O objetivo deste texto não vai além de propor, substancialmente, uma leitura narrativa dos fatos da vida cotidiana à nossa volta, sobretudo em face do incremento da violência de todo espectro e intensidade. Não é, pois, rigorosamente propositivo e nem reclama pela adoção de providência específica alguma, senão a reflexão dos quadros sociais que estão postos, hodiernamente, à cidadania brasileira. Nada obstante, ao fim se considera agregar um apelo pedagógico como uma ode de esperança que não permite hermetismos argumentativos em sentido oposto ao daquele que ficará descrito.
Quem se dispuser a viver no Brasil, hoje, vai ter de encontrar e reunir disposição aventureira, paciência de Jó, acuidade cirúrgica para a auto-defesa e, sobretudo, muito desprendimento e amor pelo país, se nada mais lhe restar.
De fato, ao transitar pelas vias urbanas o cidadão está arriscado a, no mínimo, ter seus pertences subtraídos, abordado por toda forma de inconvenientes ortodoxos, enfrentar serviços manejados por agentes heterodoxos, enfim, no limite, arriscar a própria vida em um lance de inopinado.
Se, outrossim, busca o lazer, vai ter de enfrentar tubarões esfomeados na praia (resultado de crônicos descuidados ambientais do meio em que vivemos), a contaminação alimentar ou o caos no espaço aéreo com possibilidade de colisões em pleno vôo, transtornos que geram morte e tragédia.
Enquanto isso, a TV mostra o caldo de nossa cultura laxista e inidentificável; mas, os motéis e os “inferninhos” andam cheios de freqüentadores, ainda que não se perceba dinheiro bastante para esse tipo de despesa ordinária (vale a ambigüidade).
Ao mesmo tempo, ainda somos um “paraíso” aos parasitas de toda grandeza, aos sonegadores e corruptos de toda especialização e àqueles que se privam voluntariamente de todos os sentidos e de todas as virtudes que forjam, realmente, uma sociedade evoluída, aberta no sentido de Karl Popper.
É com esse espelho que o Brasil vai se notabilizando ainda mais no cenário das nações, muito a despeito do romantismo — auto-promocional e idiotizante — da retórica oficial.
Ao contrário, o cidadão vive na realidade e a realidade é o que salta aos olhos à nossa volta. Menos mal que, por vezes, figuras do maior calibre republicano, em pessoa, também sofram os efeitos deletérios desses quadros, porque já aí não restará espaço para a objeção cínica aos reclamos sociais que os mais modestos já não têm como realçar, haja vista uma tendência que parece irreversível que leva o comum do povo à descrença e ao pessimismo, sobretudo quando aponta para a tendência de agravamento — que sentimos tão evidente — ao pensarmos nos aspectos econômicos, políticos e sociais.
É o caso do assalto sofrido pelos ministros presidente e vice-presidente do Supremo Tribunal Federal quando transitavam em comboio pelo viaduto Ministro Mário Henrique Simonsen, no Rio de Janeiro, caminho que liga o viaduto do Gasômetro e a Linha Vermelha por volta das 21h45 desta quinta-feira (7/12). Curiosamente, o local do assalto aos ministros é o caminho obrigatório a ser seguido por quem chega ao Rio de Janeiro via Aeroporto Internacional: a Linha Vermelha, aliás, é um cenário urbano de incontáveis casos de assaltos e tiroteios.
É preciso dizer mais? Ora, se nem mesmo o aeroporto é mais a saída, o que resta ao brasileiro além de contas a pagar diante de um autêntico pessimismo da força, corrosivo e desagregador?
O modelo de sociedade que vimos construindo até aqui está esgotado. Já não se tem como valorizar a mistura étnica que não encontra a unidade ética como utopia social a atingir. De carnavais, malandros e heróis macunaímicos o país já se fartou à exaustão. E como os benefícios da vida são invariavelmente insuficientes para responder adequadamente à demanda reprimida, sucede que a caudal de incivilidades a que nos acostumamos a presenciar, dela participar ou simplesmente silenciar, ante as ameaças recorrentes que o plexo das mesmas incivilidades replica, parece não ter solução de continuidade. Por isso nos tornamos uma sociedade cênica (que faz de conta que é), cínica (que transita com desenvoltura mediante o falsum) e tanática (que se apraz com o trágico).
De algum modo, todos caminham de acordo com as suas próprias conveniências e não há felicidade coletiva que se estabeleça mediante um tal modelo de conduta. Nada obstante, há de se compreender que todo pessimismo só se instala no espírito humano em face de certos paroxismos que deixam à mostra, claramente a quem reúne um mínimo de inteligência e capacidade de crítica, inclusive a auto-crítica, que os quadros institucionais observados não têm solução, sequer revolucionária. De fato, não há atualmente temperança social e política entre nossa gente capaz de fomentar as transformações tão urgentes quanto necessárias. Somos pessimistas porque, afinal, ninguém nos conferiu uma razão plausível para que não o fôssemos.
E conforme não haja espaço para a intergrupalidade, muito embora o meio esclarecido deva encontrar no pessimismo da força o elemento desafiador a impulsioná-lo à resistência moral, sucede que não há disposição de fato às grandes massas no sentido da transformação social, obtenível a partir de sua própria organização e de sua luta, restando, assim, ao cidadão honesto, que, embora sentindo-se impotente, ainda resiste em não envergonhar-se de sê-lo, fechar-se dentro de si mesmo e literalmente abandonar-se nas mãos de Deus.
