Não existe sistema penitenciário, mas um depósito humano

O Estado e a sociedade civil organizada não podem ser mobilizados tão-só quando um fato de proporções lamentáveis, como este acontecido em São Paulo, vitima agentes do poder público e cidadãos inocentes. Quando isto acontece, todos somos atingidos diretamente enquanto integrantes deste mesmo núcleo social partido. Partido, não. Estilhaçado.

Precisamos repensar os sistemas judiciário e de segurança pública como um todo. Eles hão de caminhar juntos, porque somente assim conseguiremos, em médio e longo prazos, cumprir o que a Constituição da República determinou, não só para alguns poucos privilegiados, mas para todos os cidadãos brasileiros e estrangeiros que aqui vivem.

Todos sabem — e fingem não saber — que não se resolverá a criminalidade com leis mais severas. Já temos leis demais. Basta cumpri-las, sem excessos e sem violar os direitos fundamentais e as leis ordinárias brasileiras (aliás, algumas destas leis, por sinal, devem ser expurgadas do ordenamento jurídico brasileiro, tamanha a sua ineficácia, ilegalidade e inconstitucionalidade).

O Estado policial não serve para atender situações como as acontecida no último final de semana em São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná. O sistema de segurança pública age, sempre, na ponta final do problema de um grave problema social que se arrasta há séculos. Ele jamais atua em sua raiz. Esse pensamento é antigo, mas as autoridades constituídas de hoje, de ontem e de anteontem, somadas aos segmentos retrógrados da sociedade civil, não têm, ou não querem ter, esta percepção. É lamentável. O preço a ser pago é este, sem qualquer máscara.

O câncer está presente no seio social de há muito. A metástase já foi diagnosticada por todos, mas ninguém se digna assumir o compromisso político de receitar o remédio correto e preventivo que tenha o condão de extirpá-la na sua raiz. É mais fácil vender o remédio do discurso fácil do movimento lei e ordem do que trabalhar na conscientização do povo para o grave problema que a todos preocupa.

Poder público e sociedade civil devem, irmanados, ir direto ao encontro do nó górdio do tema para que os abutres de plantão, sempre às espreitas, não aproveitem o resultado desse drama para alimentar seus mesquinhos interesses pessoais.

Penas mais graves e prisões infinitas não estão postas a solucionar o problema. Milagres, nesta seara, não existem. Se existissem, tudo já teria sido resolvido numa só penada, não só no Brasil, mas no mundo todo.

São Paulo possui, hoje, cerca de 140 mil presos, dos cerca de 350 mil existentes no país. Observe-se que temos, hoje, cerca de 350 mil mandados de prisão a serem cumpridos, o que significa afirmar, por singelo cálculo matemático, que, de um dia para o outro, podemos ter quase um milhão de encarcerados, o que é um excrescência, considerando que temos uma população de aproximadamente de 180 milhões de habitantes.

O sistema penitenciário brasileiro não existe. Está falido. O que existe são depósitos de seres humanos, na sua maior parte, de presos provisórios (sem condenação definitiva por total responsabilidade da Justiça.), relegados à própria sorte, já que o Judiciário, o Ministério Público e o Executivo não lhes dão a atenção a que têm direito (direito, e não favor, como insistem alguns, de poucas luzes ou de luzes queimadas). Pode ele, sem qualquer dificuldade, ser comparado aos nefastos campos de concentração que vitimaram o povo judeu na Segunda Guerra Mundial, que pensávamos, e ainda pensamos, ver longe de nossos pensamentos e almas. Para que nunca mais!

Por isso, com total razão, Loïc Wacquant, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley e pesquisador do Centro de Sociologia Européia em Paris, ganhador do prêmio da Fundação MacArthur, conhecido como o “prêmio dos gênios”, em entrevista veiculada nesta segunda-feira (15/5) pelo jornal Folha de S. Paulo, quando sustenta que a expansão do Estado policial não terá o condão de acabar com a criminalidade, principalmente quando se constata que esse próprio Estado não respeita as suas próprias leis.

Ademais, com a sua autoridade, exclama, com propriedade: “a Polícia de São Paulo mata mais gente do que as polícias de todos os países da Europa juntos e o faz com uma quase impunidade”. Quase não, professor, com muita impunidade.

A população brasileira há de cobrar uma política pública de inclusão social para diminuir o fosso que separa os que tudo têm dos que nada têm. Enquanto isto não se tornar uma prioridade de governo, pode a sociedade civil se preparar para vivenciar situações cada vez mais calamitosas, como estas que aconteceram nos últimos dias. Elas farão, como estão fazendo, parte de nosso cotidiano.

