Seu Israel não perde uma sessão do Tribunal do Júri

A não ser que o caso tenha um réu ou uma vítima famosa, o Tribunal do Júri não costuma atrair a atenção do público leigo. Não chega a ser um programa atraente assistir às sessões intermináveis de julgamento, quebrando a cabeça para entender o intrincado linguajar jurídico e acompanhar a desgastante estrutura do processo — oitiva do réu, das testemunhas, leituras de peças, debates, sentença. Além disso, Júri não tem hora certa para começar e muito menos para acabar, sem contar que, com freqüência, tem de ser adiado para satisfazer às manobras da defesa ou acusação. Mas é justamente o fator surpresa que transformou o seu Israel num freqüentador assíduo do Plenário do Júri na Barra Funda, zona oeste de São Paulo.

Feirante aposentado, 67 anos, semi-alfabetizado (mas muito bem articulado), Israel Laércio André, há dois anos, ocupa uma cadeira no 1º Tribunal de Júri de São Paulo, três vezes por semana. O estranho hobby começou por acaso. Ele passava na frente do Fórum Ministro Mário Guimarães e resolveu entrar para conhecer o prédio. Assistiu a uma sessão plenária do Júri e nunca mais passou uma semana sequer sem comparecer ao tribunal.

Seu Israel não só é conhecido de todos como conquistou a confiança dos funcionários da casa. Ele é cumprimentado pelo juiz e pela faxineira. Não passa por ninguém sem desejar boa tarde. Tem acesso aos lugares de uso restrito e de tomar café diretamente na copa.

No Plenário, escolhe cuidadosamente o lugar para se instalar — sempre na primeira fila, do lado esquerdo de quem entra na sala do Júri, de onde tem a melhor visão dos jurados e da tribuna do juiz. Não fica sem receber o aperto de mão do juiz, promotor e defensor. Tem advogado que mostra para ele peças do processo, empresta livro, recomenda filme. “O júri é minha casa”, admite.

De tantos júris, seu Israel adquiriu o que pode ser chamado de notório saber jurídico — pelo menos em matéria criminal, que é de que trata o Tribunal de Júri. Ele não diz jurados, mas sim “conselho de sentença”. Afirma que o promotor apresenta, depois da “sentença de pronúncia”, o “libelo crime acusatório”. Sabe que jurado gosta de ser chamado pelo nome quando promotor e defensor tentam convencê-los e é capaz até de explicar o princípio da presunção de inocência.

“O Tribunal do Júri é uma aula gratuita de Justiça, conhecimento e cidadania. Pena que só é divulgado quando o crime tem grande repercussão. Mas não é o personagem que faz um júri ser bom, mas sim a tese discutida”, afirma seu Israel.

Ele conta que já ajudou até defensor a escolher o conselho de sentença. “Era o primeiro júri de uma advogada dativa. Percebi que ela estava nervosa e fui conversar. Dei dicas sobre como escolher os jurados e o cliente dela foi absolvido. Somos amigos até hoje”, conta.

“Dá para perceber se alguém será um bom jurado pelo olhar dele quando é sorteado”, ensina. Um bom jurado, para ele, é aquele que tem experiência e que gosta da missão. “Jurado que faz cara feia ao ser sorteado, não vai dar certo”, diz ele.

Espectador inusual de um espetáculo inusitado, seu Israel é testemunha freqüente de histórias incomuns. Numa tarde de julgamento, ele viu o que achava ser uma mulher ser conduzida por um policial homem até o banco dos réus. Estranhou o fato, já que quando o réu é mulher, quem a acompanha até o tribunal é uma policial, e decidiu ficar até o fim para tirar a dúvida. “O nome dela era Cláudio e fiquei admirado por ser uma mulher perfeita”. O travesti Cláudio foi absolvido. “O conselho de sentença entendeu que o crime foi praticado por injusta provocação da vítima e forte emoção”, diz.