Triste quadra esta em que vivemos. Por isto é indispensável que as massas se elevem à resistência esclarecida, o que somente poderá vir a ocorrer mediante educação libertadora, determinada e continuativa.

Só um comentário: deixamos de ter saída nos aeroportos, simplesmente porque está em marcha um movimento liderado por setores militares saudosistas de 64, que não toleram serem comandados por um civi, e pior, que esse civil seja o atual ministro da defesa, Valdir Pires, grande brasileiro e uma das maiores vítimas dos gorilas de 1.964. Estão aproveitando a "operação padrão" dos controladores para "derrubar" aquele que nunca se acorvadou contra os fardados fascistas que assaltaram o Brasil no dia 1º de abril de 64. Pires, infelizmente, é o homem certo no lugar errado. Mas os lunáticos que acham que podem criar as condições para o golpe, se enganam. Avançaremos e consolidaremos a democracia para o povo.
É uma pena que quando eu fui roubado na porta de minha casa, e mantido refém sob a mira de uma arma por mais de 3 horas, ninguém tenha feito um artigo tão rico a respeito.
A violência não é apanágio da sociedade brasileira. Ocorre em todo o mundo. A ministra Helen Gracie acaba de participar de um seminário em Brasília (dias 4 e 5/12/06) sobre o seqüestro internacional de crianças. Esses seqüestros ocorrem na Colômbia e nos EUA com mais freqüência que no Brasil. O assalto sofrido pela presidente do STF no Rio é apenas mais um caso de violência contra autoridades. No nosso Estado, foram mortos os prefeitos de Santo André e Campinas e ninguém alegou que estávamos no fim dos tempos. Há capitais brasileiras violentas, como Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e há outras mais pacíficas, como Florianópolis, São Luís, Teresina. A violência, no Brasil, e talvez em outros países, é endêmica. Das dez cidades mais violentas do Brasil, três são do Espírito Santo e três de Pernambuco. O risco de ser morto em Serra, no Espírito Santo, é doze vezes maior que em Maringá, no Paraná.
Quando havia a UNE, hoje é um sinulacro, certos setores diziam: estudante tem que estudar. O sr. Jarbas Passarinho castrou nossa juventude, naquela época, e a castração continuou.Nossos líderes ainda são, estes que aí estão, "como nossos pais" (Belchior, quer dizer, com a mentalidade conservadora da metade do século passado. Hoje, grande parte desses conservadores dão-se ao luxo de convocar a juventude. Par que? Combater o pós-modernismo, a mesmice, a alienação televisiva. Pergunta feita por um certo personagem histórico: "Que fazer?". Os donos do poder estão felizes. E a violência batendo às portas de todos. Mas só há preocupação quando um deles (no presente dois) são atingidos.
...dr. roberto (esse realmente é doutor) prefiro outro karl, aquele que dizia que o homem antes de filosofar tem que ter a "barriga" cheia. Acrescentaria: sem fome, com educação, trabalho e saúde. os magistrados ajudariam muito se pudessem "de ofício" obrigar o cumprimento dos sete primeiros artigos da Constituição, ou então "corrigir" a sociedade mandando para a sanção penal os verdadeiros bandidos, os chamados de "colarinho branco" que indiretamente provocam a falta de dinheiro público para investimentos nos direitos sociais. no mais é debate acadêmico com chá ou uísque 12 anos.
Há mais de 30 anos ouví de um amigo quando discutíamos a respeito das desigualdes sociais e o descaso à "dignidade" humana:
-"Todos são iguais perante a Lei mas parece que alguns são MAIS IGUAIS que outros"..
-"A Lei é para todos, para os amigos a justiça!".
O caos é geral. A humanidade está doente e a palavra honra caiu em desuso.
Durante anos, como Assistente Social a tragédia social (violência, miséria, etc) foi meu cotidiano.
Por último a violência atingiu meu lar (agressões do cônjuge) Tomei de imediato todas providências: BO, exame no IML, representação, inquérito,etc. Ao final os processos foram extintos em função do ritmo lento para julgamento (prescrição do prazo, citações dificultadas )(agressor nunca estava em casa...) perícias de documentos i n t e r m i n á v e i s,
Ações indeferidas por "falta de interesse processual", e alguns artifícios jurídicos... Além de outras ações que tramitam há anos.
Tudo de acordo com a lei e medidas judiciais cabíveis.
Cobrar dívidas é desanimador, quando chega a sentença, a execução, o devedor já não tem mais nada oficialmente em seu nome, no entanto possui iate, carros importados em nome de terceiros, imposto de renda "vazio".
E ainda afirmam que o futuro depende das crianças. Triste legado.
O caldo está engorssando... Espero que todos aqueles que gozam de privilégios (carros oficiais, seguranças com armamento pesado, etc.)fiquem, como eu e tantos Zé's e Marias deste Brasil afora, sujeitos ao banditismo e à insegurança. Que os privilegiados tenham medo de sair à noite e até de dia. Que sofram com o quadro tétrico que é a Segurança neste país de ninguém, pois só assim acredito que a situação possa mudar. Deixa o homem trabalhar... deixa... deixa... deixa...
Não é por nada não, mas eu acho que seria "tanatológica" e não "tanática", hein?
Por caridade, cuidemos de não contribuir para espancar um pouco mais a "última flor do Lácio".
Jesus não tem dentes no país dos bangelas.
Essa nossa realidade são os excrementos de nossa elite composta de mercenários, estrupadores, assassinos e ladrões, outrora, nascida em 1500.
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