Resta uma esperança, porém. As eleições serão em outubro próximo. Vamos fazer do voto a nossa arma, única forma de expressar o que pretendemos para o futuro do Brasil e do mundo.

Luís Guilherme Vieira

é advogado e cofundador e conselheiro do IDDD (Instituto de Defesa do Direito de Defesa) e da Sacerj (Associação dos Advogados Criminais do Estado do Rio de Janeiro).

caiçara disse:
15 de maio de 2006 às 16:09

Por que, em vez de depósitos, não seguimos o exemplo dos EUA e começamos a eliminar esses párias? Quanto à policia de SP matar mais, discordo, acredito que ela está matando pouco e mal....

Hwidger Lourenço disse:
15 de maio de 2006 às 16:18

Com a devida vênia, Professor, e falando como um pai de família:

Se muitos destes marginais tivessem sido mortos já há muito tempo, diversos cidadãos ùteis à sociedade, mortos neste fim de semana, ainda estariam vivos....Aparentemente, quando um marginal está queimando no inferno ele não pode cometer novos crimes por aqui.....

A Polícia de São Paulo precisa agir com mais rigor. E se um marginal resolver não se render, e enfrentar a polícia, que morra. Antes ele que um policial. Se se render, que se cumpra a lei. Com todo o seu rigor.

Se um marginal não quer enfrentar um sistema prisional caótico e desumano, mas que, no momento, é o único que temos, ora, não cometa crimes.

Comentarista disse:
15 de maio de 2006 às 17:24

Mais um pouco e vão sugerir o retorno do "regime de exceção", com a volta dos asquerosos e covardes golpistas que tanto contribuíram para deixar nosso país de joelhos perante o resto do mundo civilizado...

Luiz Augusto Mendes disse:
15 de maio de 2006 às 18:03

Infelizmente, no Brasil, a onda marxista do politicamente correto acabou com a honestidade intelectual e a única coisa que se ensina nas faculdades, em termos de direito criminal é o “direito penal mínimo”. O bacharel, achando que se trata do único caminho pelo qual pode interpretar a teoria do delito, fica a repetir besteiras como a de que a culpa pelos crimes é da pobreza, da falta de investimento em educação, do “sistema” e, ainda, da “sociedade capitalista”.

De fato, fatores como a pobreza e o baixo investimento em educação podem ocasionalmente ter relação com a infração penal, mas se fossem tão determinantes como nossos grandes professores vaticinam, estaríamos perdidos. Imaginem se todo pobre ou sem instrução fosse ladrão ou assasino!!!

Tem gente que insiste em assumir o que é óbvio: o “law and order” é eficaz no combate à criminalidade e baixou drasticamente o número de crimes no Estado de Nova Iorque.

Não adianta torcer o nariz para a realidade. Alguém consegue imaginar a polícia novaiorquina acuada por gangues ? Lá não tem conversa. Praticou crime, é preso. E, uma vez preso, cumpre a pena até o fim. Isso, porque estudos realizados por acadêmicos americanos concluíram que o principal fator que alimenta o crime é a desordem, a impunidade. Falta de punição gera o ambiente propício ao crime. E a frouxidão para com os pequenos crimes cria a condição para os crimes graves.

Investimento em educação (adequada, e não pafletária, daquelas que endeusam assasinos como Che Guevara) é necessário, mas rigor na aplicação da lei também o é. Não se combate o crime com flores ou bravatas, mas com a dureza necessária. Seria ótimo que se adotasse aqui a tolerância zero ou o funcionalismo sistêmico de Jakobs. Afinal, desrespeito à norma penal, em qualquer medida, é ofensa ao Estado e a condescendência com o criminoso macula a credibilidade do Estado aos olhos da sociedade.

Hwidger Lourenço disse:
15 de maio de 2006 às 18:07

Os golpistas já voltaram, meu caro. Zé Dirceu, que pelos anos 70 andava locuo para implantar outra ditadura por aui, já caiu....só falta o resto da corja, agora....

Hwidger Lourenço disse:
15 de maio de 2006 às 18:08

Os golpistas já voltaram, meu caro. Em 2002. Zé Dirceu, que pelos anos 70 andava louco para implantar outra ditadura por aqui, por sorte já caiu....só falta o resto da corja, agora....

