Liberdade de expressão não é libertinagem na várzea

Eu nunca ouvira falar de Várzea da Palma, cidade ao norte de Minas Gerais com cerca de 35 mil habitantes, até que recebi um exemplar de um jornal local que no espaço destinado ao seu “editorial” transcreve artigo originalmente publicado aqui no ConJur e que faz parte do livro “A Fórmula do Sucesso na Advocacia” no capítulo “Advocacia e Ética”, de minha autoria.

O tal jornal que adulterou meu artigo está apenas na quarta edição e foi criado há menos de três meses. Começou muito mal.

Sempre respeitei os mineiros e tenho verdadeira devoção pela memória do maior advogado brasileiro de todos os tempos, um mineiro de Barbacena, que também foi jornalista, o doutor Heráclito Fontoura Sobral Pinto.

Mas lá em Várzea da Palma o jornal resolveu transcrever meu artigo e, após o texto, acrescentou dois parágrafos que não escrevi, ao que parece tentando denegrir a imagem de uma advogada local.

Sempre defendi e continuarei defendendo enquanto viver a liberdade de expressão. Qualquer um pode dizer o que quiser e diploma de jornalista é uma besteira criada pela ditadura militar e que hoje serve para dar lucro à indústria do ensino dito “superior”.

Quando a profissão foi regulamentada pelo decreto-lei 972/69 eu já era jornalista há mais de cinco anos e fui obrigado a registrar-me no Ministério do Trabalho para continuar trabalhando legalmente. Escrevi em vários jornais, cheguei a diretor de uma revista de economia e quando me tornei advogado deixei o jornalismo para um segundo plano… Mas até hoje sou filiado ao Sindicado e à Fenaj, ou seja, de acordo com a estúpida legislação brasileira, sou jornalista profissional.

O tal empresário mineiro não é jornalista. É dono de um jornal que, aparentemente, não obedece ao disposto na Lei 5.250/67, o que, se for o caso, as pessoas lá da sua cidade que se sentirem incomodadas com o que foi escrito que tomem as medidas que entenderem úteis.

Não me incomodo com a cópia do artigo, acreditando (modéstia às favas) que o ato de copiar é uma espécie de homenagem.

Se o dono do jornal fosse jornalista, teria que obedecer ao Código de Ética da Fenaj, citando o veículo do qual copiou o artigo e não se lhe acrescentando, ao final, dois parágrafos falsos como se fizessem parte do texto.

Não é a primeira vez que isso acontece com textos do ConJur. Um advogado aqui de São Paulo chegou a enviar um texto para publicação, formado apenas com trechos copiados de outros textos aqui publicados!

Um outro, residente no Nordeste , enviou-nos como se fosse seu um velho artigo meu que fora publicado…aqui mesmo!!! Já um ilustre professor de uma Universidade copiou vários parágrafos de um artigo meu sobre o “quinto constitucional” e publicou como se os tivesse escrito…

Essa palhaçada toda não é só falta de Ética, o que muitos apedeutas confundem com ótica… Trata-se de burrice, de idiotice mesmo, pois estamos no século 21, na era da Internet, onde quase nada mais se consegue esconder.

O mundo virou uma aldeia. Todos sabem de tudo, menos o varziano dono do jornal. Não conheço sua cidade. Mas deve ser um lugar bonito, pois fica perto do Rio São Francisco. Deve ter muita gente boa por lá, com certeza a maioria esmagadora da população.

Podem copiar todos os meus escritos. Mas não os adulterem. E tentem ser honestos: citem o veículo ou a obra de onde foram transcritos. Isso custa menos do que enfrentar um processo judicial…

Quanto às brigas entre o dono do jornal, o prefeito e a advogada lá de Várzea da Palma: procurem se entender, meus caros. Lutem pela sua cidade, pelo seu povo, pela liberdade de expressão. Não briguem entre si. Este filho de libanês adverte : brigar faz mal e atrasa o país…

Raul Haidar

é advogado tributarista e jornalista.