De tanto freqüentar o Júri,seu Israel aprendeu lições que não estão nos livros e que não são ensinadas na escola. Só de reparar no comportamento do juiz e do promotor ele já é capaz de antecipar qual será o destino do réu. “Se o juiz manda tirar a algema do réu é porque confia na tese da defesa. Se pede para o réu demonstrar os golpes do suposto crime, é porque desconfia do laudo dos peritos e da denúncia do Ministério Público. É absolvição na certa”, garante.

Seu Israel também descobriu hábitos de juízes, advogados e promotores. Tem promotor que não cumpre as duas primeiras horas de debate porque fuma demais; tem advogado que não fala no plural e juiz que passa quase todo o tempo despachando outros processos e não dá atenção ao debate no plenário. “Já vi até réu fugir”, conta. A intimidade com o Júri chegou ao ponto de seu Israel saber como promotor e advogado vão cumprimentar o juiz, antes dos debates. “O autor mais citado é Dostoiévski”, completa.

Família de luta

Seu Israel abandonou a escola na terceira série do ensino fundamental para trabalhar. Entre seus amigos de infância estavam Eder Jofre, o maior campeão de boxe que o Brasil já produziu, e o atleta Adhemar Ferreira da Silva, bicampeão olímpico no salto triplo (em 1952 e 1956). Na adolescência, treinava boxe com Éder. O técnico era Kid Jofre, pai de Éder.

Ele desistiu do boxe depois que perdeu uma luta. “O juiz disse que perdi, mas até hoje não concordo com isso. Fiquei tão decepcionado que não quis mais lutar”, lembra. Sua primeira filha deu seqüência à dinastia de lutadores da casa. Soraia André aderiu ao judô e no tatame conquistou duas medalhas de bronze (1983/87) e uma de ouro (1982), em Jogos Panamericanos. Hoje, dá aulas de educação física.

Outra filha é caixa de banco. A menina caçula é agente carcerária e o filho é guarda-civil metropolitano. Seu Israel é casado há 43 anos. “Quando não estou no Júri, vou para o baile da terceira idade. Sou muito ativo. Tenho muita energia para gastar”.

Aos 67 anos, Israel Laércio André ainda sonha ganhar uma bolsa de estudos para fazer a faculdade de Direito e atuar no Tribunal do Júri. “Este é meu maior sonho. Modestamente, tenho certeza que serei um bom promotor, ou um bom defensor. O júri é uma grande paixão”, finaliza.

Priscyla Costa

é repórter da revista Consultor Jurídico

Orlando Maluf disse:
21 de julho de 2007 às 12:44

Fato interessante, principalmente por ser o sr. Israel cidadão comum, típico representante do povo, povo que qualifica e distingue o Tribunal do Júri. Talvez por essa razão é que ele possui a percepção dos sentimentos dos jurados e da tríade componente da Côrte.
Um bom exemplo aos que pretendem conhecer direito e justiça.

Lins disse:
21 de julho de 2007 às 13:40

Parabenizo o Sr. Israel, no exercício do Dom que Deus lhe concedeu. Na vida passamos por várias fases. "Existe tempo de plantar e tempo de colher", continue perseguindo o seu sonho. Pois, com certeza alcançará o seu objetivo.

Fernanda disse:
21 de julho de 2007 às 15:12

Sr. Israel certamente realizará seu sonho de cursar uma faculdade de direito. E terá um diferencial que não se ensina na sala de aula: já conhecerá a realidade no exércicio da profissão.
Com respeito aos professores mais dedicados, que durante as aulas procuram mostrar aos alunos que entre o estudo e a prática possuem muitas diferenças.

Hipointelectual da Silva disse:
21 de julho de 2007 às 16:38

A respeito da bolsa de estudos do Sr. Israel, com a palavra, as Universidades.

Hipointelectual da Silva disse:
21 de julho de 2007 às 16:40

Por que não levar o Sr. Israel para um Júri simulado nas universidades???

Fftr disse:
21 de julho de 2007 às 18:38

A matéria prova que a lei deveria facultar ao cidadão o direito ou não de constituir advogado para se defender ou postular perante o judiciário.

