem ao texto que sintetiza a vontade da maioria.

Roberto Busato avalia que o país já vive a ruptura com o surgimento de escândalos que sugerem a necessidade de romper com os privilégios dos poderosos. E prossegue: “Nesse ponto, a crise nos mostra que há uma fragilidade na legislação eleitoral e pior, há uma enorme fragilidade ética e moral por parte de pessoas que estavam acima de qualquer sentimento de dúvida por parte da população”.

Na opinião do presidente da OAB, o Congresso Nacional está inibido, “pois seus membros mais ilustres, os que realmente se mantêm fora da crise e honram o seu mandato, estão quase que tolhidos pelo mar de corrupção do qual participam dezenas ou talvez centenas de parlamentares, acusados de atuarem nesse desastre moral e ético a que os comandantes deste País deixaram chegar”.

A idéia da constituinte exclusiva, merecendo o apoio do acuado presidente Luiz Inácio Lula da Silva, poderá reverter os índices de impopularidade do seu governo e o recolocar na história do Brasil, afastando-o da tentação preconceituosa de acusar os que ele chama de “elites”. Os discursos estão se voltando para as classes desfavorecidas, e, Lula, no estilo “Chávez”, segue os caminhos do apelo populista, apertando o peito com as mãos sobre o símbolo da República tão vilipendiada pelos “companheiros”. É hora de lembrar Getúlio Vargas: “O ideal é ainda a alma de todas as realizações”, e seguir de cabeça erguida.

Paulo Castelo Branco

é advogado e ex-secretário de Segurança Pública do DF.

Gilberto Aparecido Americo disse:
28 de julho de 2005 às 17:06

Mudar a lei não vai resolver absolutamente nada. A solução é conviver com os nossos defeitos. Enquanto não melhoramos, vamos exigir rigorosa punição daqueles que supostamente praticaram os crimes exaustivamente noticiados.

Por outro turno, não atribuamos aos menos esclarecidos a responsabilidade pela escolha de nossos governantes. O Congresso Nacional é nossa "cara". Eu mesmo votei quatro vezes nos senhores Lula e outras tantas no Genoíno. Uma vez no Zé Dirceu. Infelizmente, as nossas opções somente estão corretas quando nossos candidatos não são eleitos.

Na próxima eleição irei de Partido Verde; mais à frente, talvez de Azul. Um dia as coisas melhorarão mesmo porque não há como piorar. Enquanto isso, não gastemos desnecessariamente os recursos que não temos.

Gilberto Aparecido Américo
advogado

Rossi Vieira disse:
28 de julho de 2005 às 21:28

Gostei: constituinte exclusiva Já ?
otavio

José Roberto C. Raschelli disse:
29 de julho de 2005 às 10:41

Costumeiramente, no Brasil, busca-se corrigir os efeitos sem o fazer com as causas. Nosso problema é de crise moral e que só tem como minorar através da rápida, eficiente e justa aplicação das leis penais. Mudá-las entes de avaliar seus efeitos, sem nunca aplicá-las, não passa de exercício de ficção.

JA Advogado disse:
29 de julho de 2005 às 11:02

Traficantes não podem redigir a lei de combate ao tráfico; bandidos não podem interferir na redação do Código Penal; corruptos não podem propor nem votar leis de combate à corrupção, mas são os políticos que redigem a lei eleitoral e a Constituição. A idéia é boa, mas quem participar da constituinte exclusiva deveria ficar impedido de disputar cargo eletivo por um bom tempo, talvez dez anos. Uma constituinte exclusiva, aprovando o voto distrital para acabar com os pescadores de águas turvas, talvez faça o Brasil acordar.

Hilton Celer Pereira Advogado disse:
29 de julho de 2005 às 13:28

Com pesar ouço,vejo e leio a respeito dos inúmeros casos de corrupção, nos Correios, no congresso, etc. essa idéia de assembléia exclusiva é excelente, desde que sigamos o que o colega José Roberto Dietrich Filho sugere, que é a não participação dos nobres colegas em cargos eletivos por um bom tempo.

Hilton Celer

Julius Cesar disse:
26 de agosto de 2005 às 22:01

A única forma de se obter um estado verdadeiramente democrático será com a convocação de uma ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE. Ela funcionaria paralelamente ao Congresso Nacional. Teria no máximo cem membros, todos portadores de nivel superior. Mandato máximo de dois anos. Promulgada a nova Constituição, os constituintes estariam proibidos de exercer mandatos políticos por dez anos.

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