Há todos os dias nos jornais uma, digamos, paidéia maçônica. Daquelas metidas em lama a todo o momento. E que, quando flagrada, já envereda por desculpas. Sempre jogadas em cima de pequenos funcionários. Esbirrros, meirinhos, secretários. Conhecemos bem essa saída. É a explicação dada por Hannan Arendt em Eichmann em Jerusalém (1961). É o que ela chamava, inagurando o termo, de “banalidade do mal”. Nas palavras dela, “a proposta de que o mal no terceiro Reich surgiu da classe de burocratas banais, amorais”. Eis a melhor forma dos acusados fugirem da paúra: bota a culpa no de baixo.
Conhece-se, também a partir do Reich, donde surge tudo isso. Era aquilo que os nazistas chamavam de Gleichschaltung, ou simplesmente “coordenação”: tudo num regime deve trabalhar coordenado. Mas não nos modelos da Toyota (toyotismo), em que cada funcionário aprende a fazer (e faz) tudo. Sempre será o modelo fordista (standardization os parts), em que cada um faz apenas uma parte.
Transportado esse modelo para a política, e mesmo para o crime organizado, quando a casa cai e o te vira nos trinta é o que sobra, brota disso, naturalmente, uma desculpa já pronta: “Eu não sabia disso, isso não chegava até mim, quem cuidava disso eram responsáveis subalternos, etc”. Alguma semelhança com o que os corifeus do PT têm usado para limpar a lama da bota, ou da gola, será merá coincidência. Ou não. Mas veja lá: quando as investigações sobre a lavagem de dólares chegarem ao PSDB, ou mesmo ao PFL, a desculpa não será diferente. Será, digamos, uma desculpa de talhe museificante. Mais retórica. A única coisa que o bocejo ideológico tucano ou pefelista ainda guarda é o axioma de que não se entrega o leite em política.
O velho tio Freud também tinha uma explicação para isso, a que ele chamava de Denkverbot, ou proibição de pensar: os homens, afinal, precisam ser protegidos deles mesmos. Essa gente metida nas roubalheiras dispõe dessa capacidade singularmente política que é a de obliterar, cínica e racionalmente, da própria cabeça, as trapaças em que se meteram. Alguém já chamou isso de ironia política, termo que se torna moralmente intransitivo quando analisada a gravidade da coisa. Estamos lidando com gente capaz de se portar publicamente como se nada tivesse acontecido, e ainda botar a culpa no gabinete do lado. Nesses termos foi vomitivo o jeito pelo qual José Dirceu posou na capa da Folha do último domingo: usar branco e com os pés descalços é o que resta para quem acabou de tirar a lama do gogó, e atirar os excessos no gabinete do lado.
Mas não vamos chorar o leite derramado, nem nos comprazermos com escândalos que rumam, lentamente, para o passado, até porque os poderosos assim o querem. Vamos usar essa lupa, que mostra como essa gentalha atua, nos próximos desdobramentos. Segunda-feira agora, dia 3 de outubro, a PF deflagara uma operação que apurará gente famosa que lavou dinheiro na conta-ônibus Beacon Hill, que movimentou RS$ 88 bilhões. Da operação sairão nomes de gente famosa da TV, jogadores de futebol, donos de casas noturnas. São 2,1 mil inquéritos em São Paulo e 700 no Rio de Janeiro.
Façamos as apostas: as desculpas serão essas mesmas ou alguém vai sair do armário e assumir alguma bobagem?
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