Robespierre disse:
22 de maio de 2007 às 12:04

...boa dr. haidar. muito feliz o seu comentário. as pessoas precisam se entender, principalmente, quando está em jogo o interesse público.

Dijalma Lacerda disse:
22 de maio de 2007 às 13:53

Lê Badrício,
ahrrarandina (fonética)!! Rs...

Boa Haidar, boa mesmo !
Que tapaço com luva (não tanto) de pelica que vocês lhes deu.
Parece que esse pessoal (do tipo que já de há muito conhecemos) não se emenda mesmo.
Às vezes pego-me a indagar: será ignorância, será despreparo, será falta de cultura e educação, será preguiça ?
Na verdade meu querido, penso que possa ser um misto de cada uma dessas coisas. Afinal, estudar, dedicar-se, aprimorar-se, passar noites e madrugadas em claro "em riba" de alguma tese na qual se acredita, não é para qualquer um. Não! É preciso ter pulso (para não dizer culhões), pertinácia, insistente audácia, coragem, independência, caráter, e sobretudo elevada dose de responsabilidade, aquela responsabilidade de quem escreve sabendo que irão lê-lo, possivelmente criticá-lo. Criticar é uma coisa, adulterar é outra .
Afora isso meu caro, vem a contumaz gentalha, gente sem caráter e sem capacidade de intelecção, os auto-ufanistas, biltres, os mau-caratistas de plantão - parafraseando o velho Odorico Paraguaçu - gente oportunista e que fica na "moita", na espreita, na ceva, esperando mentes responsáveis e culturalmente elevadas escrever algo para que disso se aproveitem inconseqüentemente, erroneamente, não raro de forma criminosa.
Da minha parte meu velho "Salim", pau neles, sem dó.
Essa gente só entende uma lingüagem, a da lenha.
Sarrafo neles !
Mal comparando, é aquilo que sempre tenho dito no que pertine ao aviltamento escancarado e contumaz de nossas prerrogativas: CRIMINALIZAÇÃO JÁ !
Essa "turma" só aprende pela dor. Pelo amor fazem pilhéria de nós.

Abração,
Dijalma Lacerda.

Band disse:
22 de maio de 2007 às 15:36

Caro Dr Raul Haidar

Acredito que quem copia é quem concordou com a tese, e portanto, com o senhor diz, a homenagem ao pensamento do seu autor!

Mas no caso em pauta não se trata de liberdade de expressão mas sim fraude, ao colocar nas palavras de quem não disse, e que se esconde atrás do outro para dizer! Isto é tapeação e não expressão!

Abraços

Rossi Vieira disse:
22 de maio de 2007 às 18:06

Parabéns mestre Haidar, está valendo um doze anos.Abraços

Otávio Augusto Rossi Vieira, 40
Advogado Criminal em São Paulo.

Sergio Mantovani disse:
22 de maio de 2007 às 19:23

Sobre o tema, ficou estarrecido quando vejo livros à venda "Modelos de petição". Ou é preguiça ou falta de conhecimento. Em tempo, Dr. Haidar, cobre pelos direitos autorais.

Sergio Mantovani disse:
22 de maio de 2007 às 19:24

Não é 'ficou', é fico.

Richard Smith disse:
22 de maio de 2007 às 23:22

Caro Dr. Haidar:

Parabéns pelo seu comentário, mas principalmente pela parte do "já começou mal". As safadezas, as imposturas e mistificações devem ser imediatamente denunciadas e postas sob o sol, aonde secam e desapareçem imediatamente.

Tivessemos sido menos complacentes com as mentiras e mistificações, com visões idealizadas e espúrias, com "erros" que nada mais eram do que simples e maliciosa falta de caráter mesmo, quando não simples crimes, e não estariamos sendo assolados pela corrupção, pelos desmandos e pelo autoritarismo mal-disfarçado de nossos dias.

Um abraço.

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