Hwidger Lourenço disse:
15 de maio de 2006 às 18:08

Os golpistas já voltaram, meu caro. Em 2002. Zé Dirceu, que pelos anos 70 andava louco para implantar outra ditadura por aqui, por sorte já caiu....só falta o resto da corja, agora....

MUDABRASIL disse:
15 de maio de 2006 às 18:23

SERÁ QUE O ARTICULISTA NÃO PERCEBEU QUE ESTE ATAQUE CONTRA AS INSTITUIÇOES, PATROCINADO E PROMOVIDO PELO CRIME ORGANIZADO NÃO TEM NADA A VER COM AS CONDIÇÕES PRISIONAIS?

RBS disse:
15 de maio de 2006 às 20:20

Concordo com o Muda Brasil...Como pode criminosos de alta periculosidade ficarem falando no celular, jogando futebol, recebendo visitas intimas, etc. Todas as prisões deveriam ser de segurança maxima, todos presos com a mesma roupa, cabelos cortados, enfileirados, com bolas de metal no pé o dia inteiro, etc.

RBS disse:
15 de maio de 2006 às 23:12

Coronel Ubiratan para Presidente ! E Rota na rua para garantir o direito de ir e vir do cidadão de bem !

Aliás, que saudades da Rota...quem viveu aquele tempo sabe que bandido tremia ao ver policial, Respeitava autoridades, etc.

Armando do Prado disse:
15 de maio de 2006 às 23:46

A histeria provocada pela algazarra da mídia está instalada. Além disso, aparecem as hidras invocando Ubiratans, Erasmos Dias, Fleurys e toda sorte de covardes.

Agora, discutir o que importa, isso ninguém quer. Que tal discutirmos a política neoliberal irresponsável que na prática, principalmente aqui em S. Paulo, privatizou a segurança pública, que tal conversarmos sobre a legislação penal que é esquizofrênica, mercê de conviver com a Constituição cidadã, enquanto que ela foi gerada no ventre de regimes de exceção?

Toda a discussão entabulada pela OAB, por certos doutrinadores e por legisladores do quilate de pefelistas e tucanos, é para mascarar o modelo neoliberal, ocultando evidentemente a responsabilidade das elites.

Razão sobra a Percival de Souza que diz que nossos legisladores têm a cabeça na Europa e o resto do corpo no 3º mundo, vivendo de citações e não se preocupando em adequar a lei à realidade tupiniquim. Fazem o contrário, forçam a realidade para se encaixar na lei...

Marcos disse:
16 de maio de 2006 às 11:15

Tudo se baseia na corrupção brasileira. O dinheiro da educação não chega ao destino. Criados os marginais, o dinheiro da segurança também não chega ao destino. Armas e drogas entram no Brasil pela corrupção. Muitos não são presos em virtude da corrupção. Os que são presos, conseguem regalias como internet e telefone celular, mais uma vez pela corrupção...
Tudo está baseado num ciclo incontrolável de corrupção!
Num país onde até o presidente assume que é corrupto (sim, caixa 2 com dinheiro público também é corrupção, financiamento ilegal de campanha também é corrupção), o povo acredita em tudo, e em nada ao mesmo tempo.
E o pior de tudo é que vão usar essa palhaçada em campanha eleitoral...já vejo tudo, um lado dizendo que o governo federal é incompetente e o outro dizendo que o problema é social, atinge todo o país e o governo federal não devia ter cortado verbas da segurança para pagar juros da dívida...
Coitados de nós, que não sabemos votar...coitados de nós que vivemos em São Paulo, trabalhamos, pagamos impostos e sustentamos corruptos!

André Aron disse:
16 de maio de 2006 às 11:25

Concordo plenamente com o autor do artigo. Aliás, considero total absurdo o comandante da PM de S.Paulo, ontem, em entrevista coletiva televisionada, orgulhar-se ao afirmar que "nossas forças policiais já mataram 38 bandidos". Peraí! Eu não autorizei ninguém a praticar pena de morte. Que a Justiça brasileira é um lixo, não resta a menor dúvida. Que as cadeias são depósitos de gente, é outra verdade. Assim como não é fácil diferenciar policiais e criminosos comuns (mesmo que organizados).

Comentarista disse:
16 de maio de 2006 às 11:54

Parabéns ao PSDB do picolézinho de chuchu e ao PFL de ACM.

Ambos mostraram grande competência ao NEGOCIAR UMA TRÉGUA com o PCC...

De quebra, "descobriram" os culpados pelo caos: as operadoras de telefonia celular e os advogados!

E voltamos à normalidade.

Viva o Brasil!