Cícero José da Silva disse:
22 de julho de 2007 às 21:48

Lendo a matéria, e pedindo desde já as devidas escusas para escrever algo afeito a minha família, me recordei do Senhor José Miguel da Silva, que hoje aos setenta e dois anos recuperando-se de grave enfermidade nos transmite uma lição de vida.

José Miguel da Silva, também estudou apenas até a quarta série, mas desde criança na Cidade de Catente no Estado de Pernambuco, assistia aos julgamentos pelo Tribunal do Júri.

Quando fui fazer minha primeira defesa perante o plenário lá estava ele, transmitindo-me os detalhes, parecendo que conhecia profundamente o Código de Processo Penal.

Sempre que subia a tribuna da defesa lá estava ele, observando, olhar atento a todos os detalhes.

De tão conhecido recebeu homenagens do Presidente do Tribunal, e ainda no último plenário o Promotor de Justiça fez questão de na saudação citá-lo, como um exemplo a ser seguido.

Mesmo se recuperando e com problemas que o impedem de se deslocar com facilidade e permanecer sentado por muito tempo, em agosto do ano passado, compareceu para assistir a um julgamento de repercussão em Santo Amaro.

Hoje o Tribunal do Júri de Santo Amaro, mudou-se para o distante bairro da Barra Funda, o que impede a locomoção do Senhor José Miguel para assistir os debates e transmitir seus conhecimentos a seu eterno aprendiz.

Espero que você se recupere logo, porque você é um guerreiro e mesmo com a distância, gostaria muito de vê-lo sentado de forma discreta na platéia, porque você meu pai me faz muita falta e o plenário sem a sua presença fica vazio.

Ricardo, aposentado disse:
23 de julho de 2007 às 02:12

Percepção e sabedoria . . .
"De tanto freqüentar o Júri,seu Israel aprendeu lições que não estão nos livros e que não são ensinadas na escola. Só de reparar no comportamento do juiz e do promotor ele já é capaz de antecipar qual será o destino do réu. “Se o juiz manda tirar a algema do réu é porque confia na tese da defesa. Se pede para o réu demonstrar os golpes do suposto crime, é porque desconfia do laudo dos peritos e da denúncia do Ministério Público. É absolvição na certa”, garante"

acdinamarco disse:
23 de julho de 2007 às 23:59

Alguém se lembra do Mesquita ? Ele, que nunca foi Advogado, frequentava, diariamente, os Tribunais do Júri e nunca disse que violenta emoção era causa de absolvição. Como leigo, conhecia muito mais que outros...
acdinamarco@aasp.org.br

Sídali João de Moraes Guimarães Filho disse:
24 de julho de 2007 às 00:34

Quanto vale o conhecimento acumulado do Sr. Israel Laércio para os escritórios de defesa criminal no Juri?
Atenção, Srs. Advogados, disputem esse "consultor" à tapa porque uma idéia dele sobre um jurado que seja vale mais que qualquer tese jurídica mirabolante que se possa inventar prá absolver um réu.

Murassawa disse:
24 de julho de 2007 às 10:53

Nuca é tarde para recomeçar os estudos, assim como, a prática e experiencia que o Sr. Israel adquiriu ao longos dos anos assitindo ao Tribunal do Juri, não tem preço, o que ele poderia repassar aos iniciantes, que tal.PARABENS SR. ISRAEL.

Cissa disse:
24 de julho de 2007 às 11:17

Adoraria conhecê-lo!

Tenho orgulho das pessoas do meu país, do meu povo.

Qualquer dia vou fazer companhia a ele!

Wanderley Gonçalves Carneiro disse:
01 de agosto de 2007 às 12:17

Wanderley G. Carneiro.

É, um verdadeiro absurdo, um despretigio a Ciência Jurídica e Social. com todo respeito, o Sr. Israel, deve estar delirando, assistir JURI não transmite cultura alguma, ainda mais para um pessoa de poucas letras.

Wanderley Gonçalves Carneiro disse:
01 de agosto de 2007 às 12:19

W.G. Carneiro.

Retifico: "uma pessoa".

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