Freddy disse:
17 de maio de 2006 às 10:38

Sem uma reforma geral no Código Penal, Código de Processo Penal e na Lei de Execuções Penais e em todo o sistema penitenciário brasileiro, além das ações integradas para a solução dos problemas sociais, de falta de emprego, moradia, enfim, da exclusão social, e a presença firme e não demagógica do Estado perante as classes menos favorecidas, tudo isso que está se conversando, falando, aborrecendo, é pura falácia, pura conversa fiada. Além disso, bandido tem que ser tratado como bandido. Se ousar sacar uma arma contra o policial ou qualquer outro cidadão tem que pagar o preço. Preso tem que ser tratado como preso. Sala individual com banheiro privativo, sem telefones, sem TV, sem rádio, sem jornal, sem revistas, sem internet, somente livros previamente liberados como leitura, enfim, num completo isolamento do que está acontecendo no exterior da prisão. Se o tratarem como um cidadão normal, além de estar engordando às nossas custas, estará sempre atento aos acontecimentos podendo com isso passar para os seus comparsas as suas ordens e instruções. Ou se isola o mal totalmente, ou não adianta ficar com conversa fiada.

Ottoni disse:
22 de maio de 2006 às 21:35

É muita retórica, teoria e doutrina.
A cada fenômeno social surgem as teses que buscam a solução de questões cuja dinâmica estaria a exigir estudo específico e especial de nossos dramas e necessidades.
Somos conhecidos como “los macaquitos” por nossos vizinhos, em virtude dessa mania de copiar costumes e soluções alheias.
A oligarquia rural dominante no início do século passado mandava seus filhos estudarem na Europa para beber a cultura clássica milenar.
Quando retornavam iam participar da vida política e concorriam a eleições onde o requisito da renda pessoal selecionava o colégio de eleitores.
Eram, portanto, eleitos pela classe a que pertenciam.
Passavam a aplicar, então, os conhecimentos adquiridos em países civilizados e milenarmente estruturados, num país selvagem, de índios e escravos.
Nosso Código Civil de 1916 é cópia do Código Napoleônico; nosso processo civil, instituto de rígida organização de atos tendentes a um determinado fim, está baseado no processo alemão, povo que já nasce com o gene da disciplina; as legislações penal e processual penal vêm dos juristas italianos que elaboraram teses nos séculos XVII e XVIII, as quais foram abandonadas depois da Segunda Guerra; aqui, ainda vigem.
O Código de defesa do consumidor, elaborado aqui, por brasileiros e para brasileiros serve de exemplo para o mundo, tendo conseguido resultados surpreendentes entre nós.
Num rasgo de objetividade e equilíbrio o comandante da Polícia Militar de São Paulo declarou que o único culpado por tudo o que acontece na área de sua atuação, é o Poder Legislativo. Diz ele: juízes, promotores, advogados, policiais e todos os demais agentes que, de alguma forma, exercem funções repressoras, estão subordinados à lei. Fora dela não há solução legal exigida pelo estado de Direito em que as democracias pretendem viver. Digo eu: o Congresso Nacional engavetou, durante mais de 10 anos, os 10 projetos que aprovou na semana passada, numa sessão de pouco mais de 5 horas de duração e que cuidam das medidas necessárias para coibir as ações do crime organizado. Se aprovados no tempo regulamentar, as sociedades criminosas não teriam vingado, os mecanismos de controle e monitoramento dos presídios teriam impedido a generalização de rebeliões, os sistemas de progressão de pena seriam mais adequados à nossa realidade, enfim, poderíamos ter, hoje, legislação penal, processual penal e de execução penal adequada aos nossos costumes e às nossas necessidades.
Todavia, continuam os curiosos a invocar sistemas penais norte-americanos, japoneses, suecos, noruegueses, enfim de sociedades que, específica e especialmente, montaram os seus regulamentos com propriedade e inteligência durante séculos.
Vamos ouvir as pessoas que, em silêncio e com sacrifício pessoal e familiar, atuam no dia a dia da vida carcerária, conhecendo os condenados na sua realidade existencial e que, sequer, são consideradas como elemento de informação por ocasião das crises, atualmente comuns no sistema.
Alguns preferem a informação contida num exame pseudamente clínico, feito através de entrevistas de poucos minutos e cujo resultado vincula o juiz da execução.
Em sua atividade profissional privada um psicólogo, ou seu equivalente médico, demora meses, para formar sua convicção a respeito das tendências de seu cliente.
Tudo data vênia, é claro!

Você precisa estar logado para enviar um comentário.

